Passeando pela cidade, é possível encontrar farmácias que parecem viver em mundos diferentes, ainda que erguidas a poucos metros de distância. De um lado, a Farmácia Smart Health, com o seu inglês brilhante e cosmopolita, prometendo saúde inteligente, moderna, quase tecnológica. Do outro, a Farmácia Utomi, que em xangana significa “vida”, oferecendo o essencial de […]
Alguns estabelecimentos anunciam grandiosidade, outros apelam à fé, outros ainda fazem rir pela redundância. A “Alfaiataria Kamaheka” segue ´por um outro caminho. Ela segue o caminho da modéstia pragmática. Em xangana, “kamaheka” significa algo como “pode-se fazer”, “é exequível”. É uma promessa curta, mas carregada de sabedoria popular. É o que a antropologia chama de […]
Em xangana, “kurhula” significa “descansar”. Ao dar esse nome ao seu estabelecimento, o comerciante talvez quisesse transmitir tranquilidade. Aqui encontra-se carne em paz, vinda de um negócio sério, sem confusão. Mas não deixa de ser cómico imaginar um talho chamado justamente pelo verbo que descreve o que acontece ao animal depois do abate. Ele descansa… […]
Há nomes de estabelecimentos que soam a conselho, outros a ordem, outros ainda a piada. O “Quiosque Chega de Perto” combina tudo isso. Afinal, quem poderia comprar de longe? Não é óbvio que, para escolher um refresco ou uma pastilha, é preciso aproximar-se do balcão? A nossa imaginação é imbatível. E é precisamente porque ela […]
Entre os muitos nomes pitorescos das barracas moçambicanas, nunca vi um tão directo quanto o “Phuza Ufamba”. Em xangana, a expressão quer dizer “beba e vá-se embora!”. É um letreiro que já resolve, de antemão, qualquer dúvida sobre o que o cliente deve fazer ali. Beber, sim. Ficar, não. Nos meus momentos mais reflectivos, colocaria […]
Continuo aqui a reflexão iniciada sobre a sociologia do nosso quotidiano por via dos nomes de estabelecimentos comerciais. Se há nomes que nos fazem sorrir pela ironia involuntária, “Talho Carne Fresca” merece um lugar de honra. E se a ideia me tivesse ocorrido há mais tempo, teria sugerido que fosse incluído na lista de condecorações […]
Há nomes de estabelecimentos comerciais que são verdadeiros poemas da vida quotidiana. Passamos diante deles apressados, mas se pararmos para pensar, descobrimos um retrato da alma popular, com as suas esperanças e ironias. Se calhar até com as suas contradições. Tenho sempre prestado uma atenção especial a alguns detalhes do nosso quotidiano. Um deles é […]
Epílogo: Isaura na Consciência Havia uma menina no conto. O conto era sobre rapazes e um cão, o cão tinhoso, magro, doente, excluído. Mas havia também uma menina. Chamada Isaura. Ela não disse nada. Apenas apareceu, discreta, de tranças e vestido limpo, no exacto momento em que os rapazes se preparavam para matar o cão. […]
Capítulo 7: A Resposta Chama-se Cidadania Quando voltaram no dia seguinte, os três amigos traziam perguntas escritas num papel. — Se o passado nos deixou tantas feridas — perguntou Samira — o que podemos fazer agora? Como se começa de novo? Maria Tondhosa não respondeu de imediato. Pegou num pedaço de carvão e desenhou três […]
Naquela tarde, o céu parecia cinzento, mesmo sem nuvens. O vento era morno, mas sem frescura. Maria Tondhosa esperava por eles sentada de frente para a porta, com um pano vermelho nos ombros e um colar de contas azuis que tilintavam levemente sempre que ela se movia. — Hoje — disse, antes que qualquer criança […]