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17 de July, 2026

“O design atravessa todas as indústrias culturais e criativas”

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A poucos dias do arranque do primeiro Mercado das Indústrias Culturais e Criativas de Moçambique (MICMZ), iniciativa que decorrerá de 30 de Julho a 1 de Agosto, em Maputo, e que pretende afirmar-se como uma plataforma de negócios, intercâmbio e internacionalização do sector cultural, a curadora de Design, Márcia Sele, defende que o maior desafio continua a ser transformar o potencial criativo do país numa economia sustentável. O evento reunirá criadores, investidores, instituições e parceiros nacionais e internacionais, com o objectivo de fortalecer as indústrias culturais e criativas e promover novas oportunidades de colaboração e investimento.

Nesta primeira entrevista à “Carta, Márcia Sele fala sobre a visão que orienta a curadoria da área de Design e Artes Visuais, os critérios de selecção dos participantes, os obstáculos enfrentados pelos profissionais do sector e a importância de criar um mercado capaz de aproximar artistas, designers, galerias, coleccionadores e compradores. Para a curadora, o MICMZ representa uma oportunidade para demonstrar que a criatividade moçambicana pode ser um motor de desenvolvimento económico, social e cultural.

Carta da Semana (CS): O que a levou a aceitar o convite para integrar a equipa de curadoria do MICMZ?

MS: Aceitei o convite porque acredito que as indústrias culturais e criativas moçambicanas ainda carecem de espaços de intercâmbio, sobretudo na dimensão do negócio. Como muitos agentes culturais, sinto que existe um enorme potencial por explorar, mas também uma fraca valorização destas áreas enquanto motores de desenvolvimento económico e geração de rendimento.

CS: Que visão pretende imprimir à área de artes visuais e design nesta primeira edição do mercado?

MS: A minha intenção é dar maior visibilidade aos profissionais das artes visuais e do design, tanto aos já consagrados como às instituições de ensino e aos projectos que têm contribuído para o crescimento económico, cultural e social de Moçambique. Pretendemos aproximar o público, investidores, parceiros e entidades governamentais desta realidade e criar um espaço de intercâmbio e aprendizagem, especialmente numa área como o design, cujo processo criativo e valor ainda são pouco compreendidos.

CS: Quais foram os principais critérios para seleccionarartistas e projectos?

MS: Os artistas, designers e projectos foram seleccionados com base na inovação, na experiência e no impacto do seu trabalho. Tivemos também em conta a relevância social, cultural e, sobretudo, a contribuição criativa que cada um tem dado ao panorama moçambicano.

CS: Em Moçambique, que desafios enfrenta um artista visual para transformar o seu trabalho num negócio sustentável?

MS: Os desafios são muitos. Há uma escassez de infra-estruturas dedicadas à pesquisa, leitura, experimentação e troca de experiências, bem como acesso limitado a equipamentos especializados. Soma-se a isso a informalidade que ainda caracteriza o sector, a reduzida valorização do profissionalismo e a ausência de legislação que regulamente e proteja o design, o património ligado à área e a própria profissão em Moçambique.

CS: De que forma o MICMZ pode aproximar artistas visuais, designers, coleccionadores, galerias e compradores?

MS: O MICMZ pretende ser uma plataforma de encontro entre profissionais das diferentes áreas culturais e criativas do país. Será um espaço para partilha de conhecimento, criação de parcerias, apresentação de projectos e troca de ideias que possam fortalecer a economia criativa. Além disso, a presença de parceiros internacionais permitirá uma troca de experiências enriquecedora, em que todos aprendem e contribuem para o crescimento do sector.

CS: Que tendências ou linguagens artísticas considera estarem a emergir no panorama moçambicano?

MS: Vejo um movimento crescente de valorização da cultura moçambicana, com muitos criativos a procurarem resgatar as suas raízes e a construir uma identidade própria através das suas obras, produtos e serviços. O desafio agora é transformar essa riqueza criativa em resultados económicos concretos para os próprios agentes culturais.

CS: Como equilibrar a presença de nomes já consolidados com artistas em início de carreira?

MS: Acredito muito na partilha de conhecimento. A ideia é criar um ambiente onde os profissionais mais experientes possam transmitir o que aprenderam ao longo da carreira e, ao mesmo tempo, os jovens artistas tenham oportunidade de mostrar o seu talento e trazer novas perspectivas. Ninguém sabe tudo. Tenho exemplos de antigos estagiários que hoje são parceiros em projectos e realizam trabalhos de grande qualidade. É esse espírito de colaboração e desenvolvimento que queremos promover.

CS: Que papel atribui ao design dentro das indústrias culturais e criativas do país?

MS: O design ocupa um lugar central na economia criativa porque atravessa praticamente todas as indústrias culturais. Num mundo cada vez mais digital, continua a ser essencial, sem perder a sua importância no universo físico. Da capulana ao tabuleiro de n’txuva, da timbila ao pilão, existe sempre um processo de concepção que envolve design, funcionalidade e estética. O design está presente na criação dos objectos e na forma como estes comunicam valor e despertam interesse.

CS: O que espera que os artistas levem consigo depois de participarem no MICMZ?

MS: Espero que levem novas experiências, conhecimento, parcerias e colaborações duradouras. Acima de tudo, que encontrem oportunidades de intercâmbio, tanto na dimensão artística como na vertente do negócio criativo.

CS: Se tivesse de resumir a experiência que deseja proporcionar ao público numa única ideia, qual seria?

MS: Gostaria que o público saísse do MICMZ com uma visão mais clara do enorme potencial de Moçambique na economia criativa. Que reconheça o trabalho que já está a ser desenvolvido e perceba como podemos fortalecer, de forma sustentável, a criatividade, a cultura e a identidade moçambicanas.

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