Os humoristas lusófonos (Gilmário Vemba, Hugo Sousa e Murilo Couto), impedidos no último domingo de entrar no território moçambicano, alegadamente por falta de visto de actividades culturais, defendem que reuniam condições para realizar as suas actividades no país, até porque não era a primeira vez que visitavam Moçambique com o propósito de fazer espectáculo de comédia.
Em declarações à RTP, após desembarcarem no Aeroporto de Lisboa, esta segunda-feira, os humoristas disseram ainda não entender o que lhes impediu de entrar em Moçambique, um país que visitam frequentemente.
“Até agora ainda estamos para perceber, porque estávamos, obviamente, com todas as condições para chegar e fazer o nosso trabalho. Não é a primeira, nem a segunda e nem a terceira vez que vou para Maputo fazer este tipo de espectáculo e no ano passado estive lá com o mesmo produtor e não tive problemas do género”, afirmou o humorista angolano Gilmário Vemba, um dos impedidos de entrar no território moçambicano.
De acordo com as autoridades migratórias moçambicanas, os humoristas tentaram entrar no país com um visto de turismo, quando pretendiam realizar um espectáculo. “Vieram ao país, mas não obedeceram aos critérios para entrar. Porque eles vinham para dar um espectáculo, um show, portanto, uma actividade cultural”, disse, esta segunda-feira, o Director-Geral do Serviço Nacional de Migração (SENAMI), Zainadine Danane.
Segundo Danane, o promotor do evento em causa deveria “ter solicitado” uma credencial para o espectáculo às autoridades competentes moçambicanas, que posteriormente seria utilizada para o pedido de emissão de visto cultural para entrada no país do mesmo grupo.
“Então, não tendo solicitado esta credencial, é como se esta actividade não existisse. E como é que vais dar um espectáculo se quem devia, se calhar, autorizar, não tem conhecimento? Portanto, estou a fazer menção a questões legais”, sublinhou, citando as alterações à lei de migração, para a emissão de vistos para actividades culturais, feitas em 2022.
No entanto, a Showtime, agência do espectáculo Tons de Comédia, com os humoristas Hugo Sousa (Portugal), Gilmário Vemba (Angola) e Murilo Couto (Brasil), contou a sua versão dos factos. À agência Lusa, disse que a comitiva chegou ao aeroporto da capital moçambicana às 14h40 de domingo, com um espectáculo agendado para as 17h00.
À chegada, os artistas “foram abordados por um agente da autoridade, que solicitou os passaportes da comitiva, alegando que lhes seria concedida prioridade devido à proximidade do ‘show’”, mas, “ao chegarem ao balcão de imigração, o mesmo agente requereu o visto de actividades culturais”, conta a Showtime à Lusa, sublinhando que o objectivo era, no aeroporto, adquirir o visto de actividades culturais e prosseguir viagem e o espectáculo.
Tal não aconteceu porque foram informados por um representante da TAAG (Linhas Aéreas de Angola) de que “a imigração havia pedido que a comitiva fosse devolvida a Luanda”, o que só poderia acontecer na terça-feira. Os artistas, que chegaram a Moçambique provenientes de Luanda, decidiram então “cancelar o espectáculo e fazer o reembolso dos bilhetes, uma vez que não havia uma estimativa clara sobre o tempo que levariam para resolver a questão”.
Pedro Gonçalves, agente do grupo, falou com “o responsável pelo serviço de imigração”, o qual lhe transmitiu que “não seria autorizada a entrada no país e que a comitiva teria de aguardar no aeroporto pelo voo de regresso a Angola, o qual só estaria disponível na terça-feira seguinte”.
O agente disse que o grupo optaria pelo voo da TAP (Transportadora Aérea Portuguesa) para Portugal, que estava agendado para o dia seguinte (esta segunda-feira) e solicitou “que fosse autorizada a entrada temporária do grupo como turistas, a fim de poderem realizar uma refeição, pernoitar no hotel e regressar ao aeroporto na manhã seguinte para embarcar no voo com destino a Lisboa”.
O pedido foi aceite apenas para o agente Pedro, que recusou por estar a acompanhar os artistas. “O grupo passou a noite ali mesmo, no aeroporto”, alimentando-se do que a produção local conseguiu providenciar.
Questionado se o seu barramento no Aeroporto Internacional de Maputo tinha a ver com questões políticas, o humorista angolano, que já demonstrou publicamente o seu apoio ao ex-candidato presidencial Venâncio Mondlane, respondeu nos seguintes termos: “Da minha parte, não consigo afirmar que seja isso [motivações políticas]. Eles alegaram que não tinham o tal visto de actividades culturais. Se sim ou não, não consigo alegar.
“Nós andámos um bocadinho por este mundo e obviamente que nós nos preparámos para todos os países para os quais nos deslocamos, mesmo para garantir que nada de errado aconteça. É uma logística muito grande e não aconteceu em nenhum país, tanto aqui na Europa, nem em Angola, nem em São Tomé, nem em Cabo Verde e não percebemos porquê”, reiterou o humorista angolano, sublinhando que o tratamento recebido em Maputo foi desumano, pois, tiveram de dormir no chão. (Carta/Lusa)





