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30 de October, 2026

Mutiladas: o que vale uma distinção literária?

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O que tem Mutiladas, de Eduardo Quive, para vencer um prémio literário? Entre os livros que concorreram, o que terá levado o júri a distingui-lo? Será a força dos temas, a forma como o escritor os trabalha ou a capacidade de transformar a violência quotidiana numa interrogação sobre a sociedade moçambicana? O prémio reconhece uma obra, mas a distinção, por si só, não responde a estas perguntas.

Lançado em Maputo, em Maio de 2024, Mutiladas reúne 12 contos distribuídos por 101 páginas. A 8 de Outubro, venceu a quarta edição do Prémio Literário Mia Couto, na categoria de Prosa, enquanto Sangare Okapi foi distinguido na categoria de Poesia, com Utse. Nos contos de Quive, a violência, as desigualdades e as feridas sociais atravessam as relações familiares e os bairros, expondo comportamentos que, de tão habituais, correm o risco de deixar de causar indignação.

Numa conversa anterior, o escritor explicou que a sua geração escreve entre o país que herdou e aquele que deseja construir. Nesse intervalo, permanece uma herança pesada: a violência, os vazios da História e os processos por resolver. Quive chamou-lhe “a doença da inverdade” – não apenas a mentira, mas a inversão ou subversão dos factos, que deixa no espaço público a sensação de que alguma coisa continua por esclarecer, nomear ou assumir.

É a partir destas feridas que a ensaísta Sara Jona Laisse lê Mutiladas. A sua análise detém-se nos narradores, nos espaços e nos conflitos da obra, interrogando as desigualdades, o feminicídio e as formas de desamparo que atravessam as personagens. A questão, porém, não se esgota nos temas que o livro aborda: importa perceber como Eduardo Quive os transforma em literatura e o que, nessa escrita, terá levado o júri a distingui-lo.

A miséria do mundo

Ler Mutiladas recordou-me o modo como a obra Angústia do escritor brasileiro Graciliano Ramos foi escrita: a temática, o tipo de narrador e o facto de abordar a época vivida pelo seu escritor. No seu livro, aquele autor conta os dramas do comportamento humano, através de um narrador-personagem que denuncia modos de agir de pessoas a viverem no seu limite de humanos. A crítica a essa sua obra tem, repetidamente, afirmado que o autor “narra a miséria de estar no mundo”.

Em Mutiladas, a miséria humana é analisada por um dos narradores introspectivo de Quive. O outro narrador, observa-a e relata-a minuciosamente. As acções têm lugar em espaços-representações de Moçambique (Maputo, Chokwe, Gaza e Matola), com reminiscências em Lisboa, por, a partir de lá, o narrador observar e abordar Moçambique.

O comportamento das “pessoas” está na base dos contos. A época fabulada é contemporânea à do seu autor empírico, a julgar pela menção aos my love, aos grupos de WhatsApp, aos smarphones, aos memes, aos emojis, à verificação de status em redes sociais e a feminicídio.  A temática do livro é focada no dia-a-dia, num género literário pós-modernista, marcado pela forma como o real e o imaginário são construídos, bem como o imediatismo e o pano de fundo de um texto com uma linguagem rente à dos média electrónicos nos quais predomina a cultura de massas.

Devastação, desigualdades e dores do mundo

Logo a partir da cor da capa, que é negra, aliada ao seu título, somos avisados de que a matéria abordada pode ter um teor pesado, fúnebre, triste. E é. Coadjuvado a isso e à sugestão de pano de fundo negro, os títulos dos contos também nos remetem à desgraça, nomeadamente: “Decadência”, “Três balas”, “A punição”, “Andar às voltas” e “silêncio”.

Destaco este último título, pelo facto de o silêncio ser sugestivo, tanto de dor, quanto de introspecção, quanto de desejo ou não de ficar sem dizer nada. Essa sugestão de fatalidade, na obra, é, entretanto, camuflada por um tom narrativo leve, de paródia e, por vezes, com recurso ao exagero – enquanto figura de estilo; o que torna a leitura menos dramática, embora acutilante. O título do conto “O cheiro das flores” foi apenas uma estratégia para poupar o coração do leitor; remete, à primeira, à ilusão da beleza, mas não é disso que fala. Trata-se de flores para abafar “o odor insuportável dos falecidos da casa de Sara” (cf. pág. 64). A matéria é muito comovente.

O narrador-personagem, na maior parte das vezes, concentra as falas dos personagens na sua. Faz um monólogo interior, abordando o presente, com alguns recuos para o passado. Vive lembranças, percepções, e, pelo tom com que escreve, denuncia realidades sociais actuais, ignoradas, na vida real, por quem de direito e de dever. É um narrador psicologicamente ruidoso, embora afável nas suas palavras escritas.

A narrativa coloca o leitor perante dramas do quotidiano moçambicano e das suas misérias, vistos na perspectiva dos seus narradores. Critica aspectos aparentemente banais, que nos habituamos a viver, enquanto habitantes de países pobres, como se de problemas não se tratasse. Revela que há necessidade de se prestar atenção ou de se resolver dramas sociais, em contextos factuais. Mutiladas questiona a cidadania dos moçambicanos. A sua actuação enquanto humanos, na defesa da vida.

