A “Carta” havia reportado, a 26 de Setembro, um caso alarmante ocorrido na fábrica Beleza Moçambique, produtora da marca “Darling”, situada no Parque Industrial de Beluluane, distrito de Boane, província de Maputo. Nessa data, mais de 50 trabalhadores desmaiaram após a inalação de gases tóxicos que invadiram o interior da unidade fabril.
Três semanas depois, o cenário repete-se, revelando que o problema ambiental e de segurança laboral persiste e que a vida humana continua a ser negligenciada em nome do lucro.
Um novo incidente na calada da noite
Na madrugada da última quarta-feira (22 de Outubro), trabalhadores do turno nocturno voltaram a viver momentos de desespero. Por volta das 03h00 da manhã, gases cuja proveniência é desconhecida voltaram a infiltrar-se no interior da fábrica, provocando mal-estar, tonturas e dificuldades respiratórias em vários operários.
Apesar dos apelos, os trabalhadores foram obrigados a permanecer nas suas posições até o fim do turno, como se nada estivesse a acontecer.
Ao tomar conhecimento da denúncia, a equipa da “Carta” deslocou-se ao local para aferir a situação e recolher esclarecimentos junto da direcção da empresa. Contudo, o que encontrou foi um muro de silêncio e desprezo.
“O responsável estava à porta da sua sala, conversava com outro homem, e assim que nos identificámos como imprensa, ele mandou o segurança que nos acompanhava, de nome Celso, para que nos deixasse e voltasse ao trabalho. O mesmo entrou na sala e fechou a porta”.
Um comportamento que revela clara obstrução à comunicação, desrespeito pela classe jornalística e indiferença total em relação ao sofrimento dos trabalhadores.
Trabalhar de pé, com o tempo cronometrado
O ambiente no interior da fábrica é descrito pelos próprios trabalhadores como exaustivo e desumano. A produção é organizada em três turnos rotativos, das 19h00 às 7h00, das 7h00 às 16h30 e das 7h30 às 17h00.
Os grupos são compostos, também, por trabalhadores sazonais, contratados por apenas três meses, sobretudo no último trimestre do ano, quando a produção atinge níveis elevados para atender à demanda do mercado nacional e regional.
Os relatos recolhidos pela “Carta” dão conta de que o controlo dentro da fábrica é rígido e opressivo, “fazemos trabalho pesado, ficamos em pé desde que entramos até quando saímos. O único descanso são 25 minutos para comer, e é cronometrado. Se quisermos ir à casa de banho, temos de esperar que alguém substitua. Mesmo se estivermos apertados, não podemos sair. E usar o telefone está proibido. Quando procurávamos pelo trabalho, sabíamos o que íamos encontrar mas estamos aqui pelo estômago”, desabafou um trabalhador do sexo masculino, um dos poucos entre centenas de mulheres que compõem a força laboral.
Gigante industrial, mas ventilação precária
A fábrica Beleza Moçambique ocupa uma área de 22 mil metros quadrados, emprega mais de 1.800 pessoas e dispõe de uma cantina com capacidade para 1.000 trabalhadores ao mesmo tempo.
É uma subsidiária do grupo indiano Godrej, um conglomerado multinacional que opera em África desde 2006 e é dono de várias marcas de renome no sector de beleza e cuidados pessoais.
A promessa de desenvolvimento, contudo, contrasta com a realidade vivida dentro do edifício.
Segundo testemunhas, a ventilação é deficiente, o ar é pesado e, quando os gases fazem moradia do interior, os sintomas como, dor de cabeça, fraqueza, enjoo e perda de consciência, surgem rapidamente.
O dia em que mais de 50 trabalhadores desmaiaram
O episódio de 26 de Setembro marcou o auge da crise. Segundo apurou a “Carta”, durante o turno da manhã, uma nuvem de gás tóxico tomou conta da fábrica. Um após outro, os trabalhadores começaram a desmaiar.
Entre as vítimas, havia mulheres grávidas e jovens recém-contratadas. “Começámos a tossir, a sentir tonturas e o peito apertado. Disseram para continuar o trabalho. Alguns caíram. Só quando já havia muita gente a passar mal é que mandaram evacuar”, contou uma funcionária que pediu anonimato.
Os trabalhadores foram levados às pressas ao Centro de Saúde do bairro Liqueleva, que não tinha capacidade para atender tantas pessoas.
A administração apenas suspendeu as actividades às 11h00 e determinou o regresso às tarefas na segunda-feira seguinte.
A rotina por trás das mechas “Darling”
No interior da unidade, os trabalhadores estão divididos por sectores de produção, um grupo opera a máquina “Pente”, responsável pelo alisamento das fibras sintéticas e outros grupos alinham, cortam, e embalam as mechas que abastecem o mercado nacional e são também exportadas para a África do Sul e países da SADC.
Trata-se de um processo industrial intenso, com ruído constante, calor e cheiro químico e os trabalhadores novatos exercem actividades por cerca de 1 mês com trajes pessoais, sem equipamentos de protecção adequados, ainda que provisórios.
Vários funcionários relataram à “Carta” que vivem sob constante ameaça.
“Quem fala o que acontece lá é chamado ao escritório e no dia seguinte está dispensado”, contou uma trabalhadora.
O medo é generalizado. Poucos se atrevem a denunciar as condições, e os que o fazem pedem para não serem identificados, temendo represálias.
Os casos de desmaios em massa e intoxicação já ocorreram em 2019, 2023 e 2024, o que levou a inspecções pontuais da INAE e do Ministério do Trabalho.
Contudo, um ano após as últimas intervenções, o problema permanece inalterado e a empresa segue a operar normalmente, com os mesmos riscos.
Importa referir que a Beleza Moçambique partilha o recinto com outras empresas, nomeadamente Raxio, Laresh Internacional Lda, Dendustri Technical Lda e SMM-Sociedade Moçambicana de Medicamentos.
Lucros que custam vidas
Enquanto a marca “Darling” brilha nas prateleiras, com promessas de beleza e autoestima, os trabalhadores por trás das mechas vivem uma realidade amarga.
Entre o barulho das máquinas, o ar pesado e o medo de desmaiar, elas continuam a produzir, porque precisam do salário, pouco mais de 8200 meticais para sustentar as famílias.





