Um mecânico sul-africano está entre os civis feitos reféns por um grupo terrorista, após ter saqueado e incendiado a coutada de Marangira, um empreendimento turístico ligado a Mozambique Wild Adventures (MWA), empresa da qual o antigo treinador da Selecção Portuguesa, Carlos Queiroz, é um dos co-proprietários. A concessão está localizada na zona tampão da Reserva Especial do Niassa (REN), no distrito de Marrupa, província do Niassa.
Os insurgentes invadiram a coutada na última quinta-feira (03) tendo-se apoderado de vários suprimentos e incendiando as instalações do alojamento. Acredita-se que eles estejam ligados a um grupo afiliado ao Estado Islâmico.
Dois outros funcionários do acampamento estão entre os reféns, de acordo com Losaan Meiring na página do Facebook Marloth & Beyond e a empresa de conservação Mutambo Films, que está em contacto com pessoas no local.
As autoridades locais acreditam que o número de pessoas desaparecidas e possivelmente feitas reféns é de 11, já que civis de Marangira foram vistos sendo levados pelos insurgentes. Não está claro neste momento se o número inclui os três funcionários do acampamento de caça.
Três americanos que estavam no acampamento na altura do ataque não foram afectados. Eles foram posteriormente resgatados da área de helicóptero. A Mutambo Films disse que as evidências indicam que este foi um ataque planeado.
“Os insurgentes supostamente estavam se deslocando para o oeste de Cabo Delgado por um longo período, e a torre de telefonia móvel que servia a área foi deliberadamente desactivada, cortando as comunicações antes do ataque. Posteriormente, eles atacaram o acampamento de caça, o posto policial local e o centro médico em Marangira”.
A empresa envolvida no alojamento investiu 3,5 milhões de dólares em infra-estrutura, conservação e desenvolvimento da área na última década.
O grupo de conservação Moçambique Bio, que compartilhou imagens das instalações incendiadas em suas páginas de mídia social, disse que muitos anos de trabalho na província do Niassa estão ameaçados.
O ataque vai além da destruição da infra-estrutura privada, disse o grupo.
“O projecto de Marangira começou numa altura em que a caça furtiva era uma das maiores ameaças à vida selvagem da região. A coutada fica na zona tampão dentro da Reserva Especial do Niassa, no limite das províncias de Niassa e Cabo Delgado, um local que deu ao projecto uma importância estratégica para a protecção da biodiversidade.
“A resposta não foi apenas por meio do aumento do monitoramento, mas também por meio da divulgação para as comunidades locais”.
Ao longo dos anos, o projecto contribuiu para a construção de uma escola, uma mesquita e infra-estrutura de abastecimento de água, bem como para a criação de empregos para as comunidades.
Um dos aspectos destacados por pessoas próximas ao projecto foi a capacidade de transformar ex-caçadores furtivos em trabalhadores ligados a actividades de conservação e turismo, criando alternativas económicas à caça furtiva.
A abertura de uma pista de aterragem para pequenas aeronaves também melhorou o acesso à região e apoiou as operações do projecto.
“Para os envolvidos no projecto, a Coutada de Marangira não era apenas uma actividade turística. A sua localização próxima à Reserva Especial do Niassa permitiu que as operações de monitoramento também tivessem um efeito protector numa área maior, ajudando a reduzir a pressão da caça ilegal nas áreas de fronteira da reserva”.
“O ataque é um duro golpe para uma iniciativa que, durante anos, buscou combinar conservação da fauna, combate à caça ilegal, turismo de natureza e apoio às comunidades locais”.
Reagindo à notícia, o Departamento das Relações Internacionais e Cooperação (Dirco na sigla em inglês) refere que informações da embaixada da África do Sul em Maputo indicam que cinco sul-africanos foram afectados pelo ataque insurgente em Moçambique na última quinta-feira. Os sul-africanos trabalhavam em diferentes serviços.
O porta-voz do Dirco, Nelson Kgwete, disse que a embaixada ainda não recebeu nenhuma informação verificada sobre o sul-africano que se acredita ter sido sequestrado. “Funcionários da embaixada estão a trabalhar com as autoridades moçambicanas e monitorando a situação e os desdobramentos na província do Niassa”.





