Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

17 de July, 2026

O direito ao futuro: o vazio cultural e desportivo da Ka-Tembe

Escrito por

A Ka-Tembe reúne qualidades inquestionáveis que a tornam, a meu ver, o melhor lugar para se viver e educar os nossos filhos. O espaço generoso e a simplicidade comunitária oferecem um ambiente de partilha e proximidade humana que a cidade de cimento de Maputo, no seu ritmo acelerado, muitas vezes deixa esquecido no tempo.

Contudo, a minha experiência de pouco mais de um ano como residente também me confronta com uma ausência dolorosa e estrutural que afecta directamente o desenvolvimento da nossa infância e juventude. Tive o privilégio de nascer e crescer no coração da cidade de Maputo. Na minha infância e juventude, o acesso à formação digna de um indivíduo estava mais facilitado pela proximidade.

Por ter crescido quase à porta do Grupo Desportivo de Maputo (GDM), tive a oportunidade única de aprender de tudo um pouco a nível desportivo — do futebol ao basquetebol, passando pela natação, sem pagar um único cêntimo. Aquele foi um tempo em que os clubes ainda funcionavam como verdadeiras escolas de cidadania acessíveis ao bairro. Paralelamente, frequentei quase todos os espaços artístico-culturais nos arredores.

Esta vivência acessível teve um grande impacto no meu crescimento, na minha visão do mundo e na minha consciência como cidadão. Hoje, como pai, corta-me a alma pensar que o meu filho e os seus pares podem não ter as mesmas oportunidades. Sinto uma profunda frustração ao ver a nova geração privada dessas infra-estruturasestruturadas no distrito que escolhemos para viver. Para que os adolescentes e jovens tenham acesso ao desporto organizado ou à fruição cultural formal, dependemos sempre do factor financeiro e da obrigatoriedade de atravessar a baía.

Escrevo isto não como um observador distante que contempla a periferia através do vidro de uma viatura particular, mas como alguém que partilha o sufoco diário dos transportes públicos e a incerteza das moto-táxis para gerir a vida e a mobilidade nesta margem. O acesso à cultura e ao desporto não é um luxo supérfluo; é um direito fundamental.

Quando a planificação urbana negligencia estas infra-estruturas nas zonas de expansão, cria-se um vazio perigoso. Na Ka-Tembe, a juventude transborda talento, energia e iniciativa. Vemos isso nos campeonatos improvisados de futebol e nos grupos locais que com muito pouco criam arte, o que demonstra uma resiliência admirável. O problema é que esta energia vibrante corre o risco de ser sufocada pela falta de amparo.

Sem alternativas estruturadas de lazer ou expressão artística, o potencial de muitos adolescentes fica vulnerável a caminhos menos férteis. O envolvimento precoce no consumo excessivo de álcool, personificado na febre destrutiva dos xivotxongos desta vida, ou o desvio para a criminalidade, não reflectem uma falta de carácter da nossa juventude, mas sim a falta de horizontes tácteis. Sem um campo digno, sem uma biblioteca ou um centro cultural que estimule o intelecto, o ambiente público abdica do seu papel educador.

Pensar em centros culturais e complexos desportivos para a Ka-Tembe vai muito além de reduzir as distâncias geográficas para os seus moradores. Trata-se de uma política urgente de valorização humana e mitigação social. Investir hoje no lazer saudável da nossa infância e juventude é potenciar os talentos que já existem e evitar que o futuro do nosso distrito seja marcado pela exclusão.

A Ka-Tembe não pode ser vista apenas como um depósito de novas casas ou um distrito dormitório. Para ser um distrito de futuro, precisamos de chão estruturado para as crianças correrem, de palcos para os jovens criarem e de infraestruturas que valorizem, de facto, a dignidade de quem escolheu esta margem para viver.

Visited 1 times, 1 visit(s) today

Sir Motors