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2 de November, 2026

Chicualacuala, Malvérnia e Vila Eduardo Mondlane!

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A chegada, na sexta-feira, 25 de Setembro, e o conhecimento de Mapai, sobretudo o saber de Mapai-Rio/Ngala e Mapai-Estação, trouxe em nós uma sensação extraordinária, uma grande alegria. A realização de um sonho antigo, exuberante e incomensurável é sempre algo excepcional. O descanso, então, não podia ter sido maravilhoso (melhor pondo: um descanso bem descansado). A fadiga de percorrer os quase 250 quilómetros metros de Chókwè até ali, mais 34km para Mapai-Ngala e de percorrer as ruas e ruelas da vila de Mapai-Estação abafou o barulho que se produz na vila com os movimentos (chegadas e partidas) de comboios. Barulho das máquinas, mas também da grande enchente de pessoas e da música indisciplinada que polui o ambiente – cada barraca/casa ou carro toca a sua música e ao tom e som que bem entende; um ambiente mesmo de feira, mas à noite.

E às 8:00 horas em ponto daquele sábado de um sol não muito quente, ali estávamos nós prontos para… “devorar” os cerca de 90 quilômetros finais para abater, matar completamente e de vez, um sonho com uma idade que ascendia a 50 anos, como apontado na primeira crônica. Tal como no percurso de Macaretane até Mapai-Estação, a estrada está(va) maravilhosa, um bom tapete, anda(va)-se muito bem; no último percurso Mapai-Chicualacuala, também se anda extraordinariamente, a viagem é doce!

Atenção que isto não é incitamento a grandes velocidades; é preciso andar-se responsavelmente em todos os troços, a partir mesmo de Chókwè, pois os “gados” podem pôr um fim abrupto não só à viagem de sonho mas também à sua própria vida. Pode, de repente, um bovino, um caprino ou ovino fazer-se à estrada, ou mesmo uma manada ter ocupado a estrada toda (como pode ver numa das fotos que acompanham este texto)… e se você vier a mais de 120km/h, o pior pode acontecer. Nós estávamos a uma velocidade responsável.

Um entretanto que não pode passar sem registo: a linha férrea acrescenta a doçura da viagem. De Macaretane a Chicualacuala, passando por Mabalane e Combomune, a rodovia anda lado a lado com a ferrovia; até parece um casamento perfeito, com os noivos caminhando lado a lado, a um passo sincronizado. Outra sensação. O muito normal é asduas vias ou se cruzarem num ou noutro ponto e noutras circunstâncias andarem “casados” por alguma pequena distância… neste caso, são cerca de trezentos quilômetros de andança conjunta. Por vezes, “encontra-se” com um comboio a vir do sentido contrário; outras vezes, ultrapassa-se a locomotiva. É uma sensação agradável andar lado-a-lado com uma linha férrea, ela complementa mais alguma coisa mágica à paisagem que se contempla.

Os 82 quilômetros para uns, para outros, 86 ou 89, de Mapai-Estação para Chicualacuala, “voaram” sem nos apercebermos. De repente, a chapa com a inscrição: “Bem vindo à Vila Eduardo Mondlane”! Tínhamos chegado, finalmente, ao ponto mais alto do sonho. A Vila Eduardo Mondlane é a sede do Distrito de Chicualacuala. No tempo colonial, chamava-se Malvérnia. Obviamente que parámos e fizemos as fotografias da praxe, o registo fotográfico para a posteridade! Pareceu estarmos a aterrar na… lua!

A entrada dá efectivamente uma sensação de se estar a entrar numa vila onde a estrada e a ferrovia quase se abraçam. Do lado esquerdo, quando se entra vindo de Mapai, perfilam vários edifícios entre instituições públicas, lojas, residências; constituindo grandemente a vila. O lado direito é completamente dominado pela infraestrutura ferroviária, várias linhas, um hangar completamente destruído por Ian Smith, e outro que serve de terminal e ao mesmo tempo de estação. Os comboios transportando passageiros terminam ali; mas os que transportam mercadoria diversa param ali, ou não, e depois seguem para Zimbabwe. É uma grande sensação ver um grande descampado com várias linhas férreas para, entre outras funções, as manobras das cabeças ou carruagens dos comboios.

Depois de apreciar e fazer fotos com um tanque gigante ostentando a escrita “Chicualacuala – CFM”, decidimos ir começar a apreciação da “vila de sonho” a partir do posto fronteiriço, já no sentido norte-sul. Tinham-nos dito que dista cerca de três quilômetros, mas, habituados a postos que distam alguma substância, pensávamos que iríamos andar mais alguma coisa. Nada. Em menos de três minutos já lá estávamos a visualizar a chapa ‘Posto Fronteiriço de Chicualacuala’. Não resistimos, parámos para fazermos as obrigatórias fotografias, mas…

Visualizámos, do lado esquerdo, a uma distância de cerca de 100 metros, uma tenda verde ao lado de uma árvore de sombra grande, três guardas fronteiriços com AKM’s nas mãos. Suspendemos a ideia de fazer fotos. Decidimos ir ter com eles para nos autorizarem a fazê-las. Mas o acesso ao local onde estavam os guardas, que é mesmo a fronteira, a porta de entrada ao Zimbabwe, passava em curva tipo “C” pelo Posto Fronteiriço – Migração moçambicana. Fizemos a curva, não parámos naquele edifício da Migração e, a alguns metros, parámos e descemos da viatura para falar com aqueles para-militares. Enquanto falávamos, e a conversa era muito amena e amigável, aqueles guardas já nos tinham autorizado a fazer fotos, eis que chega um carrito turismo, conduzido por um agente da Migração, fardado como tal.

