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6 de October, 2026

Crise diplomática EUA-RSA: em nove meses, embaixador norte-americano convocado pela terceira vez pelo governo sul-africano

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O Ministério das Relações Exteriores da África do Sul (Dirco) convocou o embaixador dos Estados Unidos da América (EUA), Leo Brent Bozell III, na terça-feira (29), pela terceira vez, para prestar esclarecimentos sobre o que descreveu como “conduta anti-diplomática”.

A démarche, emitida na terça-feira, seguiu-se a uma série de declarações em que Bozell criticou a forma como o governo sul-africano lidou com as demandas de Washington. “Podemos confirmar que fizemos uma démarche ao embaixador Bozell – a terceira démarche desde que ele iniciou as suas funções há nove meses”, disse um alto funcionário do Dirco na noite do mesmo dia.

Em entrevistas recentes à imprensa, ele atacou de forma contundente o governo de Pretória, que foi obrigado a chamá-lo para uma reprimenda formal. O mesmo funcionário afirmou que ambos os países permanecem comprometidos em resolver as questões bilaterais pendentes. Em março, Bozell recebeu uma démarche por declarações sobre as actuais directrizes políticas da África do Sul. Uma démarche é um protesto diplomático formal de um governo para outro.

Bozell, um activista e escritor conservador que chegou a Pretória em Fevereiro como embaixador da administração Trump, foi chamado pela primeira vez poucas semanas após assumir o cargo por causa de comentários que, segundo o Dirco, minaram o judiciário e o contexto histórico da África do Sul.

Há duas semanas, os EUA revelaram restrições de visto para alguns sul-africanos, como sinal de uma das mais contundentes repreensões até ao momento ao governo de Pretória, com o embaixador Leo Brent Bozell II alertando que Washington “perdeu a paciência” após a África do Sul não ter respondido a demandas cruciais para redefinir as relações tensas e alertando que mais pressão poderia vir.

A África do Sul manteve a disposição de participar das negociações, mas afirma que a sua soberania deve ser respeitada e que não abrirá mão de prioridades internas, como o combate às injustiças históricas. Num artigo de opinião bastante contundente, intitulado “O Custo da Inércia”, Bozell afirmou que a nova política de restrição de vistos anunciada pelo Secretário de Estado Marco Rubio em 15 de Setembro foi uma consequência directa da recusa de Pretória em dialogar sobre questões que vão desde ataques a farmeiros até investimentos estrangeiros.

“O governo sul-africano não quer uma relação construtiva com os Estados Unidos da América”, escreveu Bozell. “Numa altura em que o povo sul-africano mais precisa de investimentos americanos, o governo sul-africano está a rejeitar uma parceria com os Estados Unidos. Este é o custo da inércia”.

As cinco exigências

Bozell revelou que Washington apresentou cinco condições em Novembro de 2025 para redefinir as relações: não interferência no processamento de refugiados afrikaners; rejeição de desapropriações de terras sem indemnização; condenação do grito “Matem o fazendeiro! Matem o bôer!”; designação formal do crime rural como crime prioritário, com planos de financiamento para combatê-lo; e expansão dos programas de investimento equivalentes em capital (EEIP) para sectores como telecomunicações e mineração.

Embora os dois primeiros pontos tenham sido “mais ou menos resolvidos”, Bozell afirmou que o silêncio de Pretória sobre os três restantes era inaceitável. “Os fazendeiros sul-africanos vivem com medo, portando armas de fogo durante o dia e dormindo com armas carregadas ao lado do corpo. Como é que o governo sul-africano explica isso ao seu povo quando o presidente se recusa a condenar tal prática?”

Bozell confirmou que as restrições de visto visam cidadãos sul-africanos cúmplices de políticas que permitem discriminação racial, desapropriações de terras sem indemnização ou incitação à violência contra minorias. “Esta política de restrição de vistos é uma primeira resposta, calibrada e específica. Mas não vou fingir que é a palavra final”, alertou.

Alegações rejeitadas

Pretória tem rejeitado consistentemente as alegações de discriminação sistémica, com o presidente Cyril Ramaphosa insistindo que “não há evidências de perseguição contra pessoas brancas” e alertando que narrativas de vitimização branca ameaçam a unidade pós-apartheid. Ramaphosa já havia afirmado que “não há evidências de perseguição contra pessoas brancas” e alertou que tais alegações ameaçam a unidade nacional.

O embaixador enfatizou que a disputa não é com os sul-africanos comuns, mas com a política governamental. “Não temos nada contra o jovem empreendedor em Soweto, o vinicultor nos arredores de Stellenbosch ou o engenheiro de software em Durban que tenta construir uma vida melhor. A nossa discordância é com o governo que continua a colocar a sua ideologia acima de seu próprio povo”.

Bozell alertou que a África do Sul corre o risco de perder biliões de dólares em potenciais investimentos americanos em minerais críticos, cooperação energética e telecomunicações. “A questão não é quantas empresas americanas conseguiram resistir ao ambiente regulatório oneroso e ineficiente baseado em raça [necessário para fazer negócios na África do Sul ]. A questão é quantas empresas não estão a investir na África do Sul unicamente por causa desses obstáculos adicionais cujo número é considerável”.

Bozell concluiu com um apelo directo: “já passou da hora de o governo sul-africano deixar de lado as suas posturas ideológicas e colocar o seu povo em primeiro lugar”. Recorde-se que o Presidente dos EUA, Donald Trump, tem atacado a África do Sul em diversas questões desde que retornou à Casa Branca em Janeiro, fazendo alegações desmentidas de que os afrikaners brancos estariam a ser sistematicamente “mortos e massacrados” no país. Trump surpreendeu Ramaphosa no Salão Oval no início do ano passado, exibindo um vídeo no qual alegava uma campanha contra fazendeiros brancos pelo governo pós–apartheid.

Os sul-africanos brancos são, em média, mais ricos e têm maior probabilidade de estarem empregados do que os sul-africanos negros. As políticas governamentais criticadas por Trump visam abordar as desigualdades que persistem desde a era do apartheid.

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