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13 de September, 2025

A viagem poética de Adelino Timóteo

Escrito por

Reparo o amor com virtude de um pássaro

que quer voar em direcção

à larga linha do horizonte,

com tanta gente aqui neste país que o anuncia

e o desperdiça a feri-lo em disputa,

a magoá-lo, a alvejá-lo,

quando mesmo pode ser uma dilecta criação do peito.

Adelino Timóteo (in “Os Segredos da Arte de Amar”)

A biografia poética de Adelino Timóteo desencadeia-se em 1999, com uma obra cujo título evoca uma confidência, uma confissão ou, se quisermos, uma discrição: “O Segredo da Arte de Amar”.

Não muito tempo depois, o poeta resgata o mito da Ilha de Moçambique e a promessa da Grécia. A Ilha é um referencial poético fundador poderoso entre nós, estabelecido pelos numes da nossa lírica, como Rui Knopfli, com a sua ingente “A Ilha de Próspero”, cultuada por Alberto de Lacerda, ali nascido, ou poetas como Virgílio de Lemos, Glória de Sant’Anna, Luís Carlos Patraquim ou Eduardo White– para nos atermos somente aos poetas moçambicanos.

Com “Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique”, em 2002, Adelino Timóteo não só vai em busca do mito poético da ilha, como se alia uma das linhagens poéticas mais emblemáticas da poesia moçambicana. Ali, o seu estro encontra um certo quilate.

Quando dá à estampa “A Fronteira do Sublime”, em 2006, já é um autor de timbre próprio e de uma voz singular entre os tributários da nova poesia moçambicana. Pratica, com esmero, o que avultava ser prosa poética. No final, a poesia não tem talas. Exerce-se como o poeta intui – como o tinham feito Eduardo White ou Luís Carlos Patraquim.

O poeta já havia estabelecido a ideia da viagem, pelo menos pelas geografias do mito: fosse a velha Muhipiti, fosse a antiga Grécia ou Veneza. Mas havia uma outra viagem subsumida: a da mulher, do corpo exultante da mulher, que cantará de forma intensa, pujante, vigorosa.

Uma viagem, aliás, anunciada. A sua escrita sempre estivera ancorada na sagração da mulher, na celebração do corpo feminino, nessa volúpia e nesse deslumbramento. Nessa vertigem. Nesse júbilo.

«Uma Veneza ancorada em mim. Uma sacra mulher na casa desta escrita.»

Nessa errância, onde o poeta pressente o amor, «o princípio será sempre o fim».

Aliás, o poeta tem sempre uma “intuição pulsional”, um apelo de “terra feita verbo”. É uma espécie de “vocação” impenitente a sua. Uma buscainescapável. Uma invocação. Um destino irrecusável.A mulher. O corpo. O amor, sempre. Mas também amemória. A divícia da memória. A sua memória literária, poética e profética.

Ali está inscrita também a loucura do poeta, oviandante. «Poeta sonâmbulo o que eu sou». E sempre a consciência do mito: «O seu mito me persegue.»

De “De Veneza ao peito” a “A Fronteira do Sublime”, escreve o poeta: «Busco uma perfeição que jamais terá existido se não na imperfeição de que resulta o sonho.»

Este é um livro em que se anuncia a euforia do amor.O amor do poeta é sempre abundante, exabundante. Imoderado, desmedido.

Em “Dos Frutos do Amor e Desamores à Partida”(2011), há o reiterado culto a Vénus: «Tua a vertigem, repetitiva como me chegas, quente, suave, febril.»

Leia-se-lhe:

«Eu te procuraria nessa volúpia, quase fogo, quase lume em tuas sementes sufragadas de desejo, em teus estames alucinados, acesos pelo mar, pelas ondas, alcandorado a polpa da carícia.»

Ou ainda:

«Deixa-me amar-te, a tontura leve das coxas fundas dos frutos, neste quase pomar onde aprendo a suar, lento, alucinado dos teus subterrâneos, o caulino branco, verde-ocre, de tão luminosa como a vida.»

O corpo. Sempre o corpo. O corpo da mulher. Uma espécie de força centrípeta.  

«Os teus seios eventualmente redondos como uma corola, ardidos pelos Sol, os teus seios esparsos, eventualmente pequenos como um verso, ardidos pela chama do beijo.»

O desejo, a vontade, a busca. A volúpia.

«A mão errante pelos emersos vales.»

Sempre o amor. A metafísica do amor. A elevação do amor. Essa constante exaltação. Essa permanente exultação.

«No amor, a tua beleza, transcendida pela música, pelo fogo, pelo mar, pela frescura dos álamos ou talvez pelas tuas mãos.»

Esse amor e esse culto conduzem-no à «haste das lágrimas». É o poeta no Olimpo. No seu Olimpo.

“Livro Mulher” é o apogeu da celebração da sua Vénus. Da apologia do corpo. Da reverência à mulher. «Pois uma janela, fisiologicamente, imita um livro. Um corpo. Uma mulher.»

“Leio a mulher”: «Que seria de mim sem um livro? Nada de nada. Em minha casa já não há um único livro. Vou à janela e estou lendo: livro mulher.»

