Duas pessoas ficaram gravemente feridas, no Posto Administrativo de Anchilo, no distrito de Nampula, província com o mesmo nome, na sequência de tumultos causados por um grupo de mulheres, que reivindicava a distribuição de capulanas prometidas pela Primeira-Dama, Gueta Selemane Chapo, no âmbito da comemoração, amanhã, do Dia da Mulher Moçambicana.
Trata-se de um menor, atropelado pela Polícia da República de Moçambique (PRM), e de uma mulher também baleada pela Polícia. O facto ocorreu no último sábado, quando um grupo de mulheres decidiu manifestar-se, colocando barricadas na EN1, interrompendo a circulação de viaturas.
Tal como tem sido habitual, a Polícia, através da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), foi mobilizada para o local e, mais uma vez, recorreu ao gás lacrimogéneo e balas verdadeiras para dispersar a multidão, uma acção que culminou com novas vítimas de “balas perdidas” da polícia moçambicana. Em reacção, o Comité da Frelimo, em Anchilo, foi vandalizado.
Ao que “Carta” apurou, a manifestação deriva das últimas declarações da Esposa do Chefe de Estado que, num encontro em Maputo, disse não possuir fábrica de capulanas e que as capulanas estavam nas lojas. No referido encontro, Gueta Chapo disse que a distribuição de capulanas dependia de aquisições e doações de parceiros, tendo chegado a sugerir que as igrejas deviam tomar iniciativa de distribuir as capulanas, uma afirmação que contraria a sua promessa: que é de distribuir capulanas para todas as mulheres moçambicanas.
Sentindo-se enganadas, as mulheres, em Anchilo, decidiram bloquear a EN1, queimando pneus e colocando barricadas. Vídeos amadores nas redes sociais mostram uma multidão cantando e exigindo a distribuição de capulanas, o principal item identitário da mulher moçambicana.
Continua o mistério dos locais e quantidade de capulanas distribuídas
Enquanto em Anchilo as mulheres bloqueavam a EN1, nas redes sociais circulavam várias imagens de distribuição de capulanas em vários locais do país, incluindo mercados e aldeias. Em Maputo, por exemplo, a Secretária-Geral da Organização da Mulher Moçambicana, braço feminino da Frelimo, Cidália Chauque, garantiu que o processo de distribuição já estava a decorrer e que só terminará no dia em que todas as mulheres forem contempladas.
Contudo, a menos de 24 horas das celebrações do 7 de Abril, o plano de distribuir mais de 17 milhões de capulanas mostra-se distante da realidade, com milhares de mulheres desiludidas com Gueta Chapo. Aliás, ainda não há dados oficiais sobre o número de capulanas já distribuídas, nem sobre a cobertura geográfica da iniciativa.
Refira-se que, de acordo com projecções do Instituto Nacional de Estatística (INE) para 2026, Moçambique conta com cerca de 17.997.781 mulheres, facto que levanta dúvidas quanto à capacidade de cumprimento da promessa, na medida em que o custo da operação é superior a 4.4 mil milhões de Meticais.
Lembre-se que as capulanas foram prometidas pela Esposa do Presidente da República, no passado dia 13 de Fevereiro, durante um encontro com mulheres, na cidade da Beira, capital provincial de Sofala. Na altura, a esposa de Daniel Chapo assegurou que o processo de distribuição ia começar dentro de dias em todo o território nacional, assegurando que nenhuma mulher ficaria de fora.
“Todas as mulheres, este ano, vão receber capulanas mahala [gratuitamente] para não matarem os homens. Começamos a distribuir no Posto Administrativo, vamos descer para o distrito e à província. A distribuição será em simultâneo para não permitir que uma mulher de um distrito possa ir receber noutro distrito. Ninguém vai ficar de fora. Queremos que toda a mulher, sem excepção, tenha capulana”, afirmou Gueta Chapo. (Marta Afonso)




