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28 de January, 2026

As Catacumbas da Memória – O espelho subterrâneo de um país

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Determinadas palavras, por vezes, pela forma como são usadas, carregam mais desconforto do que clareza. Governar é uma delas. No uso corrente, o termo oscila entre mandar, chefiar, ordenar, orientar ou dirigir, sem que nenhuma dessas acepções consiga, por si só, dar conta da complexidade do acto político. Mandar parece reduzir-se à relação com subordinados e chefiar aproxima-se perigosamente da ideia de comando cego. Por sua vez, ordenar confunde-se com o exercício de autoridade sobre serviçais e orientar sugere apenas indicar um rumo, sem responsabilidade pelo percurso. Governar, no entanto, pressupõe algo mais profundo, a gestão de pessoas e destinos num contexto marcado por confusão, desorganização, expectativas e conflitos. Não se trata apenas de dirigir estruturas, como faz o gestor numa empresa estatal ou o director num sector ministerial, mas de exercer responsabilidade política sobre uma colectividade.

Este olhar crítico sobre o significado de governar atravessa As Catacumbas da Memória, obra recentemente lançada por Alberto de Almeida Matausse Hausse, aos noventa anos de idade, na sua primeira incursão formal pelo registo autobiográfico e reflexivo. O raciocínio acima parafraseado, extraído do livro, funciona como uma espécie de porta de entrada para toda a narrativa, uma interrogação permanente sobre o poder, a liderança e as ambiguidades do exercício da governação em Moçambique.

Tive o ensejo e a honra de apresentar esta obra profunda e comovente, na qual o autor percorre o fio da sua vida, da infância à maturidade, revisitando o período colonial e o pós-independência com lucidez crítica e corajosa honestidade intelectual. Ao fazê-lo, Hausse não escreve apenas a história de um homem, mas oferece ao leitor um espelho moral de um país, visto por dentro, a partir das suas tarefas quotidianas, das suas tensões e das suas esperanças adiadas.

Professor de Língua Portuguesa, Francês e Línguas Bantu, o Professor Hausse reencontrou, naquela noite, muitos dos seus antigos estudantes, rostos familiares de quem já não guarda todos os nomes, mas de quem permanece o legado formativo.

As Catacumbas da Memória é um desses livros ousados, onde o tempo se torna palavra, e a palavra se transforma em espelho da alma de um homem e de um país. Nesta obra, Alberto de Almeida Matausse Hausse, desce às suas próprias catacumbas interiores, os corredores da infância, da fé, da luta, da esperança e da desilusão, para resgatar tudo o que o esquecimento tentou soterrar.

Não é apenas a autobiografia de um homem. É o retracto moral de uma geração. É o testamento de quem viveu a travessia de Moçambique da colónia à independência, da fé à dúvida, da esperança à responsabilidade.

Homem de múltiplas vidas, Alberto de Almeida Matausse Hausse sempre reflectiu, com inquietação e lucidez, sobre as razões profundas do conflito e da violência. Para ele, a guerra nunca foi um acidente inevitável, mas o resultado de condições humanas e políticas mal resolvidas. No caso moçambicano, interroga-se sobre como um país recém-liberto acabou mergulhado numa guerra fratricida, não por falta de laços comuns, mas por divergências quanto à forma de conduzir a nação.

A exclusão política, o mau exercício do poder, as disputas ideológicas e, sobretudo, a ausência de humanidade, de partilha justa do poder e de um verdadeiro sentido de bem comum criaram o terreno para o desenlace armado. Quando a tribo se sobrepõe à nação e o interesse de alguns suplanta o interesse colectivo, a guerra deixa de ser apenas uma tragédia externa e passa a ser uma falha moral interna.

É a partir dessa consciência que Hausse se afirma como professor exemplar, daqueles que ensinavam a pensar e não apenas a repetir. O prefácio recorda o tempo em que ele, vindo do Dondo para leccionar na Escola Secundária Samora Machel, chegava atrasado porque o comboio nunca cumpria o horário e, ainda assim, entrava na sala com o mesmo ânimo, o mesmo brilho nos olhos, a mesma vontade de transformar o cansaço em lição.

Dizia aos alunos “Um dia isto tem que mudar.”

E mudava, dentro deles. Porque o professor Hausse não ensinava apenas gramática, ensinava consciência. Usava o quotidiano como metáfora do país, e cada conversa, cada provocação, era um convite à reflexão ética e política.

Foi também funcionário do Ministério do Trabalho, onde serviu de 1974 a 1994. Nessa função, viveu uma das fases mais turbulentas da história recente. O próprio autor relata como se tornou alvo de feroz perseguição, vítima de intrigas e tentativas de assassinato de carácter que quase o destruíram.

Conta que apenas a intervenção do presidente Samora Machel, na célebre “reunião com os Comprometidos”, em 1982, pôs termo ao calvário. A partir daí, Hausse nunca mais se calou diante da injustiça, fez da palavra o seu escudo, da escrita o seu tribunal, e da memória o seu refúgio.

É dessa matéria, feita de fé, resistência e lucidez, que nascem As Catacumbas da Memória. O título não é casual, evoca um espaço subterrâneo, secreto, silencioso; o lugar onde os primeiros cristãos se escondiam para preservar a fé, mas também o espaço onde a verdade resiste quando o mundo à superfície se corrompe.

E é legítimo perguntar:

Porquê “catacumbas” para um país que saiu da opressão colonial, conquistou a independência e chegou à democracia?

Talvez porque, apesar da liberdade, a consciência continua a viver em subterrâneos. Porque muitas verdades ficaram soterradas sob o peso da conveniência e do medo. Porque a independência política não trouxe, por si só, a libertação moral.

E porque o autor entende que o dever da memória é descer onde poucos querem ir, aos túneis do esquecimento, às sombras do silêncio, para recuperar a essência da nação, a ética, a justiça, a verdade.

Hausse escreve, pois, a partir das catacumbas de um país que ainda se interroga sobre si mesmo. Fala com a voz de quem viu o poder aproximar-se do medo, a coragem ceder à obediência e a esperança transformar-se em hábito. Mas, também, com a voz de quem acredita que a salvação está, sempre, na lucidez e na palavra justa. É este o espírito que atravessa todos os capítulos da obra, um vasto percurso da infância em Chicanga ao exercício da consciência nacional.

Cada capítulo de As Catacumbas da Memória é uma estação do espírito, um degrau que conduz o leitor das origens rurais do autor às inquietações éticas, políticas e culturais de Moçambique contemporâneo. Entre recordações da infância, vivências da fé, experiências de injustiça e reflexões sobre o país, Hausse transforma episódios pessoais em parábolas morais e políticas.

A obra atravessa temas como a educação, a desigualdade, o poder, a identidade e a reconciliação, compondo um verdadeiro mosaico da consciência nacional. Nas páginas finais, o autor ergue um apelo sereno mas firme, que Moçambique reencontre a sua verdade, que a política recupere a ética e que o ideal da independência se cumpra também nos valores.

As Catacumbas da Memória é um pouco mais do que uma confissão, é um espelho subterrâneo de Moçambique. É a confissão de um homem que sobreviveu à mentira e escolheu a palavra como resistência. É a prova de que, mesmo num país livre, ainda há verdades à espera de nascer à luz.

Com o lançamento da obra, celebramos a coragem de quem ousou descer às profundezas da memória para iluminar a superfície da nação. Celebramos um mestre que transformou o tempo em lição, e a dor em sabedoria.

E reafirmamos, com ele, que as catacumbas da memória são, afinal, o útero da esperança.

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