«Mulher, surges-me vulcânica pelo teu corpo.» O poeta, na sua louvação, assim o reconhece, «leitor audaz», convoca Camões, «perdido na ilha, entretido em leituras de belas silhuetas macuas». Sempre o referencial da ilha. A legenda fundacional. A alegoria, a metáfora. O símbolo. Da viagem, do amor, da vertigem. Da mulher. Do corpo.

Esta poética constrói-se com sintagmas recorrentes: livro, mulher, assombrações, janela, casa, morada, terra, pátria. Lugar de origem. Fascinação. Uma espécie de «memória alucinada».

A sintaxe do corpo, do fogo, o sismo e a solidão. «Cada dia chego-te por um livro, atraído pelo corpo de uma mulher, por este olhar errante à janela. Um livro é como o corpo de mulher.»

Aqui temos «a ressonância de lugares remotos», a inferência dos «tempos antigos». A ideia de “circunavegação”. A mulher, o livro, esse «tesouro que nunca se termina de descobrir».

Sempre a «levitação», o «êxtase em haste dos céus infinitos». O encanto. O desassombro. O assombro. A celebração do corpo e do amor ao corpo. À mulher, esse livro. Às páginas onde se escreve «a metafísica do grito».

O esplendor nessa demanda: «o que há no corpo de uma mulher é um manual onde se pratica a levitação, onde se pratica a magia ou se opera (sic) os mistérios e milagres dos oráculos.»

Essa é uma «realidade exultante», a experimentação da «ogiva de arremesso». Tudo é belo e prazeroso: «Não há livro como tu, mulher. Não há melhor poema, melhor música, melhor musa senão tu, mulher. Tudo em ti é o esplendor, a formosura.» O aceno a Alice, outra fábula: «Tu, meu país das maravilhas.»

«És em meu pensamento o cais de partida e chegada», dita o «poeta sonâmbulo embalado na própria ausência.»

Poeta do amor, não se poderia furtar ao “Corpo de Cleópatra”, a deusa egípcia, hipérbole da beleza e da exultação do corpo. «Corpo metamorficamente sensual.» Mas também metáfora do livro, do livro-mulher, e evocação à mítica Biblioteca de Alexandria.

África no sufrágio dessa viagem ao território do mito.

E sempre a deusa Vénus, a deusa do amor e da beleza: «é onde o amor vicia.»

A invocação de António, ou César, o aceno ao poeta de Alexandria (Kavafis), a referência a Kafka e à sua Praga, ou a referência Jorge Luis Borges e à sua lendária Buenos Aires.

Outros referentes dessa escrita: o grande rio Eufrates, a Mesopotâmia ou a Babilónia, todos entram nesta poesia de «luxúria e devassidão».

Muhipiti, sempre. Mas também o Cairo ou a Cidade do Cabo. Nesta tributação a Ptolomeu, também cabe a Beira, a cidade matricial. A sua pátria poética. Pátria de outros tantos, como Heliodoro Baptista, Mia Couto, Bahassan Adamodjy, Júlio Bicá, Meigos, Julius Kazembe, Simeão Cachamba, António Pinto de Abreu, Miguel César.

De Sofala a Quíloa, de Mombaça a Mogadíscio. Assim se cumpre a viagem do poeta Adelino Timóteo. Um poeta em permanente busca de si. Todo o seu enunciado poético é essa revelação. Essa descoberta.

O “Corpo de Cleópatra” (2016) poderia ser um aceno a “O Corpo de Atena”: «Todo aquele que contemplou o corpo / de Atena vê mais além» (Rui Knopfli, magister dixit).

“A Volúpia da Pedra” (2018) é o triunfo desse amor refulgente, vibrante, que se recorta sempre no corpo da mulher, que se inscreve na metáfora da viagem, ou na imagem do tempo. O tempo inscrito na pedra.

A pedra e o tempo. «Amo o tempo que perdura nela.»Mas também a «matéria fálica».

Pronuncia o poeta: «Amo a doçura com que os seus seios túrgidos me tocam.»

Ou ainda:

«Amo na pedra a tangível loucura do amor, o perfume que não fosse por ela, por essa mulher, jamais vos escreveria esses alegres versos.»

«A pedra é uma alucinação» ou «a habitação sublime» ou «a volúpia desse império eterno em demanda» ou «um fascínio o seu halo místico».

Uma poesia que vai buscar à pedra a sua significação, o amor intransitivo pela mulher, o amor intemporal, a sua força mística, o âmago da sua transfiguração.

A gramática do amor encontra os seus estames nesta poesia que se funda no desejo alegórico do corpo e se transfigura na sua mítica. Ou mística.

Poesia que se enleva na janela, que se lê como livro-mulher, uma espécie de metonímia em que se funda o seu principal referente. O sujeito e o predicado deuma exaltante e exultante viagem poética de Adelino Timóteo.

Retorno às suas primícias quando enuncia:

«Eu não sei se te amo quando te escrevo

ou se te escrevo quando te amo.»

Poderia a divisa dessa viagem ou dessa circunavegação deste poeta da Ilha de Moçambique, da Grécia, de Veneza, do Egipto, de todos os lugares.

Cidade do Cabo, 26 de Julho de 2025

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