(Breve leitura de “A Armadilha do Auto-Engano – Uma visão crítica das relações entre África e a Europa”, de Carlos Lopes)
Carlos Lopes vai buscar ao campo da medicina o conceito de auto-engano e aplica-o, de forma ingente, às ciências sociais, tornando-o operativo no campo da história, sociologia, política e economia, na notável obra intitulada “A Armadilha do Auto-Engano – Uma Visão Crítica das Relações entre África e a Europa” (Ed. Tinta-da-China, Lisboa, 2025), sobre o logro que ainda domina a relação entre África e Europa.
O auto-engano remete-nos, no contexto médico, para um fenómeno cognitivo através do qual o indivíduo percepciona, consciente ou inconscientemente, a sua saúde de forma distorcida, tanto os sintomas como até a sua ideia de bem-estar.
Esta obra surgiu de uma experiência frustrada. Nasceu da sua vivência diplomática na condução dos esforços da União Africana (UA) nos acordos com a União Europeia (UE-ACP após 2020 – pós-Cotonu, por conseguinte) que se revelou uma decepção na longa trajectória do autor.
O fracasso é, por conseguinte, a sua origem. Mais do que um fracasso individual, este livro relata o fracasso de dois continentes, incapazes de urdir uma relação proporcional e justa e ainda atados aos complexos do colonialismo ou neocolonialismo, porfiando, no auto-engano, uma relação desigual e injusta.
Carlos Lopes é um consagrado intelectual africano, oriundo da Guiné-Bissau, personagem de dimensão continental e uma das mais lúcidas e vibrantes mentes do nosso continente.
Ele alia capacidades muitas vezes difíceis de conciliar: uma extraordinária visão e um acutilante pensamento, munido de um fortíssimo arcaboiço de académico, a uma capacidade de realização e acção prática, o que é incomum. É um homem do pensamento, é um homem de acção.
Muitos dos seus escritos têm origem não só na sua capacidade de problematização ou questionamento da realidade africana, mas sobretudo da observação e conhecimento no terreno dos problemas sobre os quais estes mesmos escritos versam. A tudo isto, soma-se um acurado estudo de dados e informação que, muitas vezes, nos confronta com mitos ou distorções que se alimentam sobre África.
Antes de assumir o cargo de alto representante africano para as complexas negociações do acordo pós-Cotonu, Carlos Lopes tivera importantes cargos nas Nações Unidas (no Zimbabwe e no Brasil e fora Director Político de Kofi Annan e, mais tarde, na esfera da UA servira como secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas).
O Acordo Cotonu é um acordo comercial assinado entre a UE e os países ACP (África, Caraíbas e Pacífico) em 23 de Junho de 2000, no Benin. Este acordo é ulterior à Convenção de Lomé e conclama cerca de 100 estados. O Acordo de Lomé, que teve 4 versões, foi inicialmente assinado em 1975 entre a UE e os países ACP. A sigla ACP engloba 79 países de África, Caraíbas e Pacífico. Estes excluem os países do Norte de África.
Além de estar profusamente documentado, revelando um conhecimento notável da literatura desta área, este livro é o testemunho e o testamento de quem conhece os meandros burocráticos que dominam as relações entre estes dois continentes (africano e europeu) e destas imbricadas malhas tece um vigoroso e lúcido discurso, procurando desafiar os mitos que continuam a condenar África e a obstruir o seu futuro.
Carlos Lopes tem muitos contributos no domínio económico, político e diplomático africano, entre os quais o estabelecimento, ao nível do continente, da Agenda 2063. É vasto o seu conhecimento e o seu contributo. Também é reconhecido e aplaudido. Tem sido considerado o mais importante economista africano em anos sucessivos. É, por conseguinte, um intelectual africano de grande gabarito. Actua ainda em universidades africanas e europeias e pelas sete partidas do mundo.
O livro “A Armadilha do Auto-Engano – Uma Visão Crítica das Relações entre África e a Europa” tem sete capítulos. O autor considera que estes enformam três partes. Do capítulo 1 ao 4, a primeira parte, debruça-se o autor sobre aspectos históricos; na segunda parte (capítulos 5 a 8), fala-se sobre a actualidade e os labirintos das negociações entre os dois continentes; e uma terceira parte (o capítulo 9) reúne as considerações finais ou conclusões.
Aliando o seu conhecido rigor académico e uma capacidade acurada de estabelecer as suas ideias, o autor, à semelhança do que faz nos seus trabalhos anteriores, conta pequenas histórias, fábulas ou episódios que, neste caso, ilustram e iluminam, subtilmente, o auto-engano.
Cada capítulo termina com uma importante lista de referências, o que denuncia o arcaboiço do autor e o seu vasto conhecimento teórico e académico. Aliás, esta obra é uma importante revisão bibliográfica sobre África, sobretudo.
