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13 de May, 2026

O Livro, a leitura e suas dinâmicas em tempos de crise

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No mês de Abril celebramos o Dia Mundial do Livro; parei para pensar no significado desta importante arma para a construção de indivíduos capazes, com sentido de reflexão, de crítica e com uma cosmovisão abrangente. Uma arma de emancipação social, construção intelectual e libertação individual contra narrativas, de soberba, dogmas, construções e posições que servem para alimentar o extremismo e certas visões hegemónicas.

O móbil deste texto é simplesmente este – reflectirsobre o livro (Librorum), como instrumento e ferramentao organon na linguagem aristotélica; sobre a escrita, sua dimensão societária e poder para unir pensamentos, tradições, escolas e posições.

Historicamente, assistimos à evolução da escrita, desde os tempos das simples e muito ricas gravuras em pedra e metais, pinturas rupestres, inscrição em papiro até afase do surgimento da imprensa escrita. Este processo fez com que se fizesse uma transição segura da oralidade para o registo escrito, sem, contudo,abandonar a via oral que carrega consigo uma valia agregada ao processo de transmissão do conhecimento. E isto resultou na universalização e globalização do saber – (universalis – para todos).

Muito do saber produzido ao longo das grandes épocas históricas, ou era alvo de apologia ou de vilipêndio, porque o saber e o pensar sempre foram combatidos quer pelo poder do dia, quer pelos grupos de interesse e paradigmas de cada época. Na Idade Média, por exemplo, a rivalidade ou o conflito entre a ciência e a religião resvalou quase sempre na supremacia dos ditames da religião sobre a ciência. Grande parte do saber desta genuína época foi conservado e preservado em mosteiros e igrejas, para evitar a sua destruição pela sagacidade dos incautos e vândalos. Nasce, nesta época, uma preocupação grande pela preservação do saber em grandes livros, que mais tarde deram origem às famosas e ricas enciclopédias com Denis Diderot e D’Alembert.

O Livro é, quanto a mim, seguramente, das maiores riquezas que nos podemos orgulhar de ter enquanto humanidade, pois, com ele, e a partir dele, abriram-se as portas para maior partilha do conhecimento, para a crítica mais elaborada, e para o debate de ideias. Neste diapasão, o livro e o conhecimento unem-se numa reunião e numa rima escatologicamente desenhada para a emancipação, para a comunhão, e até discussão às vezes dissonante que eleva para níveis de cada vez maior compreensão do universo, das leis que o regem e das pessoas que o habitam.

Num contexto em que se vive uma grande efervescência na produção literária, e uma sede pela publicação e fundação de novos saberes alicerçados nas dinâmicas sociais. O livro em geral e a escrita em particular ganharam mais alma; o conhecimento, a construção de ideias, e a criação de espaços e ambientes em que podemos estar mais envolvidos e em sintonia enquanto amantes da boa leitura, noto um recrudescer da censura, por vezes desmedida, bem como um controlo exacerbado do que se escreve, de quem escreve e para quem escreve. Isto culmina naquase asfixia das editoras “não alinhadas”.

Regozijo-me ao ver espaços livres como os do jornal online “A Carta de Moçambique”, editoras de escrita imprensa como a Thale Publishing e a famosa biblioteca móvel da “Avó Cecília”, que, com tão pouco, fazem das tripas o coração para manter viva a ideia de num clique, paginarmos e darmos azo à nossaimaginação e criatividade por meio da leitura. Do anonimato à ribalta, a Thale afirma-se como uma das poucas que num ambiente inóspito e adverso, consegue nos presentear com livros de alta qualidade, acessibilidade e democratização do saber, do pensar e do agregar. Celebrar o dia e o mês do livro é para mim, e espero que o seja para outros, um convite a repensar o livro e a abertura de mais espaços de promoção da leitura, sejam eles formais ou informais. Que seja uma ocasião para celebrar a ainda incipiente produção literária do país e incentivar um salto qualitativo principalmente nos petizes de tenra idade e nos adolescentes e jovens para que se tornem os novos Craveirinhas, Noemias, Calanes, Mias, Paulinas, Ungulanis, Ngoenhas, Macamos, Jessemusses e outros tantos da nossa bela pátria que baptizamos por Moçambique.

Falo de tempos de crise, porque tenho notado um decréscimo acentuado da leitura por parte da camada mais jovem. E quando não lemos, nos demitimos da actividade de pensar a realidade no seu conjunto; nos reduzimos a meros generalistas, a indivíduos acríticos e nos tornamos caixas de ressonância sem valor agregado. Quando não lemos, empobrecemos a nossa capacidade de contribuir para o pensar Moçambique e o mundo, e de transformar o nosso país numa referência na produção de saberes, na transcrição de vivências e no registo de factos da nossa rica história.

E porque alguém uma vez disse que “A leitura engrandece a alma.” (Voltaire, no caso), o que mais precisamos para alimentar a alma é de incentivo e estímulos para lermos e melhorarmos o nosso esclarecimento.

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