Várias famílias dormem ao relento no bairro do Albazine, na Cidade de Maputo, desde que, na madrugada de segunda-feira, agentes da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) invadiram parcelas de terra e destruíram habitações por alegada ocupação ilegal da terra.
Num cenário descrito como de arrepiar por testemunhas, homens, mulheres e crianças estão a improvisar camas, na tentativa de buscar o devido repouso, depois que dezenas de polícias atearam fogo sobre as suas casas de caniço. No entanto, na noite de segunda-feira, o sono foi mais uma vez perturbado pela Polícia. “Estávamos a preparar-nos para descansar, quando chegaram as forças policiais e mandaram-nos sair, depois de terem invadido nossas casas por volta das 04h00”, contou Maria Laura, uma das afectadas.
A nova “rusga” policial ocorreu por volta das 22h30m, o que aumentou o sentimento de desconforto e insegurança das famílias desalojadas. Fontes locais relatam que o som de veículos e a movimentação policial prolongou-se pela madrugada, deixando a comunidade em alerta.
Carlos Melequisso, um dos desalojados, contou à nossa reportagem que, além de passar as últimas noites ao relento, tem sido difícil garantir uma alimentação digna desde o dia em que foi obrigado a destruir a própria casa. “A polícia mandou-nos demolir as nossas casas. Desde então dormimos ao ar livre e quase não temos o que comer”, lamentou.
Melequisso disse ainda que não tem sido fácil, para muitas famílias, abandonar o local, uma vez que se habituaram àquela parcela por quase 10 meses. “Fomos apanhados de surpresa e desprevenidos. Muitos de nós só queríamos dar um tecto digno aos nossos filhos. Adquirir terra neste país não é fácil e viver de renda é pior ainda. Há casos em que, se o inquilino atrasar o pagamento por uma semana, o senhorio tranca as portas e recusa-se a abrir”, relatou.
Neste momento, narra a vítima, muitas famílias vivem de boa vontade dos ex-vizinhos da comunidade, que lhes concederam abrigo apenas para guardar os bens mais importantes. “Cozinhamos ao relento e dormimos ao relento, sob vigia da UIR”, afirma, assegurando ter esperança que “o Governo ainda poderá olhar por nós ou o dono deste espaço vai permitir que haja conversações”.
Até ao momento, as autoridades continuam no silêncio. Não se conhecem os motivos do despejo daquelas famílias em plena madrugada e nem o destino das mesmas. Não se sabe também de quem é o terreno e nem de quem foi a ordem de despejo.
Lembre-se que o terreno, descrito como ocioso pelos vizinhos, foi ocupado por cerca de 20 famílias em Fevereiro deste ano, durante a avalanche de ocupações ilegais que ocorreu em quase todo o país durante a fase final das manifestações pós-eleitorais. Em alguns pontos, já foram erguidas casas de material convencional.





