Eu já havia falado disso, de um ex-ministro que, depois de trinta anos entre os que detêm o poder, chegou à conclusão, após ter sido atirado ao alto mar sem colecte salva-vidas, que toda aquela pompa era falsa, disse assim mesmo, ainda na semana passada no bar de um lodge em Vilankulu onde nos reencontramos. Percebeu – o ex-ministro – que afinal o escafandro que lhe protegia dos fornos não era verdadeiro. Sentava à mesma mesa com eles em regabofes sem fim e pensava que ele também era um deles, não era.
Agora precisa de um café forte sem açúcar todos os dias quando salta da cama de onde pula sem motivação. Ainda tem dinheiro, muito dinheiro, mas está desprovido do poder, um poder que na verdade jamais teve. Já não dá ordens a ninguém a não ser aos empregados domésticos que mesmo assim não lhe fazem sentir-se alguém da alta roda do poder. Quando o telefone tocasse, na altura em que participava nos manjares presidenciais, podia pensar, antes de ver no ecrã, que será o presidente a ligar, agora não, o presidente não telefona para ele, a não ser os amigos que também andam frustrados, apesar de continuarem a nadar em rios de dinheiro. O problema é que agora são invisíveis, o povo despreza-os.
O poder é efémero? Absolutamente! Mas há quem o toma como é eterno. E as consequências dessa forma de pensar podem resultar em paranóia, como é o caso deste ex-ministro que se envergonha de frequentar a sociedade. Ele é um autêntico taciturno, sente medo quando lhe reconhecem e chamam-no pelo nome. Não aparece na Televisão onde bajulava o presidente, no lugar de falar de resultados do seu trabalho e do seu pensamento em relação ao futuro.
Agora o que lhe resta é andar por aí, cheio de dinheiro no bolso, mas sem perspectiva. Gasta o pecúnio em cascata, não se preocupa com o amanhã, a massa que tem no bolso não acaba. Porém, o que lhe dói é notar que ao longo deste tempo todo em que vagueou revestido de púrpura, fingindo trabalhar, não fez nada de extraordinário que levasse ao desenvolvimento do nosso Moçambique, um país que continua a ser dilacerado, com crianças que vão dormir sem comer nada, com raparigas e mulheres abdicando do corpo para ser entregue a sabujos por causa da fome.
Mas este ex-ministro está aí, abarrotado de dinheiro, porém, sem dignidade, nem na sociedade, nem no seio do poder. Nunca fez nada de extraordinário pelo nosso país, ninguém se lembrará dele. Então quando se recorda do seu próprio fracasso, bebe mais um duplo. Esconde-se dos holofotes que alguma vez lhe deram luz, e continua, não a ir, mas a ser levado pelas sombras da desonestidade para um fim inglório.





