Organizações da Sociedade Civil e empresários da província de Cabo Delgado manifestam o seu descontentamento em relação ao modelo de implementação do programa de formação de 260 jovens nacionais, promovido pela TotalEnergies, com vista a reforçar a mão-de-obra no projecto de exploração do gás natural, no distrito de Palma. A formação será realizada na cidade de Maputo.
Em comunicado de imprensa emitido na sexta-feira, em Pemba, capital provincial de Cabo Delgado, as organizações da sociedade civil representadas pelo Fórum das Organizações da Sociedade Civil de Cabo Delgado (FOCADE) defendem que a decisão de realizar a formação fora de Cabo Delgado ignora as necessidades e expectativas dos jovens da província, particularmente daqueles que directamente estão afectados pelo conflito armado e que aguardam oportunidades de capacitação próximas das suas comunidades.
Em causa está o anúncio, na semana passada, de um investimento total de 191,5 milhões de Meticais, a serem alocados pela TotalEnergies para o Ministério da Educação e Cultura, para, através do Instituto Industrial e Comercial da Matola, formar 260 jovens em áreas de qualificação e certificação internacional para projectos energéticos.
Segundo as organizações da sociedade civil de Cabo Delgado, os investimentos ligados aos projectos de gás natural devem privilegiar a criação de oportunidades locais, contribuindo para o fortalecimento das instituições de formação profissional e para a dinamização da economia provincial. Para elas, a descentralização das acções de capacitação permitiria maior inclusão e reduziria os custos de deslocação e permanência dos participantes.
O Conselho Económico Provincial (CEP), uma representação local da CTA, na província de Cabo Delgado, também manifesta indignação pela decisão, admitindo que a medida vai contra os objetivos de conteúdo local. O representante da CTA em Cabo Delgado, Muamudo Irache, disse, em conferência de imprensa, não se tratar de regionalismo, mas de questões de inclusão e criação de oportunidades para a população e o empresariado da província.
“Como CTA esperava que fosse materializar a construção de um Instituto, em Palma, mas é uma surpresa grande levar-se a formação para Maputo. E a província de Cabo Delgado, o que ganha com isso?”, questionou o empresário, observando que só na fase de construção e apetrechamento da infra-estrutura seria uma chance para o sector privado fazer algum encaixe financeiro.
Aliás, os empresários entendem que o apoio da TotalEnergies, em Cabo Delgado, é muito insignificante, quando comparado com o que a petroquímica francesa oferece à região sul. Afirmam, por exemplo, não ter visto qualquer ajuda oferecida pela multinacional às vítimas do ciclone Chico, no distrito de Mecúfi, mas viram uma grande mobilização para apoiar as vítimas das cheias, na província de Gaza.
Para os empresários e a sociedade civil de Cabo Delgado, uma advocacia e um diálogo forte podem mudar o rumo das coisas muito antes da implementação, pois, no seu entender, é chegado o momento de a província de Cabo Delgado se beneficiar de centros de formação qualificados para responder o mercado do gás.





