A decisão de satisfazer uma vontade que a cada ano se agigantava cada vez mais no aparente silêncio reprimido do coração, enquanto o tempo, esse, não espera/va por ninguém. Uma vontade antiga, mas que nem os 19 anos de intenso jornalismo activo em quase todas as províncias e menos os 16 de especialista em comunicação institucional numa das maiores e mais extensas empresas nacionais – se não a mais representada em mais de 80 por cento do território nacional – não conseguiram suprir, muito menos esmagar: conhecer in loco Mapai e Chicualacuala – o extremo norte da minha província de Gaza!
Digamos que a ansiedade durou por aí mais de 50 anos! Sim, cinquenta anos. Em 1976, quando a Força Aérea do governo rodesiano de Ian Smith começou a bombardear Chicualacuala, Mapai e foi subindo para Mabalane, depois Chókwè/Guija e… até onde os seus aviões conseguissem chegar, tinha eu 12 anos e estava na Escola Secundária de Malehice. Ouvíamos de várias fontes, quando calhasse ouvir noticiário, mas mais através de “boca-a-boca”. Mas a coisa ganhou contornos mais sérios quando, em 1978, se a memória não atraioça, chegaram ao Centro Internato de Malehice, onde estávamos internados e estudávamos na respectiva escola secundária, dois jovens naturais de Pafuri, região de Chicualacuala, cuja casa tinha sido bombardeada pelos aviões de Ian Smith e os progenitores tinham sido mortos nos ataques: eram órfãos e desabrigados. Ainda que a idade de puberdade não empurrasse a levar o assunto muito a peito, a “coisa” ganhou outros contornos. Quase toda a comunidade escolar de Malehice sentia bastante pena daqueles dois jovens irmãos. Ainda fiquei amigo do mais novo, dada a proximidade das idades.
À medida que os anos iam passando, 1977, 1978, 1979, cada vez mais íamos ouvindo sobre os bombardeamentos da Força Aérea da Rodésia do Sul àquelas regiões de Gaza, a mesma província em que nos encontrávamos: Chicualacuala, Mapai, Mabalane, Guijá, Chókwè… não sei mais aonde, mas chegou a haver uma “boca” numa dessas semanas, segundo a qual “Ian Smith” preparava-se para atacar Xai-Xai… A nossa província de Gaza estremeceu seriamente com os bombardeamentos do então regime minoritário da Rodésia do Sul. Em 1980, estando eu já em Xai-Xai, capital da província, os bombardeamentos cessaram e… a então Rodésia do Sul alcançara a independência e passara a chamar-se Zimbabwe e os bombardeamentos aéreos passaram para a História da África Austral.
Aquela não era uma guerra apenas entre o regime de Ian Smith e o Moçambique recém independente. Era uma guerra de “tudo ou nada” na região austral do continente africano, em que os países já independentes (Tanzania, Zâmbia, Botswana, Moçambique, Angola) batiam-se pelo fim de regimes racistas da Rodésia do Sul e da África do Sul. Aquelas Repúblicas consideravam que a região austral não estaria em paz com os regimes vigentes naqueles dois países. Os bombardeamentos de Ian Smith incidiam mais sobre Moçambique porque este apoiava declaradamente a luta de libertação da Rodésia do Sul, depois Zimbabwe, e, por isso, aderira às sanções decretas pela ONU contra o governo de Ian Smith e, por isso, albergava deliberadamente e treinava militares combatentes da ZANU-PF pela independência e tinha fechado a sua fronteira com aquele país, impedindo assim que os comboios de mercadoria e de passageiros entrassem ou saíssem por aquela via seja para o (ou do) porto de Maputo, seja para a (ou da) África do Sul.
Digamos que é este quadro que preenche a memória colectiva de boa parte de nós jovens adolescentes daqueles anos, a tal idade de puberdade! Que só mudou quando, de facto, se percebeu, se assumiu e se sentiu no terreno que já não havia bombardeamentos da Força Aérea Rodesiana (FAR), em 1980. E, no ano seguinte, fomos enviados para terminar o ensino secundário na Escola Secundária de Chókwè, que, ela própria, viu e sentiu nos seus ares os aviões rodesianos. A então 8ª Brigada das FPLM sofreu duros bombardeamentos, em retaliação a um ataque de helicópteros rodesianos em que muitos dos soldados de Smith foram dizimados pelos soldados moçambicanos. Mas, a garantia era total que já não havia mais bombardeamentos. A despeito disso, o cenário, o ambiente, o clima e o quadro geral ainda cheiravam a uma zona que tinha sofrido (ou estava a sofrer) na pele e na carne a “guerra de Ian Smith”!
