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Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

1 de July, 2025

Dezenas de famílias ainda vivem no Centro de Acolhimento desde as chuvas do ano passado, na cidade de Maputo

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Mais de trinta famílias do bairro de Magoanine “A”, na cidade de Maputo, ainda permanecem no Centro de Acolhimento por não terem condições para arrendar uma casa, nem meios para regressar às suas residências, que continuam inundadas.

Em termos globais, são cerca de 90 famílias do quarteirão 39 daquela zona residencial, que foram forçadas a desocupar as suas casas devido às chuvas que caíram com intensidade em Março de 2024. Parte destas perdeu a esperança de um dia lá voltar, pois, a situação das águas naquele ponto persiste há mais de 20 anos (desde as cheias de 2000).

A esperança de um dia regressar torna-se cada vez mais remota, visto que os malfeitores vandalizaram todo o sistema eléctrico da maioria das casas e, noutros casos, até o tecto e janelas foram retirados.

“Mesmo que a gente pense em voltar, teríamos de começar praticamente do zero. Aqui há casas cujas paredes desabaram, outras viraram ruínas, e quase todas as casas deste quarteirão já não têm corrente eléctrica. Todos os cabos de instalação foram retirados. Se um dia pensarmos em regressar, talvez tenhamos de solicitar apoio à Electricidade de Moçambique para que faça algo por nós e compreenda a nossa situação”, relatou Eva Domingos, viúva e mãe de três filhos, que perdeu quase tudo com a chuva.

Nesta segunda-feira (30), a equipa da “Carta” visitou o bairro e conseguiu, depois de passar por várias dificuldades, aceder ao interior de algumas residências. Por fim, visitamos o Centro de Acolhimento instalado na Escola Secundária Graça Machel.

Naquele estabelecimento de ensino ainda vivem mais de 30 famílias num local que anteriormente servia como capoeira, sem portas nem janelas. Parte das famílias agradece a boa vontade da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que ajudou com a pintura do espaço e a seguir montou portas e fechou todas as janelas com pedaços de chapas de zinco. No entanto, lamentam o facto de a IURD ter feito a instalação eléctrica e, por ordens superiores, as famílias viverem às escuras, sem energia sequer para carregar os seus telefones.

“Não tenho condições para abandonar este Centro de Acolhimento porque não tenho para onde ir. Sou viúva e não trabalho. Quando estava na minha casa, pelo menos conseguia montar uma banca para garantir o pão dos meus três filhos. Hoje, vivo da boa vontade da família ou de outras pessoas que aqui vivem comigo”, contou Eva Domingos.

“O mais difícil para nós neste espaço é que ninguém olha por nós. Nem o próprio município nunca colocou os pés neste local. Até à época das manifestações pós-eleitorais, o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) vinha trazer arroz, mas, de lá para cá, fomos abandonados à nossa sorte. Não pedimos muito, queremos apenas um espaço, mesmo que nos façam um quarto para viver com os nossos filhos, pois estamos neste vai e vem desde as cheias de 2000. E agora estamos instalados nesta escola desde Março do ano passado”, frisou a entrevistada.

Quase todas as famílias pedem o reforço de bombas para evacuar as águas das suas residências. Algumas sonham em regressar e recomeçar as suas vidas.

“Na minha casa, a água ainda me chega à cintura, e sem ajuda para retirá-la, não tenho como regressar. O pior é que boa parte dos que vivem aqui neste Centro não trabalha. Há irmãs que nem têm o que cozinhar, ficam dois dias sem nada para dar aos filhos. Mesmo que queiramos ajudar é difícil, porque todos estamos praticamente na mesma situação”, disse uma idosa que também se encontra no centro e que preferiu anonimato.

“Neste centro temos algumas famílias que, de tanto estarem aqui, acabaram arriscando e regressaram às suas casas, mesmo sem condições. Outras arrendaram, mas, por falta de dinheiro, acabaram por regressar a este abrigo ”.

Em conversa com Armindo Nhambire, chefe do quarteirão 39, que saiu do centro para arrendar e acabou vendo a sua família dividida em três, contou que, por causa das águas, muitas famílias sofreram de malária, o que levou o Centro de Saúde mais próximo a destacar uma equipa para estar disponível a tempo inteiro no Centro de Acolhimento devido à quantidade de casos.

“Já recebemos várias promessas nesta zona. Foi alocada uma bomba, mas não tem grande efeito, pois, são muitas casas submersas. A bomba, por vezes, fica dois ou três dias sem ser ligada, seja por avaria ou falta de combustível. Mas cá estamos a tentar controlar as nossas casas para que a situação de vandalismo não se agrave”, explicou Nhambire.

A fonte referiu ainda que entre 10 a 15 quarteirões estão no meio da água e as famílias tentam arranjar alojamento em casas arrendadas ou de familiares e apelam ao Governo que faça algo por elas. (M.A)

 

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