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22 de September, 2025

Frelimo: Da Guerra das Famílias a Karl Marx

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A matéria de capa na edição 226 do semanário Evidências assinada pelo meu colega Nelson Mucandze é reveladora de um dilema existencial, assumo, e levanta a ponta do véu nada impoluta que os libertadores em África tentam esconder ou, pior, não percebem.

A matéria relata com substancial suporte documental o caso em que Florindo Nyusi, filho do “antigo” Presidente da República, Filipe Nyusi, supostamente, usurpou uma licença mineira da família Guebuza, recorrendo a ameaças e influências marginais em figuras do Estado. Algo que a meu ver não terá acontecido sem o beneplácito dos progenitores (que não se julgue o vêji-vêji de Lil Wayne de Namicopo na piada ou na chacota. Tem raízes bem fortes e assentes no sistema sócio-político e económico da Pérola do Índico).

As informações publicadas pelo jornal Evidências dão conta que, em 2020, a Focus 21 Explorator S.A, subsidiária da holding dos Guebuzas (Focus 21 com domicílio na Rua João de Barros, n.º 526. R/c. Sommerschield. Maputo) conseguiu e perdeu a Licença de Prospecção e Pesquisa n.º 10364L, no distrito de Manica, província do mesmo nome, para a empresa Flomining S. A, de Florindo Nyusi aka “Flow Boss”, o mais novo do clã Nyusi.

O semanário refere que Flow Boss terá chantageado com prisão funcionários e outras pessoas que estavam à frente do processo de licenciamento da ocorrência para a Focus 21. Conforme descreve a fonte, que teve acesso à correspondência privada e documentos institucionais, o pesadelo da Focus 21 iniciou, de facto, após deslocar maquinaria para o terreno, quando, imediatamente, Flow Boss contactou o engenheiro da empresa para saber quem liderava o projecto. “Eu vou mandar prender!”, terá vociferado o fofucho presidencial e exigido com carácter de urgência os contactos: “vão chorar!” prometeu.

Por via telefónica, o engenheiro dos Guebuzas ficou a saber que a licença para o local em causa seria cancelada. Mesmo assim, para inteirar-se das razões, contactou os Serviços Provinciais de Infra-estruturas de Manica (SPI) e confrontou o Director, de quem obteve uma resposta “evasiva” que “denunciava pressão”. Inconformado, “subiu as escadas” e recorreu à Secretaria de Estado provincial, na altura dos factos assumida por Edson Macuácua que, reconhecendo à ilegalidade do cancelamento da licença, tratou de suspender o temporariamente cancelamento.

Segundo o jornal, o motivo que o Instituto Nacional de Minas (INAMI) alegou para o cancelamento da licença foi o da proximidade fronteiriça com o Zimbabwe – um argumento ignorado em vários casos similares. A Focus 21 requisitou o redirecionamento da área, mas de lá a esta parte não obteve respostas. Oficialmente, não foram encontradas razões para cancelar a licença.

Estranhamente, tempo depois, o próprio Macuácua “abraçou” o argumento do INAMI. Numa visita efectuada à mina em que proibiu registos, informou que a partir daquela data, 9 de Setembro, a licença estava cancelada, e que o caso “estava a inquietar a Primeira-Dama, Isaura Nyusi”.

A 12 de Agosto, chega finalmente a notificação oficial de cancelamento, enviada pelo INAMI. O documento é entregue de forma insólita, via WhatsApp, pelo administrador de Manica, através do serviço de courier Skynet, escreve o jornal.

A 16 de Setembro, Flow Boss lança uma “última cartada”: contacta o engenheiro da Focus 21, procurando saber se “as máquinas estavam à venda”, avisando que se não fossem vendidas seriam retiradas à força, pressiona para ter contacto dos proprietários da maquinaria e acaba com o contacto de Mussumbuluko Guebuza, filho de Armando Guebuza, o antecessor de Filipe Nyusi. (Fonte: Semanário Evidências. Ed. 226).

Uma outra publicação uma investigação de Rui Lamarques para Carta da Semana retrata o dilema ambiental com um enredo de prosa.

“No princípio havia um rio. Chamava-se Revué e corria transparente, cheio de peixes miúdos que saltavam contra a corrente. As mulheres desciam às margens com bacias de roupa, as crianças mergulhavam rindo, e os camponeses confiavam-lhe a rega das machambas. Hoje, o mesmo rio arrasta uma cor acastanhada, pesada, que cola às mãos e deixa manchas na pele. Onde havia floresta, há crateras; onde havia milho, há pó metálico; onde havia vida, há silêncio. E, no entanto, em Londres, esse rio envenenado continua a ser descrito como “fluxo de caixa positivo”.

Estes dois excertos, duas faces do mesmo problema, revelam à sua maneira, duas coisas, nomeadamente:

• A primeira: um vício de forma e de conteúdo (das democracias em África), a forte e inconveniente influência das “Mamãs da Nação” que se revelam rainhas em terrenos republicanos, cabendo aos maridos chancelar esse reino ou dele se distanciarem. Calha que os primeiros filhos tendem a materializar esse reinado dos pais passeando à vontade no poder e nos seus corredores emporcalhando-os com as suas birras, ambições desmedidas e alianças perigosas (desde políticos sem escrúpulos, ministros cleptocratas, proxenetas, mulheres de alquiler e crocks internacionais);

• A segunda: não de somenos importância, mas vital, é o que o meu irmão o Professor Shikhani diz num post de 08 de Fevereiro de 2023, na plataforma Facebook “Darwin e a Revolução”, em que basicamente afirma ser tão necessária, quanto urgente, a discussão da acumulação não só nos conclaves libertários como na sociedade africana no geral, argumento que integralmente subscrevo e me faço arauto sempre que posso.

Concluindo, sem todavia encerrar a questão, noto que estes dois episódios referem a discussão sobre uma mina e o peso dela em duas famílias que ocuparam o n.º 2000 da avenida Julius Nyerere em Maputo. Dois antigos presidentes, do mesmo partido, discutem uma licença mineira por via dos filhos. De entremeio uma Mamã que não foi antiga combatente e entrou para a OMM pela porta grande, por isso há coisas que não percebe e se percebe porquê as fez e, acima de tudo, como fê-las (porque qui-lo?).

O grande mote aqui é como a acumulação é África é feita. Via poder neste caso e quase sempre presidencial, quando alguém ou os incumbentes se confundem soberanos e não servidores públicos, seja por virem de uma longa travessia no deserto, seja pelo custo de oportunidade, ou pelo súbito contágio com a opulência e a riqueza e dela acharem que devem tirar quinhão, embora estes episódios revelem apenas a ponta do iceberg dos quinhões que se retiram e do tirismo que se instala.

Em África, de Angola a Contracosta, do Cabo ao Cairo, a acumulação não é capitalista, mas política e as democracias apenas vieram destapar a ambição dos libertadores e quem sabe a sua maior “fraqueza”: o dinheiro, l’argent, o tutú, o kumbú, a mola, ti’tsapaw, matambíra, kobh’íri, a ma’dóla, mussúruku. E decorrente disso o nhonguismo oficial dos partidos no poder, seja por via dos filhos, esposa dos presidentes ou mesmo como uma nova ideologia dos partidos políticos, gloriosos ou não.

O perigo que isto carrega é que onde o vil metal entra o entendimento sai pela janela e os antigos brothers in arms podem e vão se matar por ele. Na pérola já se enterraram vítimas dessa ambição louca e desmedida pelo ouro.

Até amanhã camaradas!

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