2025 começou sem promessas.
Não entrou com discursos grandes nem com euforia. Entrou cauteloso, quase desconfiado, como quem sabe que o terreno ainda está instável. Muitos de nós entrámos nele assim, cansados, feridos, atentos.
Vínhamos de um dos períodos mais duros da nossa história recente. Violência, medo, bloqueios, silêncio. Um país suspenso entre o que foi e o que ainda não conseguia ser. Para quem vive, trabalha e cria aqui, não era apenas uma crise política ou económica. Era existencial.
E depois vieram as perdas.
As perdas verdadeiras.
Perdemos homens bons. Perdemos referências. Perdemos vozes que faziam falta quando o barulho era maior do que a verdade. Amade Camal foi um deles. Um defensor firme da nossa causa, daqueles que não precisavam de palco para ser grandes. Penso muitas vezes nele, porque fazem falta os que acreditam sem cinismo, os que defendem sem negociar a consciência.
Hoje, gosto de imaginar que estaria a sorrir. Moçambique começou finalmente a dar passos concretos na mobilidade eléctrica urbana, com a isenção de taxas de importação para autocarros eléctricos, uma causa que ele defendeu com convicção quando poucos ainda conseguiam ver longe. Os primeiros autocarros, tão necessários, já estavam a caminho e alguns já no país graças ao seu empenho e visão. Em breve, começarão a circular nas artérias das nossas cidades, e cada um deles será uma lembrança silenciosa dessa persistência. Falta agora abrir o caminho também para os veículos eléctricos em geral. Quando isso acontecer, será um grande marco para Moçambique e mais uma prova de que algumas sementes demoram, mas acabam sempre por germinar.
A morte tem esse poder estranho.
Ou paralisa.
Ou chama à responsabilidade.
2025 escolheu a segunda opção.
Porque, algures entre o cansaço e a persistência, algo começou a mudar. Não de forma espetacular. Não de forma televisiva. Mas de forma real. Uma mudança de tom. De postura. De conversa. Começou a falar-se menos em desculpas e mais em dever. Menos em atalhos e mais em arrumar a casa.
Nada disto aconteceu por acaso.
Aconteceu porque houve quem não desistiu. Quem segurouempresas, equipas e famílias, mesmo quando tudo apertava. Aconteceu graças a colaboradores, parceiros, amigos e família. Os verdadeiros pilares invisíveis deste país. Aqueles que não aparecem nos relatórios, mas seguram o sistema quando ele ameaça colapsar.
Ouvi com atenção os discursos que marcaram este ciclo e compreendi, desde cedo, que esta não seria uma travessia fácil. Herdou-se um país ferido, desconfiado, com muito por dentro ainda por resolver. Quem esperava milagres rápidos não entendeu a dimensão do problema. A reconstrução real é sempre incómoda e raramente popular no início. Mas necessária.
É por isso que olho para 2026 com um sentimento diferente.
Não com ingenuidade.
Com lucidez.
2026 não será o ano em que tudo estará resolvido. Mas pode, e deve, ser o ano em que a mudança começa a ser visível. Em que o esforço deixa de ser apenas sacrifício e começa a ser resultado. Em que cada um de nós percebe que não há país possível sem participação activa.
Não podemos esquecer o que nos atrasou.
Mas também não podemos continuar reféns disso.
Moçambique não se vai reconstruir apenas com memória, nem apenas com discurso. Vai reconstruir-se com acção diária, com ética prática e com responsabilidade colectiva. Acreditar é essencial. Agir é obrigatório.
É assim que se reconstrói a esperança.
É assim que se constrói futuro, sobretudo para as nossas crianças, que não herdaram os erros, mas herdarão as consequências.
E nesta véspera de Natal, Dia da Família, vale a pena lembrar o essencial.
É na família que aprendemos a cuidar.
É na família que se transmitem valores.
É na família que começa qualquer reconstrução verdadeira.
Que este tempo nos traga mais presença, mais união e mais humanidade.
Dentro de casa. E fora dela.
2025 atravessou-nos.
2026 chama-nos.
E desta vez, não podemos fingir que não ouvimos.
A luta continua.
Nuno Lima
Maputo, 24 de Dezembro de 2025





