Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

14 de August, 2025

*Mozal: A fábrica que nunca nos pertenceu*

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A Mozal sempre me lembrou aquele tipo que se apodera da fonte de água, finge que é dele e deixa todos os outros a morrer de sede. É assim há 25 anos: alumínio para exportar, lucros para fora, poluição para dentro. A mesma Mozal do Baypass, que tornou inférteis terras à sua volta, que mata o que toca e ainda se apresenta como benfeitora. Já vai tarde, se for.

Eu nunca gostei da Mozal. Em 2019 usei-a como exemplo de irresponsabilidade social: reuniram a equipa do governador da província de Maputo, chamaram a imprensa, montaram um aparato inteiro para oferecer 500 carteiras escolares. O custo daquela encenação foi maior do que a própria doação. Não era solidariedade: era teatro, puro marketing.

Durante um quarto de século, viveu como uma ilha de privilégios: energia quase gratuita, impostos simbólicos, isenções sem fim. O país recebia estatísticas infladas e promessas vazias. Agora, quando o Governo finalmente exige que pague o preço real da energia de Cahora Bassa, a chantagem repete-se: desligar cubas, despedir trabalhadores, paralisar exportações.

É o mesmo método de Donald Trump, que transformou tarifas em arma política. Mas até lá essa chantagem acabou por unir diferentes sectores em torno da defesa nacional. Hoje, no Brasil, a retórica de Trump empurra até críticos para junto de Lula, porque ninguém aceita ser refém.

Os números não enganam: só em 2024, Cahora Bassa entregou 259 milhões de dólares ao Estado. A Mozal, com lucros líquidos obscenos, contribuiu em média apenas 22 milhões por ano. Uma discrepância que roça o insulto.

Moçambique não pode continuar ajoelhado diante de um projecto que paga pouco, doa menos ainda e ameaça quando lhe pedem justiça. A energia de Cahora Bassa deve servir primeiro ao país: às aldeias sem luz, às pequenas indústrias que criam emprego, ao futuro de uma economia que não dependa de alumínio cru.

Se a Mozal quiser ficar, que fique em condições dignas. Se quiser sair, que saia. Porque o que está em jogo não é alumínio. É a soberania de Moçambique. E se nós, que ouvimos desde sempre que Cahora Bassa é nossa, continuarmos a pagar mais pela energia do que a Mozal, então é melhor dizer a verdade: Cahora Bassa não é de Moçambique — é da Mozal.

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