Nos últimos meses, o debate público no Reino Unido intensificou-se em torno dos projectos de gás natural em Moçambique, sugerindo que a sua exploração contraria as metas climáticas globais.
A retórica, muitas vezes dura e desproporcionada, ultrapassa largamente a realidade dos factos e ignora a complexidade do contexto moçambicano.
Moçambique acolhe a discussão global sobre clima e energia. Mas não aceitará que as suas aspirações de desenvolvimento, o seu direito soberano ao progresso e a estabilidade arduamente conquistada sejam condicionados por terceiros.
Não se trata de fomentar confrontos; trata-se de reafirmar o princípio fundamental de que a nossa trajectória deve ser definida por nós próprios.
1. Europa recua por razões internas, não por falhas de Moçambique
A recente decisão do Reino Unido e dos Países Baixos de retirarem um total de 2,2 mil milhões de dólares de apoio ao projecto Mozambique LNG foi apresentada como resposta a riscos agravados e preocupações humanitárias. Contudo, a verdade é mais simples: foi a realidade política europeia que mudou, não Moçambique.
A própria TotalEnergies levantou o force majeure e prepara o reinício das obras. A estabilidade está a melhorar em Cabo Delgado, não a deteriorar-se. E foi o consórcio que retirou voluntariamente pedidos de seguro nos Países Baixos — um gesto que não indicia qualquer incumprimento moçambicano.
Quando decisões financeiras são justificadas com relatórios encomendados por pressão doméstica, e não por evidências de campo, fica claro que o que está em causa não é o projecto, mas a política interna europeia.
2. Gás natural: instrumento de desenvolvimento, não capricho político
Para Moçambique, o gás natural não é uma escolha ideológica. É um pilar estratégico para reduzir a pobreza, estabilizar a economia e financiar a construção de um país moderno.
O gás representa:
- investimento em escolas e formação, para que uma geração inteira não seja deixada para trás;
- eletrificação das zonas rurais, onde milhões vivem ainda sem acesso a energia;
- empregos qualificados, que oferecem alternativas reais à emigração forçada de jovens;
- recursos para adaptação climática, essenciais num país devastado por ciclones e erosão costeira;
- insumos industriais, incluindo fertilizantes e matérias-primas para agro-indústria;
- receitas para diversificação económica e autonomia face à ajuda externa.
Este é o ponto que muitos críticos europeus ignoram: o gás natural é, para Moçambique, uma ponte entre vulnerabilidade e estabilidade, não um desvio às metas climáticas globais.
3. A contradição britânica é evidente
Parte da retórica britânica defende a suspensão de projectos de gás em África. Mas o próprio Reino Unido:
- continua a produzir mais de um terço da sua eletricidade com gás,
- aprova novos projectos no Mar do Norte,
- depende do gás para aquecimento, indústria e segurança energética.
Como pode algo considerado “indispensável” para o Reino Unido ser “moralmente inaceitável” para Moçambique?
O que está em causa não é o clima — é a expectativa de que os países africanos cumpram padrões que a Europa nunca cumpriu quando estava no mesmo estágio de desenvolvimento.
4. Segurança em Cabo Delgado: desenvolvimento é parte da solução
Os desafios de segurança na província foram usados como pretexto para travar o projecto. Mas tal lógica ignora a realidade no terreno: o extremismo cresce onde há pobreza, abandono e ausência de oportunidades.
Interromper projectos estruturantes não combate o extremismo — alimenta-o.
Moçambique está a recuperar a segurança em Cabo Delgado, reconstruir comunidades e restabelecer a confiança.
Não aceitamos que a violência determine o destino de uma província ou impeça o país de avançar.
5. A transição energética deve ser parceria, não paternalismo
Moçambique já é um dos países com a matriz energética mais limpa de África, com forte base hidroelétrica e crescente investimento em solar, eólica e hidrogénio verde. Contudo, nenhuma transição energética se faz sem tempo, receitas e estabilidade.
O gás natural fornece precisamente aquilo que as renováveis, ainda em expansão, não conseguem oferecer por si só: previsibilidade, financiamento e escala.
Exigir que Moçambique abandone um recurso vital enquanto a Europa o utiliza intensivamente é uma forma subtil — mas real — de desigualdade estrutural.
6. Moçambique exige respeito e soberania narrativa
Há um traço recorrente nas discussões europeias: fala-se sobre Moçambique, raramente com Moçambique. Fala-se do país como cenário distante, não como uma nação com visão, competências e instituições robustas.
Moçambique valoriza parcerias, mas rejeita qualquer abordagem paternalista que ignore a inteligência institucional do país ou minimize as experiências das comunidades directamente afectadas pelas decisões externas.
A posição é inequívoca:
- sim à acção climática global;
- sim às energias renováveis;
- sim à exploração responsável do gás natural;
- não a narrativas externas que produzem falsos dilemas entre desenvolvimento e sustentabilidade.
7. Uma reflexão dirigida ao público britânico
Ao público britânico — cidadãos, activistas e decisores — deixamos três perguntas simples:
- Privariam o vosso próprio povo dos meios necessários para reconstruir depois de catástrofes naturais?
- Abririam mão de uma oportunidade histórica para reduzir a pobreza estrutural?
- Aceitariam limitar o vosso desenvolvimento porque outros consideram o vosso percurso “inconveniente”?
Se a resposta for “não”, então também devem reconhecer que Moçambique tem o mesmo direito a um futuro digno.
Moçambique procura cooperação, não autorização.
Procura respeito mútuo, não moralismos simplistas.
O nosso gás, o nosso futuro
O objectivo de Moçambique é claro: construir um futuro próspero sem comprometer o planeta.
E acreditamos firmemente que não somos obrigados a escolher entre desenvolvimento e sustentabilidade.
As decisões europeias não definem o destino de Moçambique.
O país seguirá o seu caminho — com parceiros que respeitam a sua soberania e compreendem a urgência de transformar recursos naturais em bem-estar para o seu povo.
O nosso gás, o nosso desenvolvimento, a nossa voz.
E isso não está em renegociação.





