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24 de September, 2025

Adiós, Amado Camal, escreve Nando Menete

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“Até vêm-me lágrimas aos olhos”. Assim reagi na manhã do dia 18 de Setembro do ano corrente, quando um amigo lera, surpreso e audível, e em jeito de interrogação, uma mensagem que acabava de receber na qual ele era informado da morte de Amade Camal, em Portugal, na mesma manhã.

“Até vêm-me lágrimas aos olhos” foram as mesmas palavras que José Negrão, falecido e saudoso activista social moçambicano, terminou, em Setembro de 2004, uma reunião de balanço do G20 – à época uma plataforma da sociedade civil moçambicana que articulava o processo de participação do cidadão no Observatório da Pobreza/Desenvolvimento – na sequência da realização da primeira sessão deste governamental órgão consultivo.

Veio-me à memória as palavras de Negrão, que as uso com a sua suposta e póstuma permissão, porque em 2003, e na altura coordenador da Plataforma G20, e ambos do Grupo de Trabalho, encarregou-me de contactar Amade Camal para que este fizesse parte da plataforma.

A execução da tarefa também foi uma oportunidade para mim, e pela primeira vez, poder falar com o Amade Camal, uma referência da cidade das acácias, e do país em geral, embora já o conhecesse há vários anos por conta, quer da sua eclética participação na sociedade, quer partilhando, em algumas ocasiões, o mesmo ambiente de proximidade e ainda por vizinhança geográfica, considerando que o seu escritório dista a uma quadra da residência de meus pais.

Amade Camal anuiu o convite e esteve na primeira reunião da plataforma a par de outras ilustres figuras da sociedade, convidadas fora do quadro tradicional das organizações da sociedade civil, incluindo os sindicatos. Amade Camal era o “Enfant terrible” da turma, aliás um traço indelével nas suas intervenções, sobretudo enquanto um acérrimo defensor de causas e enérgico fautor de mudanças.

Tenho ainda em mente a sua primeira intervenção na plataforma na qual questiona o tema para o ano de 2004 do Relatório Anual das Pobreza (RAP), documento que a plataforma apresentaria, em cada ano, no Observatório. No lugar do tema “Combate às Causas da Pobreza”, que vincou, Amade Camal propôs como alternativa, e de memória, “Combate ao Empobrecimento do País” cuja principal causa, no seu entendimento, eram as políticas até então adoptadas.

Em cada reunião, Amade Camal era o irreverente, muito disponível e cooperativo tanto no debate quanto no pós-debate. Uma característica que me levou, enquanto parte de iniciativas da sociedade civil, a sugeri-lo ou a convidá-lo para outros eventos, corredores e processos.

Depois de algum interregno da ligação (2009-2012) participo, em 2013, num evento do Município de Maputo sobre transporte e mobilidade urbana em que também participa Amade Camal. Na noite do mesmo dia recebi uma sua chamada a solicitar um encontro para o dia seguinte.

Da chamada, um detalhe: Camal ainda tinha o meu número de telemóvel? Perguntava-me curioso. No encontro tirei a dúvida e passei a usar o truque: fotografar a lista de presenças da reunião e depois assinalar os contactos de interesse para seguimento.

Na agenda do encontro, e na dos demais que se seguiram, o foco passou a ser dominado por matérias de carácter metropolitano (Grande Maputo) e municipal (Cidade de Maputo), versando, particularmente, as relacionadas com o transporte e mobilidade urbana bem como o uso da tecnologia na sua operação.

O último encontro foi em meados do ano passado (2024) onde passamos em revista uma antiga ideia de organização de um simpósio internacional sobre mobilidade urbana, e no quadro dos 50 anos da independência, um projecto documental intitulado “50 Marcas do Tempo”. Estas iniciativas tiveram na tensão pós-eleitoral um impedimento para o seu desenvolvimento e concretização no ano corrente.

Na quinta-feira anterior à sua partida, quis ligá-lo para mais uma jornada de papo e actualização da agenda depois do interregno da tensão pós-eleitoral. Por alguma razão decidi que o ligaria nos primeiros dias da semana seguinte que, por acaso, coincidia com o fecho, no dia 22 de Setembro, da Semana de Mobilidade Urbana Sustentável, celebrada em vários países do mundo, e iniciada no passado dia 16 de Setembro.

Para o encontro, que se ficou por marcar, no bloco aportariam dois pontos de agenda: o primeiro sobre o ponto de situação das duas iniciativas e o segundo uma provocação em que eu fora incumbido de o fazer: aferir a disponibilidade de Amade Camal para liderar uma apartidária e inclusiva iniciativa urbana para o desenvolvimento da área metropolitana do Grande Maputo, não descartando a corrida a edil do Município de Maputo.

A iniciativa da provocação surgiu de uma conversa de amigos citadinos que, por coincidência, têm em Amade Camal uma incontornável referência urbana, fora a habitual de empresário e político. No desfecho da conversa o desafio fora o de identificar uma relevante figura urbana, e de gema, sublinhe-se, que pudesse dinamizar esta iniciativa.

Assim foi identificado o Amade Camal, que apelidamo-lo o “Último Urbano” do Grande Maputo, e da capital Maputo em particular, sobre quem o grupo depositava expectativas para liderar este movimento urbano com o propósito, até divino, de construção de uma “Arca Metropolitana do Grande Maputo”, o sonho pretendido.

Infelizmente, à partida, a construção da “Arca Metropolitana do Grande Maputo” perde o potencial contributo do “Último Urbano” cujo percurso de vida e urbanidade, desde o período colonial e passando pelos diversos momentos ao longo dos 50 anos da independência, constitui um exemplo e inspirador, mormente para as gerações mais novas e vindouras.

Para ilustrar um exemplo inspirador de Amade Camal, e partilhado neste dias de memória, soube de um amigo que na mesma altura em que Amade Camal tratava do visto para seguir a Portugal, ambos estavam na fila com o mesmo propósito. Na habitual e ocasional conversa de circunstância, no sofrimento da morosidade da fila, eles falavam do que podia ser melhorado para que o processo fosse menos penoso e mais célere.

Na vez de Amade Camal ser atendido, e em um dos documentos exibidos, um detalhe de letra no registo do seu nome – no lugar de AMADE estava escrito AMADO – levou uma certa demora para esclarecimento. Da conversa entre o Amade Camal e a funcionária o meu amigo conta que Amade Camal, que depois da longa morosidade da fila e na complicação do detalhe da letra, não perdeu a serenidade e nem puxou os galões de quem era ele.

“Se todos os poderosos deste país fossem como o Amade Camal, Moçambique seria um lugar melhor!”. Concluiu o meu amigo, depois de contar o episódio por ele acompanhado.

E deste episódio, o título desta carta de despedida: Adiós, Amado Camal!

“Até vêm-me lágrimas aos olhos”.

Saravá, Amade Camal (1956-2025)!

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