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9 de October, 2026

Noémia de Sousa: um centenário entre a memória de Saúte e a investigação na AEMO

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No ano em que se assinala o centenário do nascimento de Noémia de Sousa, Maputo tem acolhido diferentes iniciativas dedicadas à sua poesia, à sua trajectória e ao lugar que ocupa na literatura moçambicana. Entre elas estão o lançamento da biografia literária de Nelson Saúte e a Conferência Internacional “Centenário de Noémia de Sousa: Voz de Liberdade (1926-2026)”, realizada na Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO).

Os dois momentos, embora de natureza diferente, partiram de uma mesma figura: a poeta nascida na Catembe, em 1926, cuja produção poética se concentrou sobretudo entre 1948 e 1951 e que viria a ser reunida, décadas depois, em “Sangue Negro”.

Uma carta de juventude

Na tarde de 30 de Setembro, no Business Lounge do Nedbank, em Maputo, Nelson Saúte apresentou “Se Me Quiseres Conhecer – Noémia de Sousa: Biografia Literária”, obra construída a partir de décadas de pesquisa, convivência e escrita sobre a poeta.

O título recupera o poema “Se me quiseres conhecer”, de 1949, e retoma uma relação que começou quando Saúte ainda era adolescente. Segundo o autor, tinha 15 anos quando encontrou “Moça das Docas” numa antologia organizada por Orlando Mendes, em 1982. O contacto com aquela poesia viria a acompanhá-lo ao longo da sua formação literária.

A relação deixou de ser apenas a de um leitor com uma autora. Aos 19 anos, Saúte escreveu uma carta a Noémia de Sousa. Mais tarde, em Lisboa, conheceu pessoalmente a poeta e manteve com ela um convívio que se prolongaria por anos. É, então, dessa relação que parte uma dimensão importante da narrativa da nova biografia.

O livro reúne elementos biográficos, históricos e literários e recupera também a presença de Noémia de Sousa numa geração de escritores e intelectuais que inclui José Craveirinha, Rui Knopfli, Rui Nogar e Gulamo Khan. Na obra, Saúte escreve sobre a dívida de memória que sente em relação à geração que conheceu. A obra é apresentada pela editora como uma biografia que cruza a vida da autora com o contexto histórico e literário em que a sua poesia foi produzida.

Na apresentação em Maputo, Saúte voltou a sublinhar o lugar da poeta na formação da literatura moçambicana. “Noémia de Sousa é a mãe dos poetas moçambicanos”, afirmou, defendendo que a escritora introduziu uma nova linguagem na poesia moçambicana e abriu caminho para gerações posteriores. “Ela estabelece o cânone da literatura moçambicana”, disse.

A relação de Saúte com Noémia de Sousa atravessa quase quatro décadas de leitura, investigação, edição e memória. A nova obra acrescenta agora uma narrativa biográfica a esse percurso.

Em 2001, Saúte esteve envolvido na edição de “Sangue Negro”, publicada pela AEMO, que reuniu os 46 poemas escritos entre 1948 e 1951. A obra viria a conhecer novas edições, incluindo a da Marimbique e, em 2016, a edição brasileira da Kapulana.

A nova biografia foi também lançada no Brasil, pela Kapulana, em 1 de Setembro. A edição tem 176 páginas e apresenta o livro como uma biografia comemorativa dos cem anos do nascimento de Noémia de Sousa.

Na AEMO, Noémia de Sousa voltou a ser discutida

Antes do lançamento da biografia, a sede da Associação dos Escritores Moçambicanos acolheu, nos dias 28 e 29 de Setembro, a Conferência Internacional “Centenário de Noémia de Sousa: Voz de Liberdade (1926-2026)”. Organizado pela agremiação, o encontro reuniu escritores, investigadores, académicos e estudantes em torno de diferentes aspectos da vida e da obra da poeta.

O programa foi organizado em mesas dedicadas à resistência e liberdade, infância, mulher e liberdade, nacionalismo e identidade, mulher, legalidade e novas identidades, além de uma sessão de testemunhos.

No primeiro dia, a conferência inaugural esteve a cargo de Fátima Mendonça. Seguiu-se o painel “Noémia de Sousa: Resistência e Liberdade”, moderado por Sara Jona Laisse, com intervenções de Francisco Noa, Renata Diaz-Szmidt, Rosa Maguigilio e Sunlice Mauele, Sandra Banze, Carmen Lúcia Tindó Secco, Osvaldo das Neves e Solange Gilberta Bassene.

À tarde, o debate deslocou-se para “Noémia de Sousa: Infância, Mulher e Liberdade”, moderado por Albino Macuácua. O programa incluiu intervenções de João Alberto Houana, Neid Ferreira, Benedito Sambo, Hermínio Nhaca e Raene Raene, Luana Muurrmann, Albino Macuácua e Ana Mafalda Leite. O dia terminou com um recital de poesia de Ana Magaia.