O primeiro capítulo é a introdução: “Uma aula magistral sobre comportamento passivo-agressivo e como lidar com ele”, que justifica em parte o título. É uma profunda análise histórica do auto-engano que está no embasamento da relação entre África e a Europa, dos equívocos fundados ao longo de séculos e que ainda hoje persistem.
A ideia distorcida de África, das concepções erradas sobre o continente e a tentativa, por assim dizer, de restabelecer o protagonismo africano: a relação entre cultura, liberdade e domínio colonial. E o que está subsumido a isto: a linguagem do desenvolvimento e a sua práxis.
O fim do colonialismo não determinou o fim da importância de África como manancial de matérias-primas para a Europa, antes pelo contrário. Mudaram-se as formulações, mas a relação permaneceu perversamente a mesma, bem como os discursos, as narrativas, os mitos e os estigmas.
Se no primeiro capítulo se busca a compreensão dos discursos e práticas que escoram a ideia do assistencialismo e o caráter caritativo na relação entre a Europa e o continente africano, dir-se-ia que o capítulo seguinte (“Os impérios da mente”) busca a análise desta visão e intervenção perniciosas no continente.
Aliás, foi desta visão que se deu corpo aos programas de assistência que são um anátema para o desenvolvimento. Ao falhanço destes programas soma-se outro, protagonizado pelas instituições de Bretton Woods e a sua doutrina de ajustamento estrutural.
No terceiro capítulo (“A decepcionante discussão sobre a eficácia da ajuda”), Carlos Lopes fala-nos da importância de enfrentar as responsabilidades históricas, que decorrem das análises apresentadas nos capítulos precedentes, assim como da necessidade de assegurar justiça e equidade nesta complexa acepção que se faz sobre África.
Para o quarto capítulo (“A vantagem comparativa é um truque antiquado”), o autor vai buscar à teoria económica das vantagens comparativas, que justificava a hegemonia dos detentores dos impérios coloniais e a necessidade de estes manterem as dinâmicas de poder desigual. É outra desconstrução do equívoco que permanece até hoje nesta relação, ou seja: o fundamento que justifica a saída de bens essenciais de África contra a importação de bens manufacturados de valor superior. O autor denuncia as premissas enganosas sobre as economias africanas.
E aqui há um desafio: a importância do protecionismo inteligente, através de políticas que façam crescer as economias africanas, como ocorreu no sudoeste asiático. Além disso, o autor recupera uma visão combatida pelos ditames de Bretton Woods, conferindo ao Estado um papel crucial no desenvolvimento, estabelecendo políticas estratégicas e estruturantes.
A implementação dos Programas de Ajustamento Estrutural (PAE) nos países africanos (e na América Latina) demonstrou, segundo o autor, uma flagrante desconexão entre as alegadas intenções das instituições de Bretton Woods e as duras realidades enfrentadas por estes países. «África», diz o autor e cito: «suportou o fardo da abordagem mal concebida dos PAE, com a estagnação do crescimento do PIB, a queda dos investimentos e a diminuição significativa da quota das exportações».
Carlos Lopes faz uma crítica veemente a estes programas e aos seus resultados no capítulo 5 intitulado “Décadas perdidas ou bênção!”.
No capítulo subsequente (“Os Bons Samaritanos perdem-se pelo caminho”), o autor denuncia «a lógica colonial subjacente à estruturação do comércio África-UE na era pós-Cotonu». Esta reflecte, no entender de Carlos Lopes, «uma abordagem paternalista que foi sendo camuflada por numerosos programas e várias decisões política que prometiam trazer o crescimento sustentável e a transformação da economia» africana.
África diverge do paradigma assistencialista estabelecido nas relações com a UE. Muitos países africanos, com o apoio da UA, demonstram, no entender de Carlos Lopes, preparação para serem actores assertivos no domínio da economia e da política. O binómio doador-receptor e a óptica da recompensa e castigo estão na origem do cansaço africano em relação a estas abordagens e o autor faz uma acerba crítica a essa visão ocidental. Mas nunca é maniqueísta.
A retórica dos estados europeus e da UE é a de que estes querem afastar-se da abordagem doador-assistência-receptor, mas isto está longe de se verificar.
Impera ainda, nesta relação, a lógica colonial, ou se quisermos, neocolonial, em que a UE continua dominadora e pode designar os seus interlocutores perante uma África fragmentada e dividida.
No entanto, Carlos Lopes acredita que é possível reforçar o papel africano e mudar o paradigma e a lógica desta relação desigual.
O tema das migrações (“As migrações no centro das atenções”), que domina a agenda mundial, tem um capítulo importante neste livro. No capítulo sétimo, Carlos Lopes desmistifica uma narrativa sobre a mobilidade humana e as dinâmicas migratórias e denuncia o carácter neomalthusiano desta abordagem.
Além de a mobilidade proporcionar vantagens às nações, o que contraria as políticas restritivas concebidas contra migrantes, na Europa e nos Estados Unidos, este capítulo expõe as contradições e as narrativas distorcidas que ajudam a edificar novas agendas (profundamente preconceituosas) no mundo ocidental.
