As cheias e inundações provocadas pelas chuvas intensas que têm vindo a cair em todo o país “engoliram” os armazéns de medicamentos e produtos médicos de Chókwé e Xai-Xai, na província de Gaza, tendo sido afectados dezenas de unidades de saúde e deixado milhares de pessoas vulneráveis a várias doenças.
Com dezenas de estradas intransitáveis ou com tráfego condicionado, a logística de medicamentos foi severamente afectada. Por consequência, há ruptura de stocks de medicamentos, principalmente, nas zonas afectadas.
Estas informações foram dadas pela directora-geral da Central de Medicamentos e Artigos Médicos (CMAM), Noémia Escrivão, em entrevista exclusiva concedida à “Carta”.
Segundo Escrivão, em Chókwé, o armazém foi completamente inundado e perderam-se todos os medicamentos e produtos médicos, enquanto em Xai-Xai, as autoridades de saúde conseguiram transferir, a tempo, os medicamentos para o armazém do distrito de Chongoene, sul da província de Gaza.
O agravante é que dezenas de estradas, principalmente a EN1, encontram-se intransitáveis ou com transitabilidade condicionada, o que dificulta a reposição dos fármacos.
“A logística de medicamentos está afectada por esta situação que considero desastrosa. Está afectada não só por causa das estradas, mas também porque perdemos medicamentos. Em Chókwé, por exemplo, não conseguimos tirar medicamentos, a tempo, do armazém e isso condiciona a disponibilidade de medicamentos para as pessoas. Estamos extremamente preocupados com a situação”, disse a directora-geral da CMAM.
Dados facultados pela gestora indicam que, com o armazém de Chókwé inundado, foram afectadas 28 unidades sanitárias dependentes, incluindo o Hospital Rural local. Esta situação deixou vulneráveis milhares de cidadãos que dependem dessas unidades sanitárias, principalmente doentes crónicos, mães gestantes e crianças.
Escrivão não precisou a quantidade de medicamentos e artigos médicos engolidos pelas águas em Chókwé, mas estimou que foram perdidos fármacos que iriam servir durante cerca de seis meses, pois, antes das cheias, o armazém acabava de receber medicamentos para três meses.
Ruptura de stocks pode afectar todo o país
Segundo a entrevistada, a CMAM não estava preparada para a magnitude do impacto das cheias e inundações na logística de medicamentos e, por isso, além das zonas afectadas, considera que poderá haver ruptura de stocks noutras regiões do país, facto a ser agravado pelas condições financeiras.
Mesmo sem avançar números, a gestora deu a entender que a instituição que dirige tem tido défice para fazer chegar os fármacos e artigos médicos até aos doentes nas mais de 1.900 unidades sanitárias em todo o país.
“Poderá haver ruptura de stocks, não só nas zonas afectadas, mas em qualquer outro sítio. As rupturas de stocks fazem parte do nosso dia-a-dia. Nós não temos condições financeiras para garantir que existam todos os medicamentos que precisamos. Entretanto, precisamos de trabalhar para priorizar os medicamentos mais necessários. Pode, por exemplo, faltar um paracetamol comprimido, porque pode-se comprar em farmácia privada, mas não pode faltar o injectável para internados”, disse Escrivão.
A nossa entrevistada acrescentou que a ruptura de stock faz parte do quotidiano da CMAM, como entidade responsável pelo aprovisionamento de medicamentos e há várias intervenções que deverão ser levadas a cabo, para repor os danos causados pelas cheias e inundações. Todavia, reiterou que a CMAM vai envidar esforços para que os medicamentos mais necessários, nomeadamente, de uso intra-hospitalar, estejam disponíveis para os doentes que chegam ao hospital com quadro clínico grave e os internados.
Para garantir o abastecimento dos medicamentos e produtos médicos mais necessários, a directora-geral da CMAM disse que nos últimos dias, a instituição tem recorrido à via aérea, apesar das suas limitações.
Segundo a entrevistada, por via aérea, a CMAM só consegue enviar para Xai-Xai medicamentos para um mês, contra três meses ideais, porque para atender as necessidades das vítimas das cheias e inundações, o transporte aéreo tem que transportar outros produtos como comida e produtos de higiene e limpeza, além de medicamentos.
Além dessa via, afirmou que a instituição que dirige também está “atenta” ao transporte marítimo e ferroviário, vias recorridas nos últimos dias para a logística humanitária e comercial, bem como o transporte de passageiros.
EUA retomaram apoio a CMAM
Durante a entrevista, “Carta” procurou saber sobre a ajuda financeira dos Estados Unidos da América (EUA) suspensa no princípio do ano passado pelo Governo liderado por Donald Trump. A decisão significaria um corte de 5 mil milhões de USD para o transporte de medicamentos dos armazéns provinciais para as unidades sanitárias.
Sobre a matéria, a directora-geral da CMAM explicou que os EUA retomaram, o apoio financeiro ao sector da saúde em Moçambique, disponibilizando cerca de 1.7 mil milhões de USD para os próximos cinco anos, promovendo o fortalecimento institucional, emergências de saúde e gestão de recursos humanos.
CMAM preparada para rastreio de medicamentos
Durante a entrevista, afloramos igualmente o rastreio de medicamentos. Em Julho de 2025, o Governo anunciou a implementação do sistema de rastreamento de produtos de saúde, com destaque para os medicamentos, por forma a reforçar o combate ao contrabando, roubo e desvio de medicamentos, assim como a contrafacção de medicamentos. O sistema irá permitir acompanhar cada lote de medicamentos, desde a fábrica até ao paciente, contribuindo para o uso racional dos fármacos.
Questionada sobre o estágio de implementação do sistema, a gestora explicou que os técnicos da CMAM já receberam formação sobre a matéria. Ressalvou, entretanto, que ao nível da instituição, o sistema ainda não está operacional, porque só este ano e, concretamente no dia 21 de Janeiro de 2026, é que a CMAM lançou um concurso para o fornecimento de medicamentos, incluindo condições para o rastreio dos fármacos. Todavia, para mais detalhes remeteu a Autoridade Nacional Reguladora de Medicamentos (ANARME), principal responsável pela implementação do sistema.
A CMAM é uma instituição de Logística Farmacêutica, tutelada pelo Ministério da Saúde, fundada a 6 de Setembro de 1975 pelo Decreto Presidencial n˚13/75, de 6 de Setembro. Há 50 anos tem a missão exclusiva de planificação, aquisição, armazenagem, conservação e distribuição de medicamentos, artigos médicos e outros produtos essenciais de saúde ao Serviço Nacional de Saúde em todo território nacional. (Evaristo Chilingue)





