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20 de September, 2025

Enganar para Sobreviver – O Comportamento Animal para além da Força

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Na natureza, as imposturas são abundantes. As sarigueias fingem-se de mortas, quando perseguidas por um predador; os corvos emitem vocalizações de falso alarme para afastar rivais e evitar partilhar alimentos; alguns anfíbios e répteis recorrem a truques engenhosos para enganar inimigos ou presas; até os próprios genes e células recorrem à estratégias de batota. E o ser humano, por sua vez, utiliza o embuste para obter vantagens em relação aos outros.

Foi com estas palavras que demos início a uma aula aberta sobre comportamento animal, recentemente, na Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo), em homenagem ao Professor Cristiano Luís Vicente Pires, que marcou gerações de estudantes com as suas aulas de Biologia do Comportamento e Zoologia Sistémica. Apaixonado pela vida selvagem e carinhosamente conhecido como o “professor formiga-leão”, Cristiano Pires deixou discípulos e um legado científico profundo. Estudou em Moçambique e na Alemanha, nutria fascínio pelos laboratórios e partiu de forma prematura, num momento em que a UP-Maputo ainda necessitava muito do seu conhecimento e experiência.

Ele tinha uma paixão, especialmente, pelas aves. Costumava falar do pássaro Cuco, muito abundante aqui no nosso ecossistema, que não sabe construir o seu próprio ninho e aproveita-se do trabalho de outros para garantir a sobrevivência da sua espécie. Ao mesmo tempo, admirava os cães, cuja capacidade olfativa, até 100.000 vezes superior à humana, lhes permite ser parceiros indispensáveis na detecção de drogas, explosivos, doenças e pessoas desaparecidas. Além disso, a sua forma de marcar território, levantando a pata para urinar em pontos altos, não é apenas hábito, mas estratégia, pois o odor transporta informações químicas que comunicam presença, força e até saúde a outros indivíduos.

O mesmo comportamento é observado em pandas, que chegam a adoptar posições acrobáticas para deixar sua marca em locais mais elevados. Trata-se de um verdadeiro ‘código invisível’ inscrito no ar, reforçando que, para muitos animais, a sobrevivência depende tanto da comunicação quanto da força.

Quando pensamos em teoria da evolução, lembramo-nos logo e inevitavelmente de Charles Darwin e do seu livro A Origem das Espécies (1859), onde defendeu que a sobrevivência estaria reservada aos mais fortes. No entanto, é importante recordar que, antes dele, o francês Jean-Baptiste Lamarck já havia desenvolvido uma teoria da evolução, baseada na herança de características adquiridas. Teria ele tido todas as condições para entender o mundo e as suas espécies para lá da Europa? Darwin estudou essas ideias e, de certo modo, apoiou-se nelas. Contudo, teve de viajar e, mesmo assim, não conseguiu abarcar a totalidade das espécies dos diferentes ecossistemas e biomas.

A teoria da evolução das espécies propõe que todos os seres vivos compartilham ancestrais comuns e que, ao longo do tempo, as espécies se modificam através da selecção natural: os indivíduos mais adaptados ao ambiente têm maior probabilidade de sobreviver e reproduzir-se, transmitindo suas características às gerações seguintes. Com os avanços recentes em genética, a teoria de Darwin ganhou uma base molecular sólida, permitindo entender como mutações, recombinação genética e variação hereditária moldam a diversidade biológica. Estudos modernos demonstram que a evolução não é apenas um processo de competição entre indivíduos, mas, também, uma complexa interacção entre genes, ambiente e comportamentos, revelando uma rede dinâmica de adaptação e sobrevivência que se estende muito para além daquilo que Darwin poderia observar no século XIX.

Hoje, a ciência já não encara a evolução apenas como uma luta pela força, ainda que as teorias do darwinismo continuem a ser amplamente aceites. Autores como Lixing Sun defendem que a evolução pode ocorrer por saltos súbitos ou até por uma força intrínseca às espécies, para além das pressões ambientais. Assim, a vida não se reduz à competição, é também marcada pela astúcia, pelo jogo e pela criatividade.

