Os moradores da Matola–Gare, no município da Matola, manifestam crescente descontentamento com as condições em que continuam a receber cuidados de saúde, enquanto decorrem as obras de reabilitação do Centro de Saúde local. Desde o encerramento da unidade sanitária, os utentes têm sido atendidos em tendas improvisadas, instaladas junto a um edifício comercial em construção, situação que consideram desumana, sobretudo nesta época de frio.
A reabilitação do Centro de Saúde da Matola–Gare resulta dos frequentes alagamentos provocados pelas chuvas, que, nos últimos anos, obrigaram à interrupção dos serviços e à transferência temporária dos atendimentos. As obras estão orçadas em pouco mais de quatro milhões de meticais, dos quais cerca de três milhões são financiados pelo Orçamento do Estado.
Os utentes afirmam que as condições do posto provisório estão longe de oferecer o mínimo conforto e dignidade.
“É muito complicado sermos atendidos no meio do nada, debaixo de uma obra, ao relento e sujeitos ao frio intenso que se faz sentir nos últimos dias. Para nós que levamos bebés ao colo, a situação é ainda mais difícil, porque acabam por adoecer devido às baixas temperaturas. Não tem sido fácil”, lamentou Amélia Jossias Macamo.
Além do desconforto, a população teme que o problema volte a repetir-se na próxima época chuvosa.
“Esperamos que, desta vez, as obras resolvam definitivamente o problema. Todos os anos, quando chove, somos obrigados a abandonar o centro de saúde porque o edifício fica inundado. Não queremos voltar a passar pela mesma situação”, afirmou Arlindo Manhumana.
Outro dos maiores constrangimentos apontados pelos moradores é a inexistência de atendimento nocturno na Matola Gare, nesta fase em que são atendidos em tendas. Sempre que surge uma emergência durante a noite, os pacientes são obrigados a deslocar-se ao Centro de Saúde do Zimpeto, unidade que recebe essencialmente crianças e mulheres em trabalho de parto.
Foi o que aconteceu com Cacilda Maguezi, que, na última quinta-feira, teve de transportar o filho, por volta das 18 horas, para o Centro de Saúde do Zimpeto, depois de a criança apresentar febre alta e convulsões.
Segundo conta, ao chegar à unidade sanitária ficou surpreendida ao constatar que o atendimento estava a ser assegurado apenas por estudantes estagiários.
“Os estagiários estavam numa sala a conversar e a fazer muito barulho. Fiquei assustada, mas não tinha outra alternativa. Tive de entregar o meu filho aos cuidados deles. Felizmente estabilizaram o estado clínico da criança e encontramos todos os medicamentos receitados. Graças a Deus correu tudo bem, mas esta forma de trabalhar não é correcta”, criticou.
Obras entram na fase final
Contactado pela “Carta de Moçambique”, o director provincial de Saúde de Maputo, Daniel Arlindo Chemane, reconheceu os transtornos enfrentados pelos utentes, mas assegurou que as obras se encontram praticamente concluídas e que o regresso às instalações deverá acontecer logo que sejam finalizados os últimos trabalhos no sistema de drenagem e saneamento.
Segundo explicou, a intervenção incluiu a reabilitação das áreas internas da unidade sanitária, afectadas pelas infiltrações de água, bem como a construção de fossas e sistemas de drenagem destinados a evitar novas inundações.
“O Centro de Saúde da Matola Gare está praticamente com as obras finalizadas. Estamos apenas a concluir as fossas e alguns trabalhos exteriores, que são mais complexos. O empreiteiro comprometeu-se a concluir esta fase ainda esta semana e, imediatamente após a entrega, regressaremos à unidade sanitária”, afirmou.
Chemane explicou que o atraso na conclusão das obras ficou a dever-se, sobretudo, às dificuldades provocadas pelo elevado nível do lençol freático, que obrigou à reformulação de parte da empreitada.
Apesar disso, garantiu que as condições da unidade são agora significativamente melhores.
“Reabilitamos toda a parte interna, melhoramos o sistema de abastecimento de água, o saneamento e a drenagem. A unidade sanitária está muito melhor preparada do que antespara enfrentar a época chuvosa”, assegurou.
O responsável reconheceu, igualmente, que o atendimento em tendas constitui apenas uma solução temporária.
“Estamos cientes das dificuldades enfrentadas pelos utentes. Aquela foi uma solução improvisada. Procurámos encontrar um local mais seguro e com melhores condições do que as utilizadas anteriormente, embora saibamos que ainda não são as ideais para a prestação de cuidados de saúde”, disse.
O director provincial revelou ainda que uma das principais preocupações era garantir que o centro de saúde não voltasse a ser inundado. Para o efeito, o sector da Saúde articulou com o Município da Matola, que iniciou a construção de um sistema de drenagem na zona.
“Estamos optimistas. O município já iniciou as obras de drenagem e esperamos que, na próxima época chuvosa, não seja necessário voltar a encerrar a unidade sanitária por causa das inundações”, concluiu.




