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24 de July, 2025

Enterro do ex-presidente da Zâmbia, Edgar Lungu, gera polémica

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A esposa de Edgar Lungu, Esther, afirmou em depoimento que o marido insistiu que o actual líder zambiano Hakainde Hichilema não deveria estar “nem perto do funeral nem do seu corpo”. A família de Lungu afirma que lhe foi negada repetidamente a permissão para viajar à África do Sul para tratamento médico e argumenta que o cancro de que sofria poderia ter sido tratado se tivesse sido identificado mais cedo.

Em resposta, o governo zambiano acusa a viúva de fazer alegações “escandalosas e vexatórias”.

Esta é a mais recente reviravolta entre o governo e a família de Lungu, depois que os parentes optaram por uma cerimónia fúnebre privada na África do Sul, em vez de um funeral de Estado em casa.

A controvérsia ocorre após uma longa disputa entre Lungu e o seu sucessor, o presidente Hakainde Hichilema, com a família de Lungu dizendo que ele havia indicado que Hichilema não devia comparecer no seu funeral.

Após a morte de Lungu na África do Sul, aos 68 anos de idade, a família queria ficar responsável pelos preparativos do funeral, incluindo o repatriamento dos restos mortais, mas o governo zambiano quis assumir o controlo.

A actual discussão sobre o enterro de Lungu ressalta a relação tensa entre ele e o seu sucessor que perdurou durante a sua vida e continua até mesmo após a sua morte.
Quando Lungu era Presidente, Hichilema ficou preso por mais de cem dias sob acusação de traição depois que a comitiva de Hichilema, supostamente, se recusou a lhe dar passagem.

A família do falecido ex-presidente zambiano Edgar Lungu disse que os planos para repatriar o seu corpo para a Zâmbia foram interrompidos devido à inclusão do actual estadista Hakainde Hichilema na cerimónia fúnebre organizada pelo governo.

Em documentos apresentados ao Tribunal Supremo em Pretória, a ex-primeira-dama Esther Lungu explicou porque a família se recusou a permitir que o governo zambiano repatriasse os restos mortais de Lungu para a Zâmbia, forçando uma batalha judicial sobre quem tem o direito de enterrar o ex-chefe de estado.

Esther Lungu, que agora mora em Centurion, insiste que o seu falecido marido não gostaria de ser enterrado às expensas do governo zambiano se Hichilema estivesse envolvido no funeral. O programa inicial divulgado pelo governo indicava que Hichilema teria um papel fundamental, presidindo o enterro do seu antigo rival.

“Durante a estadia do falecido ex-presidente Lungu na África do Sul, ele foi aberto e consistente ao expressar o seu desejo de que, após a sua morte, o actual presidente (Hakainde Hichilema) não estivesse próximo do seu funeral ou corpo. Essas intenções foram comunicadas em inúmeras ocasiões a mim e a outros familiares. As suas razões baseavam-se não apenas nos maus-tratos pessoais sofridos e na retirada da sua segurança e assistência médica, mas também na rejeição, por princípios, de uma cerimónia fúnebre organizada por um governo que, em sua opinião, o havia abandonado e perseguido em vida”, afirma Esther no depoimento.

Esther Lungu acusou o governo de negar a ele a oportunidade de buscar atendimento médico vital nos dois anos anteriores à sua morte, azedando ainda mais um relacionamento político já tenso.

Quem decide?

De acordo com os documentos, a família Lungu não encontrou um testamento pertencente ao ex-presidente e, por isso, argumenta que eles deveriam decidir onde ele deveria ser enterrado.

“O estatuto de Lungu como ex-chefe de Estado não substitui ou anula os direitos da sua família imediata, especialmente na ausência de qualquer autoridade legal, ordem judicial ou consentimento formal autorizando a interferência do governo nos preparativos do enterro”, diz Esther Lungu em depoimento.

Lungu faleceu num hospital de Joanesburgo em 5 de Junho e deveria ser repatriado alguns dias depois. Ele havia viajado para a África do Sul para tratamento médico e, ao chegar, foi informado de que sofria de cancro no esôfago.

De acordo com o procurador-geral da Zâmbia, Mulilo Kabesha, que prestou depoimento em nome do governo zambiano, a família havia concordado inicialmente com o retorno de Lungu à Zâmbia. Kabesha afirmou que a família planeava retornar à Zâmbia num jacto particular e “planeava transportar o corpo para Ndola, onde o falecido presidente Lungu nasceu, para Kitwe, onde ele viveu durante os seus anos de formação, e Petauke, de onde ele era originário”.

“Isso era para dar aos apoiantes e amigos do falecido Presidente a oportunidade de prestarem as últimas homenagens antes de seguirem para Lusaka”.

O governo ofereceu-se para transportar os restos mortais num jacto militar e pagar a conta do enterro, mas a família se opôs, dizendo que Lungu queria ser repatriado “da mesma maneira que viajou para a África do Sul, ou seja, num avião fretado”.

Kabesha também confirmou que as autoridades governamentais foram informadas de que Lungu não queria que Hichilema comparecesse ao funeral. O Procurador afirmou que a família e as autoridades governamentais continuaram as negociações por mais uma semana e, durante uma reunião em 14 de Junho, um “roteiro foi acertado” que levaria Lungu de volta à Zâmbia num jacto fretado e enterrado em 23 de Junho no Parque Memorial. Esse roteiro foi comunicado à mídia zambiana. Kabesha afirmou que, alguns dias depois, a família rejeitou o acordo.

