O Conselho Nacional de Transição, um órgão político, legislativo e de fiscalização da Guiné-Bissau, criado pelos militares na sequência do Golpe de Estado de Novembro de 2025, acusa o Chefe de Estado moçambicano, Daniel Chapo, de “imiscuir-se nas decisões soberanas” da justiça guineense e “apoiar posições contra” àquele povo lusófono.
A posição dos militares guineenses consta de um comunicado emitido na última sexta-feira, no qual o grupo que comanda aquele país da África Ocidental reage às declarações do Chefe de Estado moçambicano feitas à RTP, em uma entrevista concedida àquele canal português no âmbito da sua recente visita oficial à Portugal, a quarta desde a sua tomada de posse.
Na referida entrevista, Chapo foi questionado sobre a suspensão da Guiné-Bissau da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) – na sequência do golpe de Estado de 26 de Novembro de 2025 – e da detenção de Domingos Simões Pereira, líder do partido PAIGC, ocorrida no passado dia 10 de Julho, ao que respondeu:
“O caso da Guiné-Bissau é um desafio para a nossa comunidade. Não é pela primeira vez, é um país que tem tido instabilidades políticas, principalmente [nos períodos] pós-eleitorais e, como comunidade, achamos que temos que continuar a trabalhar para podermos resolver esta questão política o mais rápido possível, porque é o país que estava a presidir a CPLP”, disse Daniel Chapo, comentando a seguir a detenção de Domingos Simões Pereira.
“Esta prisão do Dr. Domingos Simões Pereira é uma prisão que precisamos analisar e, em função disso, podermos analisar qual o trabalho que deve ser feito, quer a nível diplomático ou a nível das relações entre os países da CPLP por forma a encontrarmos uma solução que possa ajudar a comunidade, pois, quando se trata de uma situação em que temos um país que estava a presidir e tem esta instabilidade política, que até hoje não se resolve definitivamente, é uma preocupação para todos nós. O mais importante é que encarremos isto como uma preocupação, como países membros da CPLP, e possamos encontrar uma solução que possa nos colocar numa posição vantajosa. Ultrapassada esta situação, julgo ser importante que situações como estas não possam acontecer na nossa comunidade”.
As declarações não agradaram o Conselho Nacional de Transição, que tratou de emitir uma nota de repúdio ao posicionamento do Chefe de Estado. Disse que as declarações de Chapo são “patéticas e abusivas” e que o seu posicionamento é um acto de “puro atrevimento e pretensiosismo”.
Para o órgão que dirige aquele país lusófono, Daniel Chapo não tem autoridade moral para dar lições de moral. “A Guiné-Bissau recusa liminarmente lições de moral e de democracia vindas de quem carece de estofo, legitimidade e autoridade moral, repondo a verdade factual sobre a mediocridade política deste indivíduo”, afirma o órgão, considerando Chapo de “ingrato”.
“Convém recordar ao mundo a humilhação internacional sofrida por Daniel Chapo na sua própria tomada de posse. Uma cerimónia vergonhosa em que toda CPLP lhe virou às costas, com as ausências declaradas e sonoras dos Chefes de Estado do Brasil, Angola, Portugal, Cabo Verde, entre outros. O único que teve a coragem e dignidade de lá estar, estendendo a mão ao povo moçambicano numa altura em que as ruas ecoavam com tiros, caos e forte contestação popular, foi o Presidente da Guiné-Bissau. Em troca dessa solidariedade, a Guiné-Bissau foi alvo de insultos por parte daqueles que preferem ser ‘carneiros’ do politicamente correcto da CPLP. Esta é a ingratidão e a baixeza de Daniel Chapo”, diz a nota.
“É de um ridículo sem precedentes que Daniel Chapo tente apontar o dedo à Guiné-Bissau quando o seu próprio país, Moçambique, está a ferro e fogo, dilacerado por uma guerrilha sangrenta e pelo terrorismo que a sua administração se mostra incapaz de resolver. Um governante que não consegue garantir a segurança, ordem e paz dos seus próprios cidadãos deveria ter a decência de se fechar no seu palácio e trabalhar, em vez de meter nariz nos assuntos de um Estado soberano e estável como a Guiné-Bissau”, acrescenta o Conselho Nacional de Transição da Guiné-Bissau.
Refira-se que a Guiné-Bissau está suspensa das actividades da CPLP desde 16 de Dezembro, uma medida oficializada durante a I Conferência Extraordinária de Chefes de Estado e de Governo, realizada em formato virtual. A resolução, assinada pelos líderes da lusofonia, fundamenta a decisão no artigo 7.º dos Estatutos da CPLP, que prevê sanções perante casos de “violação grave da ordem constitucional num Estado-Membro”. O documento sublinha que a suspensão vigorará até que se verifique a “retoma da ordem constitucional” no país. (Carta)




