De Há cerca de duas semanas, Jessemusse Cacinda, representante da editora “Ethale Publishing”, escreveu, no seu mural do Facebook, uma crónica que nos leva, de uma forma ou de outra, à essência do presente livro, intitulado: “Até ao Fim do Mundo – Diário de Desencanto e Espanto”.
Jessemusse Cacinda é natural do distrito de Memba, na Provincia de Nampula. E este nome, “Memba” , leva-nos hoje a pensamentos deveras perturbadores.
Diz na sua crónica Jessemusse Cacinda:
“A minha mãe chegou a Maputo e com ela histórias tristes de pessoas conhecidas. O relato de uma fila feita de pessoas decapitadas, a dor de quem, mais uma vez, é obrigado a refugiar-se, e a falta de esperança, que toma a alma de todos. Minuciosamente perguntei-lhe sobre algumas pessoas e ela pacientemente respondeu-me que todos foram reduzidos a refugiados…..”.
Mais adiante, escreve Cacinda:
“Quando cresci em Memba as marcas da guerra civil faziam a paisagem. Um enorme edificio do centro da Vila, em frente ao mercado principal, destruido; as ruinas de uma granada ainda contavam a história dohospital que existira e a memória dos mais velhos a falar da guerra como se de uma parente próxima se tratasse…Somos filhos da guerra que sonham com paz. Talvez um dia os nossos filhos tenham uma sorte diferente, porque para já, nem lágrimas chegam a ser suficientes”.
Há, nesta crónica de Jessemusse Cacinda palavras e imagens que muito bem resumem o espirito deste livro. Algumas dessas imagens e palavras são as seguintes:
“guerra”; “pessoas decapitadas”; “dor” ; “refugiar-se”; “ruinas”; “granadas” ; “sonhos”, “Paz”; “lagrimas”, “falta de esperança”…
De todas estas palavras ou expressões, há uma que nos arde na boca : “Falta de esperança”.
E em que consiste a esperança? Esperança significa confiança em algo positivo, que vai ocorrer um dia.Algo por que se luta. É o foco no futuro. É uma crença emocional, que se manifesta em maneiras de ser, estar e agir no mundo. Ou seja, a esperança traduz-se em modos de vida.
Nessa senda, os crentes, aqueles que têm fé em Deus ou em Alá, seguem uma determina conduta, na esperança de uma outra vida, a vida eterna.
Por seu lado, é a esperança de ter alimentos em casa que dá energia ao camponês para limpar a sua machamba e semear o milho. Portanto precisamos de esperança para agir. Sem esperança morremos. Morremos por dentro.
Se o camponês tiver informações seguras de que, por mais que limpe a sua machamba e lance a semente àterra …ele jamais vai obter os alimentos que deseja, ele vai simplesmente desitir de cultivar a sua machamba. Porque perdeu esperança. Porque perdeu fé sobre as qualidades da terra, de produzir alimentos.
Mas quando é que se perde a esperança?
Perde-se a esperança quando o desencanto, o insucesso; o fracasso e o desnorte se sucedem , a ponto de ultrapassar a nossa capacidade de resiliência.
Quando o desencanto e o espanto nos atiram para o fundo do poço, deixando-nos sem qualquer luz a indicar caminho de saida. Quando o sofrimento humano vira uma fatalidade. E a nossa confiança em nós mesmos e no nosso espirito combativo, sossobram!
Significa, portanto, que é preciso infringir ao indíduo ou à sua comunidade níveis humanementeinsuportáveis de sofrimento e de dor, para leva-lo a perder a esperança. Daí a expressão: “a esperança é a última a morrer”.
E, no entanto, os moçambicanos já alcançaram essa “proeza”. Eles foram levados a realizar tal “façanha”!
E quando é que os moçambicanos perderam a esperança?
Os moçambicanos perderam a esperança quando, ao longo de anos, fizeram perguntas fundamentais, sem nunca ninguém lhes dar qualquer resposta. Os moçambicanos perderam a esperança quando, ao longo de anos, ninguém lhes respondeu a perguntas como:
1. Por que aqueles que, de forma voluntária, e até, combativa, se colocaram à frente dos destinos da Nação, acabaram levando a Nação à terra de ninguém, parecendo que estavam,eles mesmos,desnorteados?
2. Por que aqueles que aprovam normas e regras de conduta em comunidade parece terem-se tornado,eles mesmos, nos principais prevaricadores; nos principais violadores de tais normas e regras de conduta social?
3. Por que aqueles a quem, de boa-fé, foi confiada a sagrada missão de servir com justiça e equidade, as colheitas da colectiva machamba da Nação, parece terem reduzido a Nação a si mesmos e àqueles seus devotos servos?
4. Por que aqueles com o dever oficial de nosdefender dos nossos inimigos e de todos osperigos, começaram, eles mesmos, a confundir-secom o próprio inimigo?
5. Por que aqueles a quem, de boa-fé, foram investidos de poderes para resolver contendas e disputas, com justiça e equidade, parece teremoptado por proclamar sentenças e urdir acórdãos que, em vez de pacificar, mais conflitos, ódios e divisões semeiam entre nós?
6. Por que será que os libertadores da sagrada Pátria passaram a confundir-se com novos conquistadores; conquistadores da sua própria terra e do seu próprio povo?
7. Hoje, diz o povo que a guerra de ódios e dedecapitações, que se esconde por detrás de mesquitas, lá no Norte, tem donos conhecidos, e estes são moçambicanos: por que fala assim o povo? Porquê?
Como nenhuma destas perguntas foi alguma vez respondida, a esperança dos moçambicanosenvelheceu.Ela tornou-se caduca. A esperanca dos moçambicanos acabou tornando-se, ela mesma, um bloqueio; um obstaculo…Em vez de gerar sonhos, elapassou a gerar pesadelos.
Esta esperança degenerou-se. E como recuperá-la? A velha esperança… já não se recupera mais: ela jácaducou! Urge, agora, criar uma nova esperança: urge refundar o Estado Moçambicano!
E aqui chegados, solicito, muito respeitosamente, que desta declaração solene, aqui feita publicamente, tome nota a excelentissima Comissão Técnica do Diálogo Nacional Inclusivo, para os devidos efeitos.
(Mensagem por ocasião do lançamento da obra: “Até ao Fim do Mundo – Diário de Desencanto e Espanto”.
Maputo, aos 11 de Dezembro de 2025