Trata-se de dramas descritos com mestria. Aliás, a descrição, a observação e a escuta, mostram-se fortes por parte dos narradores deste livro. No primeiro conto, intitulado “Decadência”, há um homem que não o é por inteiro, é sobra de homem, de tão doente que vive. A sua tosse é descrita ao pormenor. A sua esposa é uma sobra de um passado glorioso, portanto, também uma mutilação do que ela vivera, enquanto esposa.

Há um cego que pergunta se os outros não têm olhos para ver. Há nisto um exagero, mas é para demonstrar o quanto a sociedade narrada se encontra mutilada. Há, no segundo conto, intitulado “Três balas”, um bairro que vive o drama de tiroteios e de ladrões que roubam produtos básicos e de primeira necessidade. Um autêntico faroeste. E outra vez com recurso ao exagero, o narrador fala em alguém que foi morto três vezes. Trata-se de gente e de lugares devastados.

As desigualdades, no livro, são narradas de modo recorrente, por exemplo, no conto intitulado “Uma história de família”, fala-se numa família que tem whiskeys com imensos anos de velhice e que tem bastantes televisores que não utiliza (uma família abastada) e outra família pobre, na qual há membros que utilizam o mesmo telemóvel. Nesta última, vive-se sem amor, disputando bens e vivendo desentendimentos que levam à morte.

As desigualdades são também referidas no conto “Passeios da vida”, num texto no qual há meninos com possibilidade de se deslocar a um museu e outros não. Essa impossibilidade é comparada à distância que se situa entre os objectos colocados nas prateleiras ou paredes de um museu, que não podem ser tocados, apenas “sentir-lhes os cheiros e […] observar, experimentar e vivenciá-los” (cf. pág. 89). A desigualdade de acesso faz lembrar a mensagem que se pode ler no poema intitulado “Fábula”, de José Craveirinha, e cito-o, só para contextualizar o que digo, mas é preciso ler Mutiladas para se perceber a razão para a qual o poema é chamado.

Menino gordo comprou um balão

e assoprou

assoprou

assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou

assoprou

assoprou

o balão inchou

inchou

e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos

e fizeram balõezinhos.

Craveirinha (1995a:14)

Angústia e o questionamento do status quo

A angústia que mais comove ou desconcerta o leitor, nesta obra, é o feminicídio. “Destina” e “Cláudia”, mulheres cujos nomes são, também, títulos de contos, são vítimas das sagas desta época. Barbaramente assassinadas por violação sexual, crime que, tal como o narrador o aborda, é depois relatado, por alguns personagens, como se nada fosse.

Temos visto, em contexto real, em Moçambique, depoimentos similares aos mencionados no livro, agressores a falarem sobre a violação sexual, quase que sem culpa, sem arrependimento; como se de uma brincadeira se tratasse. O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporânea.

O tipo de crime narrado recorda-me um outro, o dos raptos, fabulado por Miguel Luís, outro escritor moçambicano, na sua obra O Desamparo das flores. Ambas as transgressões suplantam a capacidade de contenção por parte dos agentes policiais em Moçambique, em contexto real.

Vivemos, portanto, numa sociedade mutilada e a pedir socorro! A resposta aos gritos tem sido quase silenciosa, quase muda e sem expressão, ante o agravamento dos acontecimentos diários. Quive convida-nos a reflectir sobre o país em que hoje vivemos, cheio de atrocidades sociais, desde as que parecem menores, até às de grande vulto que acontecem à luz do dia.

O autor empírico de Mutiladas faz uma cartografia da dor e da miséria humana, com laivos de realismo. É inconformado com o “estado das coisas”. Nesta obra retoma o debate da sua anterior, intitulada Para onde foram os vivos, numa alusão ao abandono de corpos e de lugares, nos quais a violência, o silêncio ante a dor e o desespero tomam conta de todos.

No conto já referido, o “Cheiro das flores”, do livro Mutiladas, o narrador mostra-se um bom ouvinte, a morte e a extirpação são o reflexo dos espaços nos quais se pode questionar onde é que andam os vivos, porque estes, vivem “mutilados no corpo e na alma” (cf. pág. 63 de Mutiladas).

Eduardo Quive é este escritor, poeta, jornalista, activista social e “agitador” cultural que acredita na arte como possibilidade de diálogo com a sociedade, através de uma linguagem, que sendo a habitual do dia-a-dia, talvez ajude a repor a “ordem natural das coisas”.  Esta obra demonstra o observador atento que é o seu autor empírico.

A todos, desejo uma boa leitura esperando que o trabalho de Quive seja o grito que, juntando-se a outros que têm sido feitos, através de factos ou pela literatura, nos permitam viver uma sociedade livre da violência. Que a arte continue a iluminar a vida. (Reinaldo Luís & Sara Jona Laisse)

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