Decorre, desde ontem, em Maputo, a primeira Conferência Nacional sobre Sustentabilidade dos Media, evento organizado pelo jornal Evidências, em parceria com o Instituto para a Democracia Multipartidária e o MISA-Moçambique.
O encontro de dois dias (termina hoje) reúne jornalistas, académicos, gestores de media, membros do Governo e deputados, com o objectivo de discutir os desafios financeiros, editoriais e tecnológicos da indústria mediática face ao advento da Inteligência Artificial e à redução das receitas tradicionais do sector: a publicidade.
Para o jornalista Júlio Manjate, Presidente do Conselho de Administração da Sociedade do Notícias, os órgãos de comunicação social enfrentam desafios financeiros concretos, como pagamento de salários, impostos e custos operacionais, razão pela qual a publicidade e os comunicados institucionais acabam por integrar o modelo de negócio da imprensa.
“Não devemos fazer comunicação social e esperar milagres”, defendeu Manjate, para quem “é importante trabalhar com profissionalismo para que possa haver publicidade que torne o negócio rentável”.
Discutindo o impacto dos press releases (comunicado de imprensa) na produção noticiosa e consequente sustentabilidade financeira dos meios de comunicação social, Júlio Manjate admitiu haver, actualmente, uma disputa entre a publicidade e jornalismo, sendo necessário que os profissionais da comunicação social desenvolvam capacidade de transformar os press releases em conteúdos jornalísticos credíveis e contextualizados.
Na mesma linha de pensamento esteve o jornalista Fernando Lima, que reconheceu que os press releases ajudam a garantir sustentabilidade e empregos no sector, porém, deve haver tratamento editorial adequado dos mesmos. “O press release tem a sua razão de ser porque dá sustentabilidade e mantém empregos aos media. Mas deviam ser obrigatoriamente editados pelos jornalistas ou editores. Deviam ser o ponto de partida para outras matérias”, defendeu, sublinhando que os media moçambicanos limitam-se a publicar os comunicados tal como os recebem, sem investigação adicional ou adaptação editorial.
Já o académico e profissional de relações públicas Leandro Paul lamentou o facto de muitos jornalistas transformarem os comunicados em notícias automáticas, sem aprofundamento. “É importante que os meios de comunicação adequem os comunicados às suas linhas editoriais”, disse.
Por sua vez, a jornalista Deolinda Fernando, actualmente ligada à gestão de marcas, refere que a uniformização dos conteúdos televisivos resulta precisamente da dependência dos press releases, porém, reconheceu que estes ajudam a manter financeiramente os órgãos de comunicação social. “As notícias que passam em todos os canais televisivos são as mesmas e isso é resultante do press release”, observou.
Para o Director do semanário Dossiers&Factos, Serôdio Towo, o desaparecimento de vários jornais e a “fuga de profissionais qualificados” da imprensa devem-se à precariedade salarial. “Muitos jornais que surgiram deixaram de existir e é importante discutir este aspecto com profundidade. Precisamos nos reinventar”, afirmou, sublinhando que muitos jornalistas trocam a nobre profissão por outras áreas, devido à crescente insustentabilidade do sector.
Discutir a sustentabilidade dos media é debater a qualidade da democracia – Salim Valá
Convidado a abrir o evento, Salim Cripton Valá, Ministro da Planificação e Desenvolvimento, defendeu que discutir a sustentabilidade dos órgãos de comunicação social é igualmente debater a qualidade da democracia e o futuro da sociedade. “Abordar a sustentabilidade dos órgãos de comunicação social é tratar da qualidade da democracia, da vitalidade do espaço público, do pluralismo de ideias e da própria capacidade de uma sociedade compreender, se organizar e projectar o seu futuro”, afirmou.
Por sua vez, o Presidente do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, Rasaque Manhique, destacou a necessidade de se construir um sector mediático financeiramente estável, mas sem comprometer a independência editorial. “Precisamos construir um ecossistema mediático economicamente viável, tecnologicamente preparado, editorialmente independente e socialmente responsável”, declarou.
Da Assembleia da República veio uma mensagem de “conforto”, segundo a qual, o país está a viver uma nova realidade, em que o sector da comunicação é visto como preponderante para a consolidação da democracia.
Segundo o deputado Elísio De Sousa, é por ser um sector fundamental que a Assembleia da República aprovou o pacote legislativo do sector, que se encontrava engavetado há mais de uma década. O deputado defende que o sector está a atravessar uma fase “inevitável” de transformação e apelou ao reforço da cooperação institucional entre os media e instituições do Estado.

