Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

11 de March, 2026

Memórias sobre o Lindo em Inhambane*

Escrito por

O Lindo Arouca (Laurindo da Conceição Mascarenhas Arouca) era um tipo fixe, “bradolas” de verdade. Minha memória está pejada de imagens marcantes da nossa adolescência e, sobretudo, de momentos que moldaram a sua personalidade.

O Lindo foi um cultor da banda desenhada, fanático do Spirou e daquelas séries de histórias aos quadradinhos (Asterix…)  E ele gostava de repetir episódios hilariantes sempre que fosse caso de conversa afim. Foi muito antes, Carlos Jossia, de chegares da Zambézia e entrarmos no mundo de Jubiabá e percorrermos os atalhos líricos dos poetas do Andes.

O Lindo era um desportista ecléctico, daqueles que em Inhambane fazia tudo na perfeição. Um médio centro de classe no futebol e um extremo-ala com meia distância fulminante no basquetebol (talvez equiparável apenas ao Vadinho Menezes e ao Kikas Soares).

O Ź Chissico já mencionou o fanatismo do Lindo pelos memoráveis mergulhos na Prancha, esse monumento da cidade agora combatido pela Frelimo, que jurou transformar a esplendorosa baía de Inhambane numa enorme mata de mangais, tapando-nos a vista do horizonte da maresia (uma decisão política que resulta duma interpretação errónea do que é cientificamente recomendável, uma agressão sem paralelo à cidade e à sua memória?).

Sim, sim. Nós com o Lindo brincávamos nos mangais, caçando peixinhos e filhotes de caranguejo com a maré vazia. E depois banhávamos na praia do Desportivo e na rampa do Economato, hoje inacessível.

Não me é possível desgrudar a imagem do Lindo de uma iconografia mental da paisagem urbana de Inhambane. Havia lugares onde a malta se juntava para cavaqueira, cada um repetindo trechos do filme que acabáramos de ver, ali no antigo Manuel Rodrigues, onde aprendemos o bê-á-bá de nossa cinefilia, onde cabia tudo de cinematografia, incluindo nosso Kuxa Kanema.

Um desses lugares era ali na descida do muro do cinema ou nos bancos do jardim que emoldurava a vista frontal do edifício ardido (o jardim da Esplanada, que agora deu lugar a lojecas de betão, nesta febre vigente de todos quererem ser empresários comerciais  – mais uma  empreitada de descaracterização da cidade); ou no muro da escola 7 de Abril, só para mencionar lugares fora dos espaços mais bairristas, pois ali se juntava a cidade para ouvir relatos de futebol português ou, nas manhãs de domingo, o Top 40 da Radio Five (sul-africana), que, confinados pela guerra, nos punha conectados com a cultura musical Pop Rock.

Por culpa do Ali Momad Natu, um aficcionado inveterado da Rádio Five, muitos de nós, como o Lindo, passamos por essa romaria de audição radiofônica dominical centrada numa Parada de Sucessos de música ocidental e cantávamos de cor Depeche Mode, Yes, Supertrump, e íamos saltitar nas tardes dançantes do Momed Kadir no “ballroom” do Ferroviário e, mais tarde, na “boite” do Hotel Baía, onde íamos “furar” bem pedrados de litrosa (sura), bebida na casa do Mabutu, contígua à dos Arouca, um lugar onde eu era um assíduo visitante (a casa dos Arouca).

Sempre que eu ia ao centro da cidade, tinha de entrar para saber do Lindo. Na verdade, meus irmãos Mousinho e Vitalino eram também amigos dos irmãos mais velhos do Lindo, o Taju e o Nenê. Todos já partiram, todos cedo, mas essa partida é apenas a confirmação de que todos nós vamos lá ter. Foi mais ou menos assim que meu amigo tetense Adalberto Dias escreveu no seu epitáfio no facebook, aquando da morte, também recente, da sua tia Luísa Diogo. Até Lindo.

*Sobre a partida recente de um amigo de infância, o Lindo Arouca

Visited 30 times, 30 visit(s) today

Sir Motors

Ler 30 vezes