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10 de April, 2026

Chapo corta onde dói: o fim da ilusão da descentralização em Moçambique

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Sob pressão fiscal e com olhar jurídico, o Presidente Daniel Chapo enfrentava um modelo caro, confuso e politicamente conveniente, mas que já era por demais insustentável

Durante anos, Moçambique viveu confortavelmente numa ficção institucional: a de que a descentralização estava a funcionar. Na prática, o que se construiu foi um modelo híbrido, ambíguo e oneroso, onde coexistem estruturas paralelas com funções sobrepostas, um arranjo mais político do que funcional.

Agora, o Presidente Daniel Francisco Chapo decidiu mexer nesse edifício, entregando uma proposta de lei nesse sentido à Assembleia da República.

A descentralização de 2019 foi vendida como um avanço democrático. Na verdade, foi um compromisso político construído sob pressão, para agregar “alguns camaradas”.

O resultado foi um sistema com dois centros de poder na mesma província: governadores eleitos e Secretários de Estado nomeados.

De acordo com crônicas bastantes, estes andavam frequentemente em colisão. Não era descentralização. Era duplicação institucional.

Durante anos, este modelo sobreviveu porque servia equilíbrios políticos. Mas o que era tolerável politicamente tornou-se inviável administrativamente.

A conta chegou e já não pode ser ignorada A realidade fiscal veio expor o problema. Com recomendações claras do Fundo Monetário Internacional para reduzir a massa salarial, eliminar o 13.º salário e conter a despesa pública, o Estado moçambicano enfrenta um facto incontornável:  não pode continuar a sustentar estruturas redundantes.

Num país onde a folha salarial consome uma parte significativa do orçamento, manter duplicações administrativas não era apenas ineficiente, era insustentável.

A marca de um jurista: cortar na raiz, não apenas na superfície

É aqui que o perfil de Daniel Francisco Chapo faz, provavelmente, a diferença. Ao contrário de abordagens puramente políticas, a sua atuação revela uma lógica jurídica: identificar incoerências, eliminar sobreposições e clarificar competências.

O problema não está apenas no custo do Estado, mas na forma como ele está organizado. Cortar salários é uma medida imediata (e identificar os fantasmas) . Reorganizar o Estado é uma solução estrutural. E é essa segunda via que está, finalmente, a ser tentada.

O argumento do “controlo político” perdeu força

Durante anos, a narrativa dominante foi de que a figura do Secretário de Estado servia para limitar a agora moribunda RENAMO. Hoje, essa explicação soa cada vez menos convincente. Se o objetivo fosse controlo político, o modelo manter-se-ia intacto.
Mas está a ser revisto. Isso indica que o problema não era quem controla, mas quanto custa manter o sistema.

A linha fina entre reforma e austeridade cega

Mas há um risco que não pode ser ignorado. Se esta agenda se traduzir apenas em: cortes salariais, eliminação de benefícios, contenção orçamental, sem melhoria visível na eficiência do Estado, então não será reforma, será apenas austeridade.

E a austeridade sem resultados concretos gera desgaste social e desconfiança institucional. A verdade é simples: alguém tinha de mexer neste modelo.

Desde 2019 que o Estado moçambicano foi moldado por compromissos políticos que ignoraram a lógica administrativa e financeira.

Agora, sob pressão interna e externa, o Presidente Chapo avança com uma decisão que é, ao mesmo tempo, corajosa e inevitável.

Se for bem executada, poderá marcar o início de um Estado mais funcional, mais claro e mais sustentável. Se falhar, será apenas mais um episódio de cortes sem transformação. Mas uma coisa já ficou evidente: a ilusão da descentralização funcional chegou ao fim.

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