“A reviravolta catastrófica (de Esther Lungu) levou a uma onda de actividades diplomáticas de 18 a 23 de Junho de 2025 e o governo zambiano enviou inúmeras delegações à viúva para implorar a ela e aos outros membros da família que voltassem aos arranjos iniciais e permitissem que o corpo do falecido presidente fosse repatriado e, posteriormente, que os costumes e protocolos estabelecidos na Zâmbia fossem seguidos”, disse Kabesha.

Ele acrescentou que a viúva levantou várias questões, incluindo “desconfiança geral no regime actual e uma objecção à permissão para que o actual chefe de Estado em exercício receba o corpo”.

“Embora as discussões entre autoridades do governo da Zâmbia estivessem em andamento, o governo foi notificado pelas redes sociais às 12h15 do dia 23 de Junho de 2025 de que a viúva e outros membros da família resolveram enterrar o falecido presidente Lungu em Joanesburgo, no dia 25 de Junho, numa cerimônia privada”.
Nos documentos do tribunal, a família Lungu admite que se encontrou com representantes do governo, mas nega a versão de Kabesha sobre o resultado.

“Foi proposto que o actual presidente só pudesse receber dignitários estrangeiros e pudesse estar presente no funeral, onde chefes de Estado estrangeiros estariam presentes. O actual presidente não teria mais nenhum papel no enterro”, disse Esther Lungu.

O enterro na África do Sul foi proibido pelo governo e os restos mortais de Lungu estão a ser mantidos na funerária Two Mountains, em Midrand.

Regalias

Kabesha argumenta que o governo zambiano tem o direito de ditar os termos do sepultamento de um chefe de Estado, com base na Lei de Regalias do país, que especifica os benefícios atribuídos a ex-chefes de Estado, incluindo pensão e enterro oficial. No entanto, a família Lungu contesta essa afirmação, afirmando que o actual governo havia cortado os benefícios de Lungu em Outubro de 2023, após este anunciar planos de retornar à política activa.

Segundo a família, as regalias de Lungu foram “revogadas antes do seu falecimento, tornando-o um cidadão comum no momento da sua morte”.

“Durante o período em que as suas regalias foram revogadas, ele foi obrigado a buscar apoio financeiro de familiares e amigos e foi forçado a deixar a Zâmbia para receber tratamento médico na África do Sul, temendo negligência médica politicamente motivada no seu país de origem”, diz Esther Lungu.

Ela acrescentou que a remoção dos benefícios foi “um acto deliberado” do governo com o objectivo de “enfraquecer” Lungu.

O governo tem outra visão, afirmando que os benefícios de Lungu não foram cancelados, mas suspensos. “O seu direito aos benefícios foi suspenso quando ele se envolveu activamente na política e, com seu falecimento, o impedimento que existia desapareceu”, disse Kabesha. Como presidente aposentado, Lungu tinha direito a três agentes de segurança, um passaporte diplomático, três carros do Estado, uma casa mobiliada, seguro médico e despesas funerárias.

“Sem esses privilégios, Lungu viajou para África do Sul como qualquer outro cidadão para tratamento médico”, disse Makebi Zulu, porta-voz da família de Lungu.

“Ele viajou num voo comercial, na classe económica”, afirmou Zulu, acrescentando que Lungu “passou pela migração como uma pessoa normal e esperou por um veículo do lado de fora do aeroporto”.

Lungu foi presidente da Zâmbia de Janeiro de 2015 a Agosto de 2021 sob a bandeira da Frente Patriótica. Para a sua sucessão, entrou Hakainde Hichilema, o líder rival do Partido Unido para o Desenvolvimento Nacional, que permanece na presidência até hoje. Desde que deixou o cargo, Lungu e a sua família têm sido acusados de corrupção e roubo de veículos e propriedades do governo. Esther Lungu alega que essas acusações têm motivação política.

Em nome do governo zambiano, Kabesha afirma que os processos contra a família de Lungu não têm relação com o caso envolvendo o seu enterro.

A família Lungu afirma que planeia permanecer na África do Sul devido às condições enfrentadas na Zâmbia e alega ter incorrido em até 1 milhão de rands em custos com o funeral abortado, que foi proibido pelo governo. Esther Lungu afirma que a interrupção do funeral “causou grande dano e constrangimento à família”.

“A família só quer dar a ele um enterro digno, não envolto em relações públicas, para dar à comunidade internacional a percepção de que ele foi tratado adequadamente”, disse Zulu.

Destacou que o governo de Hichilema queria forçar a família a um funeral de Estado como um golpe de relações públicas para tentar limpar a sua imagem perante o mundo.
“Ninguém falava com Edgar Lungu quando ele estava vivo”, vincou Zulu. “E agora as pessoas querem fingir que falam por ele, quando nunca estiveram presentes durante a sua vida.”

Euston Chiputa, analista político baseado em Lusaka, disse que os campos de Hichilema e Lungu não conseguiram separar questões pessoais e políticas, levando ao impasse actual.

Chiputa alertou que, embora a família tivesse precedência nos preparativos do funeral, o seu desejo de enterrar o antigo líder na África do Sul havia criado uma crise.

“Esta decisão pode abrir um precedente, levando outras famílias de ex-chefes de Estado a exumar e enterrar novamente os seus entes queridos, potencialmente interrompendo a história nacional”, disse.

O governo da Zâmbia quer que Lungu seja enterrado no Cemitério Presidencial Embassy Park, na capital, Lusaka, onde outros ex-líderes do país estão enterrados.
Por enquanto, porém, o local de descanso final de Lungu permanece sem solução. O caso deve retornar ao tribunal sul-africano no próximo dia 4 de Agosto. (DM)

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