O Festival Azgo começa a ensaiar uma mudança discreta, mas significativa, na forma como se pensa a temporalidade dos festivais em Moçambique. Com o anúncio do “Azgo Sessions Vol. 1”, marcado para 22 de Maio, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, o festival deixa de se inscrever apenas no calendário anual e começa a projectar-se como presença contínua, ainda que fragmentada.
Não se trata de um desvio do modelo tradicional, mas de uma tentativa de o esticar. O que está em causa não é a substituição do festival, mas a sua extensão simbólica: uma forma de impedir que ele exista apenas como pico anual e passe a operar como linha de continuidade cultural. O “Azgo Sessions” surge, nesse sentido, como um dispositivo intermédio – nem festival, nem simples concerto – mas um espaço de activação entre edições.
A escolha de Roberto Chitsondzo e Hélio Beatz para inaugurar este formato não é neutra. Ela condensa, de forma quase pedagógica, uma das tensões centrais da curadoria do Azgo: a relação entre tradição e música urbana. Uma tentativa, diga-se, de coabitação estética, onde diferentes regimes de memória musical são convocados para o mesmo espaço performativo.
Essa operação não é nova no discurso do festival, mas ganha agora uma forma mais explícita. O Azgo tem vindo a construir uma narrativa em que a tradição não é preservada como arquivo, mas activada como matéria em circulação. A música urbana, por sua vez, não aparece como ruptura, mas como continuidade deslocada, um prolongamento da mesma gramática cultural em novos suportes.
A edição de 2024, realizada em Cumbeza, já tinha sinalizado esse movimento. Ao deslocar o festival do centro urbano para um espaço periférico e multifuncional, o Azgo não apenas alterou a sua geografia, como também reconfigurou a sua relação com o público. A experiência deixou de ser apenas consumo de espectáculo e passou a incluir logística, deslocação e permanência, elementos que, no contexto dos festivais contemporâneos, também produzem significado.
A escolha do Centro Cultural Franco-Moçambicano, para esta primeira experiência, reforça ainda outra dimensão: a aposta em espaços institucionais de fruição mais concentrada, onde a proximidade entre palco e público substitui a escala massificada por uma experiência mais controlada e, potencialmente, mais intensa.
Para compreender a dimensão prática desta proposta, as suas motivações curatoriais e os desafios que a acompanham, a Carta da Semana conversou com a Khuzula, organizadora do festival.
Carta da Semana (CS): Em termos práticos, qual é a principal diferença entre o “Azgo Sessions” e o modelo tradicional do Festival Azgo?
Khuzula: Há muita diferença, até porque este, AZGO Sessions, é uma extensão viva do Festival AZGO – uma plataforma que nos permite manter o seu espírito activo ao longo do ano. Em suma, é uma activação estratégica do festival que agora lançamos.
CS: A organização fala de “continuidade ao longo do calendário cultural”. Isso significa que o Azgo pretende tornar-se uma plataforma permanente e não apenas um festival anual?
Khuzula: Não exactamente. Como disse na questão anterior, este modelo de inovação é abraçado no sentido de que, ao longo do ano, ou mesmo de edição para edição, haja comunicação contínua do festival e acções claras que mantenham sempre viva a chama do Azgo. O festival continua a acontecer anualmente.
CS: Que critérios orientaram a escolha de Roberto Chitsondzo e Hélio Beatz para esta primeira edição?
Khuzula: Gostamos da questão. E acima de tudo é uma questão que suscita várias leituras. Primeiro, são artistas de gerações completamente diferentes. Por outro lado, ambos são embaixadores do Azgo e representam essa união de gerações numa fusão onde o passado inspira o futuro. Baseámo-nos numa peculiaridade ímpar dos dois, procurando fomentar um encontro íntimo que desperta emoções, cria expectativa e anuncia que a cidade se prepara para mais uma edição do festival. Outro factor que norteou a escolha é o facto de, em 2025, os dois artistas terem colaborado na criação da música “Génio”, com a participação de Kloro – um reflexo da ponte criativa entre estilos, linguagens e sensibilidades.
CS: O encontro entre tradição e música urbana parece central nesta edição. Até que ponto essa fusão representa a visão artística actual do Azgo?
Khuzula: O encontro entre tradição e música urbana está no centro da visão artística actual do Festival AZGO porque reflecte exactamente aquilo que o festival representa hoje: uma plataforma de diálogo entre herança cultural e novas linguagens criativas. O Azgo entende que a tradição não deve ser vista como algo estático ou preso ao passado, mas sim como uma fonte viva de inspiração para as sonoridades contemporâneas.
Nesta edição do Azgo Sessions, essa visão manifesta-se de forma muito clara através do encontro entre Roberto Chitsondzo e Hélio Beatz. São artistas de gerações diferentes, com referências estéticas distintas, mas que encontram pontos de convergência na forma como reinterpretam a identidade musical moçambicana. Essa fusão mostra que existe continuidade entre o legado musical e as novas tendências urbanas, criando uma ponte entre públicos, experiências e sensibilidades.