Chicualacuala, Pafuri, Mapai, Mabalani, Macaretane, Guijá, Chókwè são os palcos históricos por onde passou e se conquistou a liberdade da África Austral ante o colonialismo português, o regime racista da Rodésia do Sul e o Apartheid na África do Sul. E isto marcou para sempre a mente de muitos moçambicanos da geração dos anos 60 e 70, como eu.
A estada em Chókwè foi tranquila. Não mais havia bombardeamentos de facto. Havia, já, a guerra da Renamo, mas ainda estava por longe. Depois, viemos para Maputo, em 1984, e a entrada para o jornalismo em 1986 e por 19 anos.
Se me perguntassem, como me perguntam, como é que não conheço esses locais históricos de Moçambique, sendo o jornalista que fui. Ainda enceto uma pequena correção, dizendo que conheço Mabalane!… Enquanto jornalista profissional, num assunto pessoal, fui dar a Combomune depois da guerra dos 16 anos, mas não passou de algo tipo passeata de brincadeira, só conheci alguma coisinha de Mabalane. Não o lado social, humano, cultural ou sofredor das profundas destruições realizadas pela FAR.
E o tempo foi passando até agora que a aposentadoria bateu à porta. Parece que a velocidade do tempo reduziu drasticamente e este parece inacabável. Lá veio a decisão: conhecer estes pontos num dos dois fins-de-semana longos que tivemos em Setembro passado. O de 25 colou muito bem: a luta armada de libertação de Moçambique começou nesta data e o que se passou naquelas regiões faz parte deste desiderato de ver a liberdade, a autodeterminação, a paz e o bem estar de todos os povos da região austral do continente africano!
Como as novas tecnologias nos vão ganhando as consciências e o dia-a-dia das nossas vidas, depois de nos metermos na viatura, lá pusemos no Location Search a palavra Mapai. Estávamos a sair de Chókwè, por aí 8 horas da manhã. Então entramos para a estrada seguindo a indicação da máquina Google. Uma das vantagens do Location é que ele vai dando a distância e o tempo exactos em falta para se chegar ao destino. Paramos em Mabalane e fizemos as fotografias da praxe com as chapas de localização. Depois, retomámos a viagem. O Location ia-nos indicando que, num determinado tempo, teríamos que virar à esquerda e andar mais 17 quilômetros para chegarmos aonde pretendíamos naquele dia, Mapai. Dito e feito, naquele ponto, lá viramos nós à esquerda e fomos andando. As percepções começaram a falar alto, alguma coisa não estava certa: como é que uma estrada de terra batida como aquela e com visível menor frequência de viaturas iria dar a uma sede distrital? Já com quase mesmo os 17 km feitos, encontramos duas raparigas sentadas à beira da estrada, a fazerem tranças uma à outra, e perguntamos se estávamos a ir para Mapai. A resposta delas foi que nós estávamos a ir a Ngale Leão…
Nunca tínhamos ouvido falar de Ngale, nem de Ngale Leão: eu, a Vilma, minha mulher, o Júnior, meu filho de 20 anos e seu amigo Mayani, de mais ou menos a mesma idade. Como não percebemos, optamos em continuar até encontrar alguém que explicasse melhor, mas também procurando um local que desse para fazermos a manobra da viatura e voltarmos para a estrada nacional, alcatroada. Cerca de 100 metros depois, eis-nos diante de uma casa vistosa no meio de tantas menos que tal: era a casa do chefe da Localidade de Mapai-Rio! Ou Mapai-Ngale! Ou Mapai Ngale-Leão! Todos estes nomes eram(são)-lhe aplicáveis. O que não percebemos daquelas meninas.
Mapai-Rio ou Mapai-Ngale, ou Mapai-Ngale-Leão, junto ao rio Limpopo, é a cidadezinha que existiu primeiro que Mapai-Estação, que é hoje a sede do Distrito de Mapai e que distava menos de três quilômetros de onde viramos à esquerda!
Como o “erro” do “Location” nos levou ao Mapai “original”!
(Continua)




