A visita de Lula da Silva a Moçambique, nos dias 23 e 24 de Novembro, não é apenas um gesto diplomático. É um reencontro com um país que, nos últimos 20 anos, foi palco de algumas das mais ambiciosas – e por vezes frustrantes – iniciativas da cooperação brasileira em África.
A última passagem do Presidente brasileiro por Maputo, em 2008, deixou expectativas elevadas. A fábrica de antirretrovirais da Matola, a aposta na transferência de tecnologia da Fiocruz, o apoio à agricultura familiar e o impulso à formação técnica foram apresentados como exemplos de uma nova relação entre países do Sul. Alguns desses projectos chegaram a funcionar, sobretudo na formação de quadros e na inovação farmacêutica, mas o ciclo foi sendo travado pelas crises políticas e económicas do próprio Brasil, que retiraram capacidade de projecção externa ao país.
Ao mesmo tempo, Moçambique evoluiu. Tornou-se mais selectivo, mais desconfiado e mais exigente depois de anos de fragilidades em projectos de cooperação mal governados, tanto com a China como com o Ocidente. E, sobretudo, carrega agora as cicatrizes das dívidas ocultas, que mudaram a forma como o país lê promessas internacionais.
É por isso que o regresso de Lula tem relevância: ele coincide com um momento em que Moçambique precisa, acima de tudo, de cooperação funcional, mensurável e centrada em resultados. O Presidente Daniel Chapo tem falado de industrialização, agricultura mecanizada, reformas administrativas e transição energética, áreas em que o Brasil acumulou experiência nas últimas décadas e onde pode oferecer mais-valias reais.
Há três pontos particularmente sensíveis para Moçambique:
Reabrir a ponte da saúde pública
O Brasil foi, no passado, um parceiro-chave na formação de farmacêuticos, produção de medicamentos e combate ao HIV/SIDA. Essa cooperação pode ser retomada, agora com foco em doenças crónicas, inovação hospitalar e telemedicina.
Valorizar a agricultura com tecnologia social
O modelo brasileiro de agricultura familiar, adaptado ao semiárido, pode ser extremamente útil para províncias moçambicanas que enfrentam ciclos de seca, como Gaza, Inhambane e partes de Tete.
Desenvolver capacidades institucionais
A administração pública brasileira tem um dos sistemas de concursos e carreiras mais maduros do Sul. Cooperação nesta área seria estrutural.
Se Lula vier apenas para reactivar fotografias protocolares, a visita será mais um capítulo do arquivo diplomático. Mas se vier para ajustar expectativas, corrigir erros do passado e pactuar mecanismos robustos de execução, então poderá inaugurar uma nova etapa da cooperação Sul–Sul verdadeiramente útil para Moçambique.





