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6 de February, 2026

Cenário sombrio na imprensa moçambicana: um desaparecido, um envenenamento e equipamento apreendido em 2025

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O caso da tentativa de assassinato do jornalista Carlitos Cadangue, correspondente da STV, (um canal privado de televisão), na província de Manica, ocorrido no princípio da noite de quarta-feira, na cidade de Chimoio, capital daquela província, é “mais um”, numa longa lista de vítimas dos esquadrões da morte que, a cada ano, lutam para silenciar os profissionais da comunicação social.

Em 2025, as liberdades de imprensa e de expressão foram também vítimas dos inimigos da verdade e da verticalidade da imprensa moçambicana, sobretudo a privada, e dos fazedores de opinião. A primeira vítima foi o jornalista e activista político Arlindo Chissale, raptado a 07 de Janeiro, no auge das manifestações pós-eleitorais, por supostos elementos das Forças de Defesa e Segurança (FDS), quando saía de Pemba, na província de Cabo Delgado, para a cidade de Nacala-Porto, na província de Nampula.

Informações partilhadas, na altura, por pessoas próximas à família, indicam que Chissale foi forçado a descer da viatura em que seguia para a cidade de Nacala-Porto por indivíduos até aqui desconhecidos, não se sabendo o seu paradeiro até hoje, 06 de Fevereiro de 2026.

O caso de Arlindo Chissale assemelha-se à estória do desaparecimento do jornalista Ibraimo Mbaruco, da Rádio Comunitária de Palma, cujo paradeiro é desconhecido desde o dia 07 de Abril de 2020. Na altura do seu desaparecimento, Mbaruco disse aos colegas que estava cercado de militares, porém, as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) nunca confirmaram a informação. As autoridades judiciais também nunca conseguiram esclarecer o caso. Aliás, em Agosto de 2024, a Procuradoria-Geral da República arquivou o processo, alegadamente por falta de provas.

A autorização administrativa desautorizada pela UIR
Seis meses depois de terem sido acusadas de raptar o jornalista e activista político Arlindo Chissale, as Forças de Defesa e Segurança (FDS) voltaram a ser notícia pelas más razões. No dia 26 de Julho de 2025, um grupo de profissionais da comunicação social foi submetido a uma sessão de intimidação e tortura psicológica, no distrito de Macomia, província de Cabo Delgado, que culminou com o confisco do material de trabalho sem qualquer fundamento.

De acordo com o relato feito pelo MISA-Moçambique, numa carta dirigida ao Ministro da Defesa Nacional, a exigir esclarecimentos em torno do sucedido, um grupo de 16 jornalistas moçambicanos, que partiu da cidade de Pemba com destino ao distrito de Mueda, no norte daquela província, com intuito de ver o estágio das obras de asfaltagem da estrada Mueda-Negomano, foi detido e interrogado por militares, sem qualquer fundamento legal.

O MISA-Moçambique relata que o grupo fez uma paragem no distrito de Macomia, onde decidiu entrevistar o Administrador local, Tomás Badae, sobre o processo de reconstrução da vila, severamente afectada pelos ataques terroristas. Após a entrevista, os jornalistas pediram autorização para captar imagens de infra-estruturas destruídas, como a Secretaria Distrital e a residência oficial do próprio administrador.

A autorização foi concedida sem restrições, mas ao se dirigir à residência do administrador, na altura ocupada por elementos da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), a equipa foi interpelada por cerca de cinco agentes – entre fardados e à paisana – e os jornalistas informaram que havia autorização da autoridade administrativa para a recolha de imagens.

O MISA afirma que, na ocasião, os agentes da UIR alegaram que não podiam autorizar a captação de imagens sem antes obter ordens do seu superior hierárquico que no momento não se encontrava presente. “Após longa espera e com o tempo da missão a esgotar-se, os jornalistas decidiram retomar a viagem sem realizar as imagens pretendidas”.

No entanto, instantes antes de abandonarem a vila, um homem à paisana supostamente membro das FDS acenou para a viatura dos jornalistas, como quem solicitava boleia. A viatura seguiu viagem sem parar, tendo o homem, em resposta, fotografado a matrícula da viatura com o seu telefone.

“Já em Miangaleua [no distrito de Muidumbe], cerca de 70 Km de Macomia, os jornalistas foram mais uma vez interpelados por um contingente das FDS de Moçambique que ordenou a retirada dos jornalistas da viatura, recolheu os documentos, ordenou que ficassem em fila e foram fotografados. Parte do material de trabalho foi temporariamente confiscado, sem apresentação de qualquer mandado ou justificativa legal”, diz a fonte.

“O grupo foi, de seguida, obrigado a regressar à vila de Macomia, onde foi submetido a interrogatórios e tortura psicológica por elementos da FDS, relativamente ao objectivo da deslocação. Após cerca de duas horas de interrogatório, sem que fosse identificada qualquer irregularidade, os jornalistas foram finalmente autorizados a prosseguir com a sua missão”, acrescenta. A viagem foi organizada pela Administração Nacional de Estradas. Até hoje, o Ministério da Defesa Nacional não se pronunciou em torno deste grave incidente.

Envenenamento da jornalista Selma Inocência

A outra vítima dos esquadrões da morte foi a jornalista Selma Inocência, que se encontra actualmente a residir na Alemanha. A jornalista denunciou, a 27 de Julho de 2025, através da sua página oficial no Facebook, ter sido vítima de envenenamento por metais pesados durante sua estadia num hotel de cinco estrelas, em Maputo. O alegado incidente terá ocorrido em Março daquele ano, após uma formação que ministrou na capital do país.

Em declarações à “Carta”, Inocência relatou que chegou ao país a 2 de Março, um dia antes do início da formação, e regressou antecipadamente no dia 6 do mesmo mês devido a sinais de insegurança que terá identificado durante a visita.

“Cheguei a Moçambique no dia 2 de Março e tive de regressar no dia 6, num voo antecipado, porque já tinha percebido grandes sinais de insegurança. Como sabia que a minha ida a Maputo seria arriscada, hospedei-me num hotel de cinco estrelas. Durante a minha estadia, não saí para nenhum restaurante, o meu trajecto era apenas para o local onde dei a formação, de 3 a 5 de Março”, afirmou a jornalista.

De acordo com o seu testemunho, os primeiros sintomas incluíam fadiga extrema, dores de cabeça, tonturas, dores nas costas e queda de cabelo. Com o tempo, as suas capacidades motoras foram severamente afectadas, dificultando até tarefas básicas como caminhar. Já de regresso à Alemanha, procurou assistência médica, tendo sido hospitalizada e submetida a uma “bateria de exames”, cujos resultados revelaram níveis elevados de metais tóxicos no organismo, entre eles, o mercúrio, estanho, cádmio, urânio, potássio, antimónio e alumínio. Até hoje, não se conhece o desfecho deste caso.

Refira-se que em reacção ao atentado sofrido pelo jornalista Carlitos Cadangue, o Presidente da República emitiu um comunicado de imprensa, no qual exige o esclarecimento do caso, “devendo os seus perpetradores serem levados à justiça”.

Segundo Daniel Chapo, “somos um país onde a Liberdade de Imprensa deve prevalecer”, pelo que “continuaremos a lutar firmemente contra o crime organizado, que não tem como triunfar no nosso país”. Para o Chefe de Estado, “o medo e a insegurança são inimigos da liberdade, da democracia e do desenvolvimento”. (Carta)

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