Mal parou a viatura, a uns dez metros, o agente saltou para fora dela e abeirou-se de nós que ainda falávamos com os guardas. Ironia das ironias de destino, ele reconheceu o seu antigo docente de Introdução às Ciências Sociais na UEM. Foi um grande e caloroso abraço e a emoção da viagem subiu ainda mais. Aquilo estava incrivelmente doce demais, ouro sobre azul… ou, como se quiser, cereja sobre o bolo! Explicámos ao agente a razão do nosso movimento e o propósito da nossa ida a Chicualacuala!

Foi como que uma chegada à meta, ao objectivo final! O antigo estudante, também emocionado, avantajou-se ante os guarda-fronteiras e assumiu o papel de tudo, incluindo o de nosso guia turístico para toda a vila de Chicualacuala. Os guardas também se tinham oferecido para nos acompanhar para o outro lado da fronteira… Levou-nos, primeiramente, ao lado zimbabweano. A estrada asfaltada não entra para lá, é terra batida do outro lado… Uma decepção total, esperávamos encontrar um posto policial arquitectonicamente apreciável ou interessante, bem ordenado, arejado,  jardinado, bonito… um verdadeiro bom ponto de “Welcome to Zimbabwe”! Mas, mais nos pareceu casas de deslocados ou de refugiados abandonados, sem estética nenhuma. Não vimos casas bem feitas. O lado moçambicano está bem melhor que o do dos nossos irmãos zimbabweanos. Uma tristeza que se instalou em nós.

Depois de percorrermos os dois postos fronteiriços, o nosso ex-estudante levou-nos a todo o Chicualacuala. No lugar de voltarmos pela rua asfaltada em que fomos para o posto – e que termina justamente ali no posto fronteiriço -, levou-nos por uma rua de terra batida, pela esquerda. O que encontra primeiro é o bairro dos CFM. Uma boa quantidade de residências antigamente para trabalhadores dos CFM, mas que hoje albergam também outras pessoas em regime de aluguer. Quase todas elas ostentam nas suas paredes brancas vários furos resultantes de bombardeamentos das forças rodesianas. Há uma e outra que foram completamente destruídas, mas a maioria estão em pé e a ser habitadas. O rastro de bombardeamentos é bem visível naquele bairro. Seguimos e fomos dar ao lado traseiro da estação dos CFM. Tudo cinzento, enferrujado, dá mesmo a ideia de abandono, antiquado. Vê-se o hangar bombardeado e bem destruído pela aviação rodesiana. Hoje, está sem nenhum aproveitamento, envelhecido, apodrecido e sem nenhum sinal de movimento. Abandonado. Parece mesmo que a empresa CFM abandonou quase completamente Chicualacuala. Mesmo nas casas bombardeadas no seu bairro, continuam por tapar os buracos dos projécteis.

Seguimos pelo lado direito quando se chega de Mapai, vimos as casas residenciais e outras construções. Depois, atravessamos para o lado esquerdo. Aí, visitamos toda a vila, todas as estradas são de terra batida… Há todo o tipo de edifícios, casas bem alinhadas, outras nem tanto, mas todas elas ou a reclamarem reabilitação, pintura, ou com muros sem qualidade e outras sem eles. Praticamente não vimos obras, construções ou algum movimento de expansão da vila. Alguma coisa extraordinária… Pareceu-nos uma vila parada no tempo e no espaço, como até o atesta a chapa que anuncia a chegada à Vila Eduardo Mondlane.  O nome do nosso Arquitecto da Unidade Nacional não merece estar escrito numa chapa cinzenta, suja e velha daquelas. Restaurante, de restaurante, não tem; só barracas. Hospedagem condigna não nos foi mostrada – quando preparávamos a viagem, foi-nos recomendado fortemente para nos hospedarmos em Mapai. O nome do primeiro Presidente da FRELIMO merecia uma vila com melhor dinâmica, vida e energia. Chicualacuala merecia algo diferente, entusiasmante, muito melhor, uma espécie de compensação ao que sofreu com os ataques destrutivos rodesianos. Devíamos mimar Chicualacuala, Mapai, Combomune, Mabalane… por tudo o que sofreram na guerra de libertação da África Austral!

Ainda que não tenhamos pernoitado na vila sede de Chicualacuala, ouso afirmar que não há comparação com a dinâmica que vislumbramos na vila-sede de Mapai-Estação!

No final dos “noventa minutos”, ficamos com um duplo e contraditório sentimento. Confusos. Por um lado, bastantemente felizes por termos realizado um sonho que transcorria 50 anos. Mas, por outro, muito tristes pelo estado de semi-abandono a que se encontra votada a vila-sede do distrito de Chicualacuala! E todo o Distrito de Chicualacuala, um dos maiores criadores de gado bovino da província de Gaza!

E a “lua” que percorreu cinco décadas desvaneceu, minguou e desapareceu: os pés assentaram e bem no chão real! Nós!…

ME Mabunda

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