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Maputo -

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23 de April, 2026

Um País que se Lê

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Chove em Maputo. Um frio tímido, raro, daqueles que convidam ao recolhimento. As ruas abrandam, o tempo parece suspender-se por instantes e, nesses dias, há um gesto simples que ganha outro significado, abrir um livro.

Hoje é o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor. Uma data que traz consigo uma coincidência literária, a evocação de William Shakespeare e Miguel de Cervantes, dois nomes que continuam a falar connosco séculos depois. Não importa tanto se partiram no mesmo dia “real”. Importa que continuam vivos onde mais interessa, na linguagem, na imaginação e na forma como pensamos o mundo.

Mas este não é um texto sobre eles. É sobre nós.Há dias em que um país também se revela nos seus silêncios. E um dos nossos silêncios mais persistentes é o da leitura. Fala-se muito de livros, mas lê-se pouco. Celebram-se datas, mas raramente se constroem hábitos.

E, no entanto, tudo começa aí. Diz um provérbio menos citado, mas talvez mais exigente quequem aprende a ler, aprende a perguntar.” E é justamente isso que, por vezes, evitamos, a inquietação.

O livro tem esse poder discreto. Não levanta a voz, mas desloca o chão. Obriga-nos a ver para além da superfície, a desconfiar do óbvio, a dar nome ao que antes era apenas sensação.

Na UPMaputo, onde diariamente se formam professores, a leitura deveria ser mais do que um instrumento, deveria ser um ambiente. Porque ensinar, no fundo, é ensinar a ler o mundo. E talvez por isso a questão não seja apenas “o que lemos?”, mas “quem nos tornamos quando lemos?”. Há livros que nos acompanham como uma conversa longa. Outros entram como um abalo. Outros ainda, silenciosos, vão ficando e, um dia, percebemos que mudaram algo em nós.

Vale a pena, por isso, alargar a mesa. Ler ChinuaAchebe para compreender como as histórias podem devolver dignidade a um continente tantas vezes narrado por outros. Ler Ngũgĩ wa Thiong’opara perceber que a língua também é território e disputa. Ler Chimamanda Ngozi Adichie para reconhecer o perigo de uma única história. Ler José Saramago para exercitar a dúvida como forma de lucidez. Ler George Orwell para entender como o poder se infiltra na linguagem. Ler Frantz Fanon para confrontar as feridas mais profundas da história e da identidade. E poderíamos continuar. Porque, no fundo, ler é isso sentar-se à mesa com o mundo.

Num país onde tantos jovens chegam à universidade enfrentando obstáculos concretos,económicos, sociais, geográficos, o livro continua a ser uma das ferramentas mais acessíveis e, paradoxalmente, menos aproveitadas. Não exige electricidade constante. Não depende de rede. Não pede autorização. Apenas disponibilidade interior.

E talvez seja aqui que reside o verdadeiro desafio criar esse espaço. Nas escolas, nas casas, nos intervalos da vida. Transformar a leitura de obrigação em encontro. Afinal, como diz outro ensinamento popular, “a palavra que não é partilhada pesa no coração”. Os livros existem, precisamente, para aliviar esse peso.

Neste dia frio, em que Maputo abranda, talvez valha a pena fazer algo simples, escolher um livro, não para cumprir uma meta, mas para abrir uma janela. Porque um país que lê não é apenas um país mais instruído. É um país mais difícil de enganar. E isso, discretamente, muda tudo.

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