A colaboração dos dois artistas na música “Génio”, com participação de Kloro, é também um exemplo concreto desta abordagem curatorial do Azgo: promover cruzamentos criativos, incentivar novas narrativas sonoras e estimular encontros artísticos improváveis, mas profundamente autênticos. Mais do que acompanhar tendências, o Azgo procura construir uma identidade cultural contemporânea africana, onde o tradicional e o urbano coexistem de forma orgânica. É precisamente essa capacidade de criar diálogo entre passado, presente e futuro que continua a afirmar o festival como uma das plataformas culturais mais relevantes de Moçambique e da região.
CS: Depois da 11.ª edição em Cumbeza, quais foram as principais lições ou desafios identificados pela organização?
Khuzula: Depois da 11.ª edição, realizada no Espaço Multidisciplinar de Cumbeza, identificámos um conjunto de aprendizagens estratégicas e desafios operacionais que marcaram esta nova fase do festival. Entre as principais lições e desafios destacam-se:
A mudança do centro da cidade de Maputo para Cumbeza foi entendida como um passo estratégico para garantir independência e sustentabilidade a longo prazo, permitindo ao festival operar num espaço próprio e desenvolver uma identidade territorial mais sólida. Esta mudança trouxe também uma maior democratização da cultura.
No plano logístico e de mobilidade, a realização do festival em Cumbeza trouxe desafios relacionados com transporte do público, acessibilidade, circulação e acomodação dos azgowers. A implementação do programa de acampamento (AZGO Camping) foi uma resposta directa a essa necessidade, embora com exigências organizacionais elevadas.
Entre outros desafios estratégicos destacam-se a gestão de uma nova experiência de público, a criação e formação de novas audiências, a consolidação de Cumbeza como destino cultural e turístico, a curadoria multidisciplinar como diferencial competitivo e a necessidade de reforço das infra-estruturas e serviços.
No balanço geral, consideramos a edição um sucesso e uma confirmação de que o novo modelo do festival tem potencial de crescimento. A experiência em Cumbeza foi assumida como o início de um “novo ciclo” do AZGO.
CS: Porque houve uma ruptura no ano seguinte?
Khuzula: Ruptura totalmente não. Permita-nos recordar que, no ano passado, reavivámos um segmento do Festival Azgo, que é o AZGODIALOGAR, um fórum de debate bastante importante para a cultura moçambicana e, acima de tudo, um momento de promoção de intercâmbios estratégicos para o mercado criativo nacional e internacional.
Mas também não podemos deixar de mencionar a ausência de recursos financeiros para a realização plena das actividades. Recordar igualmente que tivemos uma sequência de manifestações que afectaram directamente a economia no seu todo e, como é sabido, a cultura é sempre um dos sectores mais afectados.
CS: Que impacto o festival acredita ter tido na profissionalização da produção cultural em Moçambique ao longo destas 11 edições?
Khuzula: O festival tem desempenhado um papel muito importante na cadeia da economia criativa e em segmentos relevantes de exposição do país, mas também na perspectiva de criação de intercâmbios estratégicos. Tanto é que o festival faz parte do Circuito IGODA, que contempla os principais festivais de artes e cultura da região austral.
Este papel contribui para que o país esteja mais exposto culturalmente e aberto ao mundo, permitindo a circulação de novas formas de ser e estar. Além disso, ao longo destas edições, colocámos mais de 40 artistas no roteiro de acesso a mercados estratégicos, tanto nacionais como internacionais.
Este ano temos um exemplo claro de projecção, com Radjha Ally e The Hood Brodz, que vão actuar na 19.ª edição do MTN Bushfire. A plataforma do festival tem desempenhado também um papel relevante no campo académico, por se tratar de um espaço que já é objecto de estudo.
CS: O público pode esperar mudanças estruturais ou conceptuais na 12.ª edição do festival?
Khuzula: Quanto a mudanças estruturais, a princípio não. Quanto ao conceito, há sempre uma dinâmica, e iremos sim apresentar brevemente o conceito por detrás da 12.ª edição do Festival AZGO.
CS: A organização pode já adiantar pistas sobre o tema, curadoria ou direcção artística da próxima edição?
Khuzula: (Risos) Na íntegra, já deixámos a principal pista: a fusão de géneros, a antiguidade versus a contemporaneidade. São factores importantes a ter em conta, até porque gostamos de tornar o espaço que acolhe cada edição num ponto estratégico de confluência de gerações, o que torna os “azgower” um público bastante dinâmico.
CS: Qual é hoje o maior desafio para manter um festival independente e alternativo em Moçambique?
Khuzula: O maior desafio que vários de nós, produtores de festivais independentes e alternativos, enfrentamos é o financiamento das artes, que na maior parte das vezes é reduzido. Mas também existem outros desafios relacionados com políticas de financiamento das artes, que ainda não são muito claras para a dinamização do sector. E não podemos esquecer a componente ligada ao desenvolvimento de públicos em dois segmentos: por um lado, o público que valoriza o conteúdo local e que, mesmo sem a presença de artistas estrangeiros, consegue lotar certos festivais; e, por outro, o público que não gosta de pagar bilhete para aceder a espectáculos.





