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28 de July, 2026

Escassez de soro antiofídico expõe vítimas de mordeduras de cobra em Moçambique

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O acesso ao soro antiofídico (administrado para combater o veneno da mordida de cobras) continua a ser um desafio no país, apesar de o Governo assegurar que o medicamento faz parte da Lista Nacional de Medicamentos Essenciais e que está disponível no SNS (Serviço Nacional de Saúde).

Vítimas de mordeduras de cobra e profissionais de saúde relatam um cenário marcado por roturas de stock, sobretudo em hospitais distritais e centros de saúde localizados em zonas rurais. Fontes explicam que a discrepância entre o discurso oficial e a realidade resulta do facto de o soro ser adquirido e distribuído pelo Estado, mas permanecer concentrado em unidades sanitárias de referência. Como consequência, muitas vítimas procuram assistência médica sem encontrar o medicamento necessário para o tratamento imediato.

Uma enfermeira de uma unidade sanitária da província de Maputo, ouvida no âmbito desta reportagem, afirmou que o soro antiofídico não chega à instituição há vários anos. Explica que, perante casos de envenenamento por mordedura de cobra, as famílias são orientadas a adquirir o medicamento por conta própria, uma solução considerada inviável para grande parte da população rural devido ao elevado custo do produto.

Essa realidade leva muitas vítimas a recorrer à medicina tradicional ou, em algumas regiões fronteiriças, a procurar tratamento em países vizinhos, atrasando o atendimento médico e aumentando o risco de complicações e de morte.

Em resposta às preocupações levantadas pelos profissionais de saúde, Henis Mior, Chefe do Departamento de Prevenção e Combate à Doença, no Ministério da Saúde, reconheceu haver informação contraditória sobre o assunto, mas garantiu que o soro antiofídico está disponível no país e que a sua distribuição obedece a critérios epidemiológicos.

Segundo o responsável, os casos de envenenamento por cobra concentram-se, sobretudo, nas províncias das regiões centro e norte do país, onde a incidência é significativamente superior à registada nos grandes centros urbanos. Por essa razão, explicou, o medicamento é prioritariamente distribuído para essas áreas.

Henis Mior sublinhou ainda que o tratamento das mordeduras de cobra exige intervenção imediata, razão pela qual o soro deve estar disponível nas unidades sanitárias com capacidade para administrar o medicamento e monitorizar eventuais reacções adversas.

O responsável atribuiu parte da mortalidade associada às mordeduras de cobra ao atraso na procura dos serviços de saúde. Afirmou que muitas vítimas recorrem inicialmente à medicina tradicional, utilizando raízes e ervas medicinais, chegando às unidades sanitárias apenas quando o quadro clínico já se encontra agravado.

“O facto de existirem soros que chegam ao fim do prazo de validade demonstra que nem sempre o problema está relacionado com a falta do medicamento”, disse, acrescentando que factores sócio-culturais também influenciam a procura pelos serviços de saúde.

A aquisição do soro antiofídico é da responsabilidade da Central de Medicamentos e Artigos Médicos (CMAM), enquanto a distribuição é feita em coordenação com a Direcção Nacional de Saúde Pública, com base nos dados epidemiológicos reportados mensalmente pelas províncias.

De acordo com o Ministério da Saúde, a planificação da aquisição é realizada anualmente, utilizando como referência o número de casos registados no ano anterior. Contudo, sempre que necessário, são efectuadas redistribuições para responder ao aumento da procura em determinadas províncias.

Dados apresentados pelo Ministério da Saúde indicam que Moçambique registou 2.052 casos notificados de mordeduras de cobra em 2024, número que aumentou para 4.669 casos em 2025. As províncias de Sofala, com 952 casos, e Zambézia, com 826 casos, figuram entre as mais afectadas, em 2025. O Ministério da Saúde associa este aumento, entre outros factores, à ocorrência de ciclones, cheias e chuvas intensas, fenómenos que alteram o habitat das cobras e aumentam o contacto destes animais com as populações.

Refira-se que, apesar das garantias oficiais quanto à existência do soro antiofídico no país, persistem relatos de indisponibilidade do medicamento nas unidades sanitárias mais próximas das comunidades afectadas. A situação evidencia um desfasamento entre a planificação da distribuição e a capacidade de assegurar o acesso atempado ao tratamento, especialmente nas zonas rurais, onde as mordeduras de cobra continuam a representar uma importante causa de morbilidade e mortalidade. (Marta Afonso)

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