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13 de August, 2026

Rovuma em risco: o perigo do monopólio silencioso no gás moçambicano, escreve Justiça Popular*

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O alegado ganho pela Saipem do contrato EPC (Engineering, Procurement and Construction) do projecto Rovuma LNG da ExxonMobil não deve ser lido como uma mera decisão comercial entre privados. Lido no contexto mais amplo do portefólio de gás de Moçambique, configura algo mais preocupante: a cristalização silenciosa de um monopólio de execução sobre os activos energéticos mais estratégicos da nação.

Uma Empresa, Todos os Projetos!

O inventário é revelador. A Saipem opera o Coral Sul FLNG. Tudo indica que será também a operadora do Coral Norte, concebido como réplica quase directa do Coral Sul. A mesma empresa está actualmente a executar o EPC do projecto de GNL da TotalEnergies — o maior projecto de GNL onshore do continente africano. E agora, se o rumor que circula no mercado se confirmar, seria ainda o EPCista do Rovuma LNG da ExxonMobil.

Uma única empresa estrangeira deteria, em simultâneo, o controlo executivo de todos os grandes projetos de GNL de Moçambique. É uma concentração de risco sistémico que o Estado moçambicano tem a obrigação de examinar com seriedade.

Há poucos anos, a Saipem atravessou uma crise financeira profunda que exigiu uma restruturação de capital de dimensão histórica. A crise financeira foi ultrapassada, mas fica o alerta – criar uma dependência estrutural de um único contratante — por mais reputado que ele seja hoje — é expor os projetos nacionais à volatilidade financeira e operacional dessa empresa. Para ser mais claro – se a Saipem entrar em crise, o sonho do Gás do Rovuma fica em risco.

Importa também perguntar: que poder negocial terá Moçambique face a um fornecedor que já não tem concorrente relevante na bacia do Rovuma? A concentração elimina a pressão competitiva, encarece os serviços e reduz os incentivos à excelência de execução.

Acresce que a Saipem está em processo de fusão com a Subsea7, prevista para o segundo semestre de 2026. A nova entidade resultante — a Saipem7 — terá uma estrutura de gestão partilhada entre os dois grupos, com a liderança dividida entre representantes de cada lado. Traduzindo: duas cabeças a dividir o poder, duas culturas empresariais bem distintas, duas lógicas de decisão a tentar governar a mesma empresa.

A experiência histórica de fusões semelhantes de EPCistas na indústria não é nada encorajadora. A fusão entre a Technip e a FMC Technologies, concluída em 2017, criou uma entidade que rapidamente revelou incompatibilidades profundas de cultura e processo — ao ponto da empresa ter decidido separar-se novamente em 2021, apenas quatro anos depois. Mais grave ainda foi o caso da fusão entre a McDermott e a CB&I em 2018: a integração mal-sucedida das duas empresas, com culturas e sistemas de gestão de projecto radicalmente distintos, conduziu a derrapagens severas em projetos em carteira e terminou em insolvência menos de dois anos após o fecho da operação. Estes não são casos marginais — são as fusões de referência do setor EPC offshore da última década.

Moçambique está prestes a confiar a execução dos seus projetos mais estratégicos a uma empresa que, durante os anos críticos de obra, estará ao mesmo tempo a tentar resolver quem manda, como se decide e quem responde quando algo corre mal. Um risco alto demais!

O Custo Invisível: O Conteúdo Local

Há uma dimensão desta escolha raramente capturada nos comunicados oficiais, mas que afecta diretamente milhares de moçambicanos: o conteúdo local.

A empresa preterida neste concurso — a Technip Energies — tem um historial reconhecido de investimento no desenvolvimento de capacidades locais nos países onde opera: formação técnica estruturada, parcerias com empresas nacionais, transferência real de conhecimento e incorporação progressiva de mão-de-obra qualificada moçambicana nas suas equipas.

Centenas de empresas moçambicanas — PME, prestadores de serviços técnicos e especializados, empresas de logística e fornecimento — tinham já começado a posicionar-se na cadeia de valor da Technip, antecipando a oportunidade histórica que este contrato representaria para o tecido empresarial nacional. Se a Saipem ganhar o EPC da Exxon, estas expectativas desvanecem.

A questão não é abstracta. É a diferença concreta entre um projecto que deixa capital humano, empresarial e institucional em Moçambique e um que extrai valor sem o reinvestir no país.

Conclusão: A Soberania começa na cadeia de valor

Moçambique dispõe de uma janela de oportunidade histórica com os projetos do Rovuma.

A aceitação duma situação em que uma única empresa detém o controlo executivo de todos os grandes projetos de gás do país acarreta um risco demasiado grande de que esta empresa falhe na execução de todos os projectos de gás do Rovuma – condenando assim o sonho de Moçambique desenvolver o Rovuma e posicionar-se como um produtor mundial de gás.

É uma escolha de política pública — e por isso, pode e deve ser questionada.

Não está em causa a competência técnica da Saipem. Está em causa um princípio elementar de gestão de risco, de soberania industrial e de desenvolvimento de capacidades nacionais: nenhum país que ambicione extrair valor duradouro dos seus recursos naturais deve colocar todos os ovos no mesmo cesto — por mais sólido que esse cesto pareça ser.

As autoridades moçambicanas têm a palavra.

J.P.

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