O engano como lei natural

O engano está presente em toda a natureza e funciona como uma estratégia de sobrevivência e adaptação. Macacos-prego (Sapajus spp), por exemplo, emitem falsos alarmes para afastar rivais da comida; suricatas utilizam gritos para despistar predadores; golfinhos recorrem a truques durante o acasalamento; e corvos mudam o esconderijo da comida sempre que percebem que estão a ser observados. Esses comportamentos mostram que, para muitas espécies, a astúcia e a capacidade de enganar são tão essenciais quanto a força ou a velocidade para garantir a sobrevivência e a reprodução.

Na verdade, muitos animais sobrevivem não pela força, mas pela impostura. As aves-do-paraíso e os pavões exageram nas cores para seduzir; o peixe-pedra finge ser uma rocha; alguns peixes machos disfarçam-se de fêmeas para se aproximarem de parceiras reprodutivas. Até as canções de certas aves são enganosas. E nós, humanos, também recorremos ao fingimento na política, na economia e nas relações sociais. A pergunta provocatória surge de forma inevitável: se o engano é tão natural, será que a moral humana não passa de uma versão mais sofisticada desse instinto?

A mentalidade Robin Hood

No entanto, nem tudo na natureza se resume à fraude. A biologia mostra que existe também um instinto de justiça que atravessa várias espécies. Muitos animais reagem a injustiças, recusando cooperar quando se sentem enganados; outros punem abusos para manter a coesão do grupo; há ainda aqueles que recorrem ao engano para proteger os mais fracos contra os mais fortes; e subordinados estabelecem alianças para desafiar dominadores e reequilibrar hierarquias. Esses comportamentos revelam que, mesmo num mundo regido pela sobrevivência, a vida social e a cooperação também desempenham um papel crucial na manutenção do equilíbrio e da sobrevivência coletiva.

Este comportamento é chamado de “mentalidade Robin Hood”. Aparentemente, existe uma tendência biológica para buscar equidade e punir abusos. O engano, paradoxalmente, pode ajudar a corrigir desequilíbrios sociais e a negociar favores. No fundo, é uma ferramenta que tanto revela virtudes como expõe falhas.

O desafio humano

Durante o período colonial, a fauna em Moçambique foi classificada como “fauna bravia” não porque fosse mais perigosa ou feroz, mas para servir à caça e o turismo cibernético, actividades que, claramente, deixariam de ser competitivas quando comparadas a países vizinhos, como a Rodésia e a África do Sul. Em contraste, muitas comunidades africanas viam os animais selvagens apenas como outros seres da natureza, e não como inimigos.

Hoje, a crise socioambiental mostra o quanto nos afastámos dessa visão. Ao adiar as soluções para as próximas gerações, a humanidade corre o risco de não sobreviver aos seus próprios enganos.

Mas, mais do que isso, tal como no reino animal, também entre nós, a sobrevivência nem sempre se assegura pela força, mas pela astúcia, pela capacidade de disfarçar fragilidades e de manipular percepções. Nas savanas sociais e políticas, a camuflagem toma a forma de discursos bem polidos, promessas repetidas e símbolos cuidadosamente exibidos.

Numa nação onde as feridas da pobreza e da desigualdade continuam abertas, muitas vezes assistimos a jogos de poder que lembram o camaleão a mudar de cor ou o cão a marcar território com o seu odor. São estratégias de sobrevivência, sim, mas nem sempre de progresso colectivo. Quem domina a narrativa controla o espaço, mesmo quando a realidade desmente as palavras.

O desafio, tal como na natureza, é perceber se esses artifícios servem para proteger a comunidade, porque, em última instância, a sobrevivência humana não pode ser medida apenas pela astúcia de enganar, mas pela capacidade de construir confiança, solidariedade e futuro. Eis a lição maior que os animais nos deixam, enganar pode salvar por um instante, mas é a cooperação que garante a continuidade da vida.

 

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