Quando há pouco mais de um ano mudei-me do centro urbano, no coração da cidade de Maputo, para me estabelecer e ver o meu filho crescer aqui, na Ka-Tembe, nunca me tinha ocorrido começar uma coluna de opinião. Não vim com a cancha de cronista na bagagem, nem planeava escrever sobre este ou qualquer outro lugar. Queria apenas o que qualquer bom cidadão procura: viver a minha vida em paz, construir o meu lar e integrar-me na minha comunidade. Confesso que, à primeira, tive muitas dúvidas em começar este projecto. No entanto, hoje dou por mim a assinar a décima oitava (18ª) crónica que, de forma ininterrupta, sai na Carta de Moçambique sobre a Ka-Tembe.
Esta escrita não foi uma escolha planeada; foi uma reação de sobrevivência cívica. O meu despertar aconteceu quando esbarrei nos gigantescos desafios que marcam o quotidiano desta margem. Foram os três meses intermináveis às escuras, sem energia elétrica em casa. Foi a intimidação insolente do Município a exigir um DUAT que, como todos sabem, ninguém nesta área possui, simplesmente porque a própria edilidade nunca se mexeu para os emitir e nos entregar. Foi a escuridão das vias públicas e, no limite da vulnerabilidade, sofrer um assalto em casa para, ao chegar ao posto policial, aqui, em Incassane, constatar que a nossa polícia enfrenta carências tão gritantes que clamam por visibilidade e debate público.
Confesso que, depois de publicar o primeiro texto a interpelar o edil, Razaque Manhique, sobre a estrada que parte da Rotunda à terminal de Mutsekwa, pensei com os meus botões que a coluna morreria cedo. Pensei que fosse esgotar os assuntos num instante, pois julgava que escreveria apenas sobre as dores que atravessavam exclusivamente a minha vida. Estava redondamente enganado!
À medida que os textos saíam, a resposta dos meus vizinhos e outros residentes da Ka-Tembe mudou tudo. Fosse nas paragens, na caminhada pelas ruas, nos assentos sofridos do chapa, ou através de mensagens no WhatsApp — onde muitos moradores, amigos e vizinhos me escrevem para trocar impressões, apontar perspetivas úteis e trazer visões válidas sobre os artigos.
Foi aí que compreendi: este espaço não é meu. É nosso! As feridas que expõe não são caprichos da minha jornada individual, mas sim, o retrato fiel do sufoco partilhado por centenas de famílias que escolheram a Ka-Tembe para estabelecer as suas vidas. Cada diálogo informal, presencial ou digital, tornou-se o combustível desta coluna.
Esta crónica é, por isso, um acto de profunda gratidão. Como residentes, somos a certeza viva de que, independentemente de quem vier a liderar o nosso Distrito, seremos sempre as gentes da Ka-Tembe, firmes e unidas pelo nosso território. Espero sinceramente que nunca me deixem de aconselhar, de alertar e de partilhar os seus pontos de vista e histórias. Mas é importante que esclareça: não escrevo a mando de ninguém, nem por encomenda de quem quer que seja. Escrevo porque compreendo o papel e o dever que cada um de nós, como munícipe, tem para melhorar a nossa vida colectiva.
Deste lado, vou guardar sempre a humildade necessária para ouvir, acolher e peneirar cada relato, de forma a retratar e a traduzir da melhor maneira possível as causas e os problemas que nos apoquentam a todos como residentes. Juntos, vamos fazer com que a voz deste farol nunca se apague.




