Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

21 de October, 2025

Chapo distingido em Genebra: Moçambique e a lição que o mundo começou a ouvir

Escrito por

A chuva miúda de Genebra parecia uma metáfora. Dentro do auditório da Organização Mundial de Meteorologia (OMM), onde líderes e cientistas debatiam a urgência climática, Moçambique era citado como exemplo de transformação. O Presidente Daniel Francisco Chapo acabara de receber o título de “Eminent Advocate for Multi-Hazard Early Warnings”, tornando-se o primeiro Chefe de Estado africano a ser distinguido pela OMM com esta honra.

“Investir em sistemas de alerta é investir na dignidade humana”, disse Chapo no seu discurso, lembrando que os ciclones Idai, Kenneth e Freddy “roubaram sonhos, mas ensinaram lições”.

Do trauma à prevenção

Poucos países africanos viveram tragédias tão intensas. O Idai, em 2019, matou mais de 600 pessoas e destruiu 90% da Beira.
O Freddy, em 2023, voltou a pôr à prova o país, mas o balanço foi diferente: graças a avisos antecipados e evacuações, o número de vítimas reduziu drasticamente. Foi o primeiro sinal de que o sistema moçambicano de aviso multirriscos estava a funcionar.
Desde então, o país passou a investir numa estrutura descentralizada, sob o lema “Um Distrito, Uma Estação Meteorológica”. Hoje, dados de satélite, radares e sensores locais são cruzados em tempo real, permitindo previsões mais precisas.

As mensagens chegam às comunidades através de rádios, SMS e líderes locais; um modelo que respeita as línguas e as dinâmicas culturais.A aposta tecnológica

Moçambique é um dos países prioritários da iniciativa global “Early Warnings for All”, das Nações Unidas. Com apoio do Banco Mundial, do GFDRR e do SOFF, o país integrou-se na Rede Global de Observação Básica (GBON), garantindo que as suas medições meteorológicas contribuem para as previsões mundiais.
“É um exemplo de liderança científica e política”, afirmou a Secretária-Geral da OMM, Celeste Saulo, ao entregar o certificado a Chapo.

“Moçambique mostra que a vulnerabilidade pode ser transformada em antecipação.” Mas o desafio não é apenas técnico. Segundo especialistas, há ainda distritos sem cobertura de comunicação móvel, equipamentos obsoletos e dependência de doadores externos. Apesar disso, Moçambique é hoje visto como laboratório climático africano, onde cada alerta serve também para testar novas tecnologias de prevenção.O custo da resiliência

No seu discurso, Daniel Chapo advertiu que o financiamento climático é insuficiente para sustentar os avanços conseguidos. “O Orçamento do Estado não chega. Precisamos de parcerias e inovação para proteger o futuro”, disse.

Estudos da OMM indicam que cada dólar investido em alerta precoce poupa até sete dólares em reconstrução. Segundo dados da ONU, apenas 50% da população mundial está coberta por sistemas de aviso precoce e em África essa percentagem desce para menos de 30%. É essa lacuna que a iniciativa “Early Warnings for All” procura eliminar até 2027.Da catástrofe à esperança

A cerimónia em Genebra teve um peso simbólico: coincidiu com o 75.º aniversário da OMM, num mundo em que as mudanças climáticas deixaram de ser hipótese para se tornarem rotina. Para Moçambique, o reconhecimento significa mais do que uma homenagem diplomática. É a prova de que um país devastado por ciclones pode ensinar o planeta a ouvir os sinais do vento antes que a tragédia chegue.
Ao sair do edifício da OMM, o Daniel Chapo caminhava sob chuva fina. A imagem, captada por fotógrafos, resumiu o momento: o homem que foi receber uma distinção por prever tempestades, atravessava a própria tempestade: sereno, consciente de que o próximo desafio virá, inevitavelmente, do céu.
Visited 69 times, 1 visit(s) today

Sir Motors

Ler 359 vezes