Escrito por: Faustino Muianga
A máquina partidária está a entrar em desuso. O que já foi, durante décadas, o eixo organizador da vida política, hoje parece uma peça de museu em exposição para nos lembrar de um tempo que já passou. Continua de pé, mas sem força para acompanhar a velocidade do mundo. É natural que resistamos a aceitar este fim. A psicologia chama a isto apego ao statu quo e aversão à perda. Kahneman e Tversky, na Teoria da Decisão, explicam que a dor de perder pesa mais do que a alegria de ganhar. Para nós que nascemos ou crescemos no auge dos partidos políticos, essa resistência é ainda mais compreensível. Os partidos eram mais do que instituições: eram escolas de vida, símbolos de pertença, espaços de convívio e até de definição do destino familiar. Naquele tempo, ser de um partido não era apenas uma escolha política, era uma identidade total. Contudo, este apego prolonga estruturas obsoletas e atrasa inovações necessárias. Em vez de adaptação gradual, o choque acaba por ser mais brusco e doloroso.
Em Junho de 2023, no âmbito da minha pós-graduação em Assessoria Política e Comunicação Estratégica, publiquei o eBook Marketing Político Digital: Estratégias para campanhas eleitorais em Moçambique. Defendi que o ciberespaço seria inevitavelmente o campo de batalha das eleições, mesmo quando apenas cerca de 15% dos moçambicanos tinham acesso à internet. Os críticos diziam que os eleitores não estavam online e que Moçambique não era Maputo. A minha convicção, porém, não era estatística, era histórica. Recordava que, nos anos oitenta e noventa, quem tinha televisão transformava a sua sala num cinema da “zona”. Quem tinha telefone fixo era a central de comunicações do bairro. Esse espírito de partilha, que nos identifica como moçambicanos, continua. Hoje, quem tem um smartphone numa localidade é uma agência de notícias local que actualiza e influencia a opinião pública. A teoria da agenda setting de McCombs e Shaw explica isso com clareza: não é o meio que nos diz o que pensar, mas sim sobre o que devemos pensar. Paul Lazarsfeld e Elihu Katz foram ainda mais longe, ao sustentar, na teoria do fluxo em dois passos, que a maioria das pessoas forma as suas opiniões sob a influência de formadores de opinião (neste caso, os que têm acesso à internet) e, por sua vez, são moldados pela mídia de massa (no contexto actual, ciberespaço).
Não há como negar: as redes sociais assumiram o papel principal nas últimas eleições em Moçambique. Foram elas que ditaram a agenda, amplificaram vozes e até criaram heróis e vilões em tempo real.
Mas isto tudo pouco importa para o tema de hoje, a não ser para recordar que os ventos da mudança sopram sempre mais forte do que os muros da resistência. Como disse um filósofo moçambicano, durante uma entrevista algures na zona da Bocaria de Hulene, num francês com sotaque de marrabenta que faria Darwin sorrir: “L’espèce qui ne s’adapte pas meurt”. A frase é simples, mas carrega um peso brutal. Quem não se adapta, morre. E a política não foge à regra.
É nesse espírito que precisamos de olhar para o destino dos partidos políticos. Para tornar a reflexão mais clara, pensemos na música. Durante muito tempo acreditou-se que o caminho para o sucesso passava por formar bandas. A lógica parecia óbvia: quanto mais pessoas juntas, mais talento, mais capacidade e melhores resultados. Mas a prática mostrou outra realidade. As bandas acabavam frequentemente corroídas por rivalidades internas, disputas de protagonismo e a eterna sensação de injustiça sobre quem contribuía mais e recebia menos. O resultado é que, actualmente, as bandas são quase uma espécie em extinção e a regra é cada músico seguir a sua carreira a solo. No fim, as pessoas seguem quem mais lhes inspira confiança, emoção ou identificação, não necessariamente a estrutura que os rodeia. O mesmo destino parece estar reservado aos partidos políticos.
Convém recordar que a política e a governação não nasceram com os partidos. Estes surgiram num contexto histórico específico, no século XIX, com o sufrágio a expandir-se e a necessidade de organizar massas populares dentro da democracia representativa. A célebre divisão entre esquerda e direita nasceu na Revolução Francesa, quando os que defendiam mudanças profundas e maior igualdade social se sentavam à esquerda do parlamento e os que preferiam manter a ordem estabelecida ficavam à direita. Com o tempo, essa clivagem expandiu-se para outras dimensões: ricos contra pobres, cidade contra campo, religião contra laicidade, centro contra periferia. Durante séculos, estas divisões deram força e sentido aos partidos, tornando-os a principal estrutura da representação política. Era uma resposta ao contexto de então.