O autor debruça-se ainda sobre a centralidade do comércio na actual e futura relação Europa-África (capítulo oitavo, “A fantasia do livre comércio”). Neste momento, na era pós-Cotonu, as relações entre Europa e os países ACP mantêm uma dinâmica flagrantemente desigual.
O comércio preferencial, que se ostenta como uma concessão à África, é, no entender do autor, «um subtil jogo de poder». África tem de alcançar termos equitativos na relação. Esse é um imperativo estratégico. O padrão presente não serve os interesses de África. Perpetua a relação dominador-dominado que vem do contexto colonial.
O autor denuncia, por assim dizer, o tratamento diferencial reservado aos países do Norte de África e os Acordos de Parceria Económica que dividem o continente.
O capítulo nono (“Conclusões: Uma nova Era de protagonismo africano”) estabelece a ligação entre as tendências do auto-engano que estão estabelecidas nos capítulos precedentes e a longa história das assimetrias.
O autor propõe, consequentemente, uma nova parceria, um novo entendimento, um novo paradigma nesta relação África-Europa. Esta proposta é uma fórmula para ultrapassar o auto-engano, que estriba esta relação equívoca e dessemelhante.
Carlos Lopes vê o futuro com optimismo e acredita que é possível uma perspectiva de verdadeira colaboração que seja transformadora.
«O que justifica a minha apropriação do termo “auto-engano” é a interação entre discurso, crenças profundamente arreigadas e interesses que provêm de um desejo de preservação por parte dos protagonistas-chaves nas relações entre África e a Europa, os quais tenho observado ao longo dos anos», afirma Carlos Lopes. Isso não desmente o seu optimismo. Antes pelo contrário: funda a sua consciência crítica e releva a necessidade de transformar esta relação.
«A UA encontra-se numa encruzilhada» – diz Carlos Lopes. Há, neste momento, possibilidade de redefinir as relações comerciais com a Europa: «A UA pode assegurar que o comércio se torne um catalisador para o crescimento mútuo e a prosperidade para si mesma e para a UE.»
“A Armadilha do Auto-Engano – Uma Visão Crítica das Relações entre África e a Europa” é uma obra notável sobre a relação entre África e Europa, sobre os equívocos e a relação desigual que se têm perpetuado, nos tempos ulteriores ao colonialismo, através de diversos acordos que corporizam a relação UE-ACP (importante instrumento para a garantia do fluxo das matérias primas para o território europeu e que está na origem do reiterado atraso africano, mesmo quando a retórica ostenta uma relação preferencial).
Este é um livro fascinante, com fundamentos económicos, históricos, políticos, geográficos, sociológicos. É uma verdadeira intelecção robusta sobre esta relação imperfeita onde se discutem problemas ligados à governação, políticas ou fenómenos como migração, entre outros, de grande actualidade.
Esta obra é também um duro libelo sem ser inamistoso, crítico sem ser ofensivo. Nela o autor é vigoroso e assertivo. Traz também uma profissão de fé. O autor, um obstinado cultor do futuro de África, acredita na sua juventude e nas possibilidades do futuro, bem como na relação genuína intra-africana e desta com a Europa.
Carlos Lopes não escreve apenas sobre a relação África e Europa neste livro. Esta é obra é o testemunho de um percurso e do seu saber acumulado. Aqui vemos confirmado o tirocínio do jovem que escreveu “Para uma Leitura Sociológica da Guiné-Bissau”, dos tempos do INEP, das lições do mestre Mário Pinto de Andrade, das heranças de Amílcar Cabral e do pan-africanismo de Kwame Nkrumah.
Aqui está o diplomata que serviu nas Nações Unidas, que teve uma experiência importante no Zimbabwe, que implementou um grandioso programa no Brasil, que conhece os meandros da organização em Nova Iorque e que é companheiro de Kofi Annan.
Aqui, neste testemunho, está também o economista que serviu em Adis Abeba e interagiu com os líderes africanos, e se moveu, com inteligência e “panache”, nos labirintos da burocracia africana, europeia e mundial.
«Estamos perante um apelo à acção», escreve no fim Carlos Lopes: «é preciso abandonar os compromissos irrealistas e abraçar objectivos pragmáticos. O cenário mundial convida-nos a entrar num novo capítulo marcado pela cooperação, pelo respeito mútuo e pelo progresso partilhado. Neste contexto dinâmico, o futuro está ao virar da esquina e apresenta-nos a possibilidade de uma nova e mais justa parceria entre África e a Europa.»
Este livro, mais do que uma obra notável – erudita, inteligente, vibrante -, é sobretudo um testamento intelectual e político de um grande africano e uma soberba e magistral lição de vida.
Bilbau-Lisboa, 12 e 14 de Junho de 2025





