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4 de December, 2025

Moçambique Não Pode Ser Refém das Oscilações Políticas da Europa, escreve Dino Foi

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Nos últimos meses, o debate público no Reino Unido intensificou-se em torno dos projectos de gás natural em Moçambique, sugerindo que a sua exploração contraria as metas climáticas globais.

A retórica, muitas vezes dura e desproporcionada, ultrapassa largamente a realidade dos factos e ignora a complexidade do contexto moçambicano.

Moçambique acolhe a discussão global sobre clima e energia. Mas não aceitará que as suas aspirações de desenvolvimento, o seu direito soberano ao progresso e a estabilidade arduamente conquistada sejam condicionados por terceiros.

Não se trata de fomentar confrontos; trata-se de reafirmar o princípio fundamental de que a nossa trajectória deve ser definida por nós próprios.

1. Europa recua por razões internas, não por falhas de Moçambique

A recente decisão do Reino Unido e dos Países Baixos de retirarem um total de 2,2 mil milhões de dólares de apoio ao projecto Mozambique LNG foi apresentada como resposta a riscos agravados e preocupações humanitárias. Contudo, a verdade é mais simples: foi a realidade política europeia que mudou, não Moçambique.

A própria TotalEnergies levantou o force majeure e prepara o reinício das obras. A estabilidade está a melhorar em Cabo Delgado, não a deteriorar-se. E foi o consórcio que retirou voluntariamente pedidos de seguro nos Países Baixos — um gesto que não indicia qualquer incumprimento moçambicano.

Quando decisões financeiras são justificadas com relatórios encomendados por pressão doméstica, e não por evidências de campo, fica claro que o que está em causa não é o projecto, mas a política interna europeia.

2. Gás natural: instrumento de desenvolvimento, não capricho político

Para Moçambique, o gás natural não é uma escolha ideológica. É um pilar estratégico para reduzir a pobreza, estabilizar a economia e financiar a construção de um país moderno.

O gás representa:

  • investimento em escolas e formação, para que uma geração inteira não seja deixada para trás;
  • eletrificação das zonas rurais, onde milhões vivem ainda sem acesso a energia;
  • empregos qualificados, que oferecem alternativas reais à emigração forçada de jovens;
  • recursos para adaptação climática, essenciais num país devastado por ciclones e erosão costeira;
  • insumos industriais, incluindo fertilizantes e matérias-primas para agro-indústria;
  • receitas para diversificação económica e autonomia face à ajuda externa.

Este é o ponto que muitos críticos europeus ignoram: o gás natural é, para Moçambique, uma ponte entre vulnerabilidade e estabilidade, não um desvio às metas climáticas globais.

3. A contradição britânica é evidente

Parte da retórica britânica defende a suspensão de projectos de gás em África. Mas o próprio Reino Unido:

  • continua a produzir mais de um terço da sua eletricidade com gás,
  • aprova novos projectos no Mar do Norte,
  • depende do gás para aquecimento, indústria e segurança energética.

Como pode algo considerado “indispensável” para o Reino Unido ser “moralmente inaceitável” para Moçambique?

O que está em causa não é o clima — é a expectativa de que os países africanos cumpram padrões que a Europa nunca cumpriu quando estava no mesmo estágio de desenvolvimento.

4. Segurança em Cabo Delgado: desenvolvimento é parte da solução

Os desafios de segurança na província foram usados como pretexto para travar o projecto. Mas tal lógica ignora a realidade no terreno: o extremismo cresce onde há pobreza, abandono e ausência de oportunidades.

Interromper projectos estruturantes não combate o extremismo — alimenta-o.

Moçambique está a recuperar a segurança em Cabo Delgado, reconstruir comunidades e restabelecer a confiança.

Não aceitamos que a violência determine o destino de uma província ou impeça o país de avançar.

5. A transição energética deve ser parceria, não paternalismo

Moçambique já é um dos países com a matriz energética mais limpa de África, com forte base hidroelétrica e crescente investimento em solar, eólica e hidrogénio verde. Contudo, nenhuma transição energética se faz sem tempo, receitas e estabilidade.

O gás natural fornece precisamente aquilo que as renováveis, ainda em expansão, não conseguem oferecer por si só: previsibilidade, financiamento e escala.

Exigir que Moçambique abandone um recurso vital enquanto a Europa o utiliza intensivamente é uma forma subtil — mas real — de desigualdade estrutural.

6. Moçambique exige respeito e soberania narrativa

Há um traço recorrente nas discussões europeias: fala-se sobre Moçambique, raramente com Moçambique. Fala-se do país como cenário distante, não como uma nação com visão, competências e instituições robustas.

Moçambique valoriza parcerias, mas rejeita qualquer abordagem paternalista que ignore a inteligência institucional do país ou minimize as experiências das comunidades directamente afectadas pelas decisões externas.

A posição é inequívoca:

  • sim à acção climática global;
  • sim às energias renováveis;
  • sim à exploração responsável do gás natural;
  • não a narrativas externas que produzem falsos dilemas entre desenvolvimento e sustentabilidade.

7. Uma reflexão dirigida ao público britânico

Ao público britânico — cidadãos, activistas e decisores — deixamos três perguntas simples:

  1. Privariam o vosso próprio povo dos meios necessários para reconstruir depois de catástrofes naturais?
  2. Abririam mão de uma oportunidade histórica para reduzir a pobreza estrutural?
  3. Aceitariam limitar o vosso desenvolvimento porque outros consideram o vosso percurso “inconveniente”?

Se a resposta for “não”, então também devem reconhecer que Moçambique tem o mesmo direito a um futuro digno.

Moçambique procura cooperação, não autorização.

Procura respeito mútuo, não moralismos simplistas.

O nosso gás, o nosso futuro

O objectivo de Moçambique é claro: construir um futuro próspero sem comprometer o planeta.

E acreditamos firmemente que não somos obrigados a escolher entre desenvolvimento e sustentabilidade.

As decisões europeias não definem o destino de Moçambique.

O país seguirá o seu caminho — com parceiros que respeitam a sua soberania e compreendem a urgência de transformar recursos naturais em bem-estar para o seu povo.

O nosso gás, o nosso desenvolvimento, a nossa voz.

E isso não está em renegociação.

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