A madrugada desta terça-feira foi marcada por momentos de tensão no bairro do Albazine, no extremo norte da Cidade de Maputo, tendo a Unidade de Intervenção Rápida (UIR), a força antimotim da Polícia da República de Moçambique (PRM), como protagonista. A UIR invadiu aquele bairro e removeu famílias em terrenos considerados ociosos, destruindo dezenas de habitações precárias e expulsando as famílias que ali viviam.
Segundo testemunhos recolhidos no local, a operação começou, em surdina, por volta das 04h00. Agentes fortemente armados cercaram a área e iniciaram a demolição das casas construídas em caniço e chapas de zinco.
“A polícia chegou, bateu à porta e mandou-nos sair. Não tivemos tempo para nada. Levaram roupas, panelas, tudo para fora”, contou Cláudio Joaquim, um dos residentes desalojados. “Vivo aqui com a minha esposa e dois filhos. Agora não sabemos para onde ir”, acrescentou, visivelmente abalado.
Durante a intervenção, contam as vítimas e testemunhas, foram usados carros blindados e gás lacrimogéneo para dispersar as pessoas que tentavam resistir. No terreno são visíveis invólucros de gás usados pela UIR e os restos do que antes eram “residências familiares”, enquanto as vítimas limpavam as lágrimas sem saber onde iam passar a noite.
Os moradores afirmam que não foram notificados previamente sobre a acção policial, pelo que foram apanhados em contrapé. “Chegaram de repente, ainda estávamos a dormir, e começaram a destruir sem falar com ninguém”, relata Clara Moiane.
Aliás, alguns moradores contam que, em algumas ocasiões, os agentes da UIR ateavam fogo às casas, logo após a saída e retirada dos bens dos proprietários. As chamas consumiram completamente várias estruturas de caniço, deixando apenas cinzas e pedaços de zinco espalhados pelo chão.
A maioria das famílias afirma ter ocupado o espaço há cerca de 10 meses, num contexto de protestos e reivindicações por acesso à terra, um movimento que caracterizou a região do Grande Maputo durante a fase final das manifestações pós-eleitorais. Muitos dizem que o fizeram por falta de alternativas habitacionais, depois de perderem casas arrendadas.
As vítimas reconhecem estar em conflito com a lei, mas pedem compreensão e compaixão. “Sabemos que o espaço tem dono, mas queríamos pelo menos conversar, ver se havia forma de sermos realojados noutro local”, explicou Maria Cláudio Langa.
Informações avançadas à “Carta” indicam que a operação policial visava restituir as parcelas aos legítimos proprietários, embora não tenha havido esclarecimentos oficiais sobre quem detém o título de posse. Até ao momento, as autoridades não anunciaram qualquer plano de realojamento ou assistência humanitária às famílias desalojadas.
Os moradores explicam que, após a invasão, conseguiram remover alguns dos seus bens e pediram para os guardarem temporariamente em casas vizinhas. No entanto, até à saída da equipa da “Carta”, por volta das 14h00, mantinha-se a incerteza sobre onde iriam passar a noite.
Por sua vez, a UIR montou um acampamento temporário afim de “controlar” o terreno em causa. Durante a visita da equipa da “Carta”, também era visível uma máquina escavadora a proceder à limpeza da área, numa tentativa de eliminar os rastos da violência policial e da presença daquelas famílias.