No segundo dia, a discussão centrou-se inicialmente em “Noémia de Sousa: Nacionalismo e Identidade”. A mesa, moderada por Lucílio Manjate, reuniu Almiro Lobo, Ubiratã Souza, Camila Tauzama, Aline da Silva Lopes e Benilde Matsinhe Sambo.

Foi nesse espaço que Ubiratã Souza, da Universidade de São Paulo, apresentou a comunicação “O xadrez de Noémia de Sousa: subjetividades líricas, aquiescências e confrontos”. A apresentação partiu de uma questão sobre a recepção da poesia de Noémia de Sousa: o reconhecimento da sua obra decorre da representatividade social dos seus poemas ou também das suas opções formais e da construção poética?

Ao recuperar textos críticos de diferentes períodos, Ubiratã colocou em confronto leituras que privilegiaram a dimensão social da poesia e outras que defenderam uma apreciação sobretudo estética. Entre os textos apresentados estava a antiga polémica em torno da poesia moçambicana, envolvendo Alfredo Margarido e Eugénio Lisboa.

A análise concentrou-se depois no poema “Súplica”, escrito em 1949. A partir dos versos em que a poeta pede que lhe tirem tudo, mas não lhe tirem a música, Ubiratã propôs uma leitura em que a súplica não aparece apenas como gesto de submissão.

Na sua leitura, o “tabuleiro de xadrez” presente no poema relaciona-se com o confronto colonial e com uma estratégia de resistência. A música aparece como elemento que permite preservar uma dimensão de liberdade mesmo perante a perda da terra, da casa, da machamba e do próprio território.

Poesia, resistência e a condição da mulher

Ainda na mesa dedicada ao nacionalismo e à identidade, Benilde Matsinhe Sambo apresentou a comunicação “Experiência Colonial e Resistência: A Poesia de Noémia de Sousa como Arma de Libertação do Povo”.

A investigação, apresentada no âmbito de um doutoramento em Ciências da Informação e Comunicação, parte da pergunta sobre a forma como a poesia de Noémia de Sousa se transforma num instrumento de resistência ao colonialismo e de afirmação feminina.

O eixo proposto foi “Mulher e Liberdade”, com recurso à leitura de “Sangue Negro” e à análise de poemas como “Deixa Passar o Meu Povo”, “Negra”, “Nossa Voz” e “Moça das Docas”.

Na apresentação, Sambo aproximou a poesia da autora das questões do nacionalismo, do africanismo e da identidade feminina. A investigação considera ainda a poesia como espaço de denúncia da condição social da mulher durante o período colonial.

A análise de “Nossa Voz” centrou-se na passagem do “eu” para uma voz colectiva. A investigadora recorreu a Sueli Saraiva e Jane Hiddleston para discutir a literatura africana como produção inscrita num contexto de colonialismo, lutas nacionalistas e procura de uma identidade colectiva. Citando Martins, Sambo destacou que o poema “cria um elo entre o eu-lírico e um eu-colectivo, nacional”.

Em “Moça das Docas”, a pesquisa deslocou a atenção para as mulheres representadas no poema e para os processos de visibilidade e invisibilidade no espaço público. A leitura cruzou Carmen Secco, Duboin, Garan e Malzner e Nancy Fraser para discutir identidade, cultura popular e representação.

Já em “Negra”, a análise concentrou-se na construção do corpo da mulher negra e na forma como a linguagem colonial e racializada produziu representações desse corpo. A investigação convocou autores como Achille Mbembe, Judith Butler e Françoise Vergès.

Na conclusão, Sambo sustenta que a poesia de Noémia de Sousa articula resistência, identidade, memória colectiva e afirmação feminina, entendendo a língua como espaço de reconstrução de uma identidade própria.

Nacionalismo, identidade e novos debates

A conferência prosseguiu com a mesa “Noémia de Sousa: Mulher, Legalidade e Novas Identidades”, moderada por Filimone Meigos, com intervenções de Solange Maria José Macie, Paula Sarmento Monjane, Elsa Elias Tuzine, Sandra Maria Wela, Kátia Xavier Zeca e Ana Beatriz Morais.

No período da tarde, o programa incluiu um recital de Lucrécia Paco e uma sessão de testemunhos intitulada “Noémia de Sousa: um testemunho”, com Eldorado Dabula, Nelson Saúte, Joel Libombo, Lucrécia Mavota, Suzana Laisse, Marília Maximiliano e Óscar Monteiro.

A conferência terminou com a Conferência Magna de Encerramento, proferida por Luís Bernardo Honwana.

O centenário de Noémia de Sousa ficou, assim, marcado em Maputo por duas formas distintas de aproximação à sua obra: a memória de quem conviveu com a poeta e a investigação de quem continua a interrogar os seus poemas, a sua época e os lugares de liberdade que neles permanecem. (Reinaldo Luís)

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