Já lá vão quase duzentos anos. O mundo mudou e as velhas lealdades já não seguram as pessoas a uma sigla. A mobilidade social, a fragmentação da vida urbana, a globalização cultural e a revolução digital dissolveram identidades antigas. O que move a política já não são programas longos nem doutrinas ideológicas. Pesquisas do Pew Research Center e do Eurobarómetro mostram uma queda consistente na confiança nos partidos. Os cidadãos vêem-nos como estruturas corroídas pela corrupção, pelo nepotismo e pelo carreirismo. Não surpreende, portanto, que a política esteja a galopar para a personalização. Donald Trump transformou o Partido Republicano num apêndice do seu ego. Emmanuel Macron, em França, criou um movimento novo e venceu. Jacob Zuma abandonou o ANC e apoiou um novo partido, sem perder a base popular. O padrão é nítido.
Os novos eleitores confirmam de forma implacável esta mudança. Os millennials, que este ano têm entre 28 e 44 anos, e a geração Z, agora com idades entre 12 e 27 anos, já não se guiam pelos mesmos códigos que moldaram a política dos seus pais. A pesquisa Global Trends 2023 da Ipsos evidencia que mais de metade da geração Z globalmente acredita que os partidos não representam os seus interesses e que a política institucional está desligada da sua realidade quotidiana. Para estas gerações, política é identidade e consumo emocional. O eleitor não se fideliza a um partido como no passado, mas a pessoas, causas e projectos momentâneos que traduzam a sua visão de mundo. A coerência ideológica deixou de ser critério. O que conta é se o líder comunica com clareza, se a sua estética é apelativa, se o discurso parece genuíno e se o comportamento é percebido como coerente.
E qual deve ser, então, a estratégia dos partidos para sobreviver? A resposta está no Marketing Político. O documentário The Last Dance surpreendeu-me ao revelar que Michael Jordan, no auge, não era o melhor jogador em estatísticas puras nem o melhor de todos os tempos. Ele foi uma construção estratégica de marketing. Segundo David Falk, a NBA precisava de uma estrela, um herói capaz de transformar a liga numa marca global. Jordan foi esse produto. A Nike criou os Air Jordan e a combinação de talento, carisma e branding tornou-o um ícone universal. O mesmo entendeu Florentino Pérez no Real Madrid. No documentário sobre David Beckham, Pérez admite que contratou o jogador não pelas suas habilidades técnicas, mas pela aparência, carisma e magnetismo com o público. As contratações galácticas daquela época transformaram o Real Madrid no clube mais popular do mundo.
O paralelismo com os partidos é evidente. Já não basta invocar história ou ideologia. Os partidos devem compreender que a sua popularidade já não depende do peso histórico das suas marcas, mas sim das estrelas que conseguem atrair. Precisam de aprender a “contratar” ou formar líderes carismáticos, figuras capazes de ser a ponte entre a instituição e o eleitorado. Imagino o repúdio que isto pode causar aos mais conservadores, mas a verdade é simples: para sobreviverem, os partidos precisam de populistas. A linguagem formal, a disciplina rígida, os anos de militância e a ortodoxia ideológica já não atraem a nova audiência.
O que vem a seguir não é romântico. A médio prazo, os partidos continuarão a existir por necessidade legal e orçamental. Terão, contudo, um papel cada vez mais administrativo e cosmético. A sobrevivência dependerá da capacidade de contratar ou formar estrelas políticas, tal como os clubes precisam de craques para encher estádios. Ideologia já não enche urnas. O que conta é engajamento e aceitação social.
O tempo das grandes causas de unidade partidária ficou para trás. O comunismo, o anti-imperialismo e as lutas de libertação nacional, todas essas narrativas que deram vida aos partidos já não galvanizam. O motor hoje é o carisma individual, amplificado pelas redes digitais. Os partidos sobrevivem, mas já não lideram. O palco pertence aos populistas, aos artistas a solo da política que aprenderam a falar directamente com o povo.





