Moçambique parou ontem para celebrar 50 anos da sua independência nacional, proclamada a 25 de Junho de 1975, por Samora Moisés Machel, primeiro Presidente da República de Moçambique. A cerimónia central decorreu no Estádio da Machava, o mesmo local onde há 50 anos foi declarado o fim do colonialismo português.
“Carta” esteve na baixa do Infulene, no município da Matola, província de Maputo, local onde foi construído o agora Estádio da Independência Nacional. Logo pelas 08h00 já era visível a movimentação de pessoas e viaturas, que se deslocavam ao local para testemunhar a festa da independência nacional e reviver a história do país.
Logo à entrada, era visível a preocupação da organização com a segurança dos presentes. O acesso ao Estádio era feito após uma minuciosa revista, que inclua vasculha de bolsas e uso de detectores de metais.
Após passarmos por esse controlo, deparámo-nos, à primeira vista, com vários grupos de cidadãos trajados com camisetas e bonés de cores diferentes, entre o vermelho, amarelo, verde e branco, parte das cinco cores da bandeira nacional. Porém, as camisetas e os bonés continham um denominador comum: a fotografia do Presidente da República, Daniel Chapo.
Estes grupos eram compostos por membros e simpatizantes da Frelimo, transportados em autocarros disponibilizados pelo Governo, vindos de diferentes bairros da área metropolitana do Grande Maputo. O Governo esperava 40 mil pessoas, mas estiveram no recinto pouco mais da metade da capacidade de lotação do Estádio.
Na sua maioria, os grupos eram compostos por pessoas idosas, com idades superiores a 60 anos, que afirmavam ter sido convocadas pelos líderes dos seus bairros para os representar. Algumas recebiam uma sandes, sumo e água; outras recorriam às moedas que haviam trazido de casa para se desenrascar.
Maria Machava, de 65 anos de idade, residente no bairro de Chinonanquila, em Boane, é uma das idosas mobilizadas ao evento. “Fomos convocados pelos chefes de quarteirão, secretários do bairro, e foi disponibilizado transporte para as pessoas devidamente indicadas para ir ao Estádio. Muitos aderiram à iniciativa. Ao entrar no transporte, distribuíram bonés e camisetes com a foto do Presidente, para estarmos devidamente identificados. Quando entrámos no Estádio, recebemos instruções para nos sentarmos todos juntos, facilitando o regresso às nossas casas”, contou.
Para além deste grupo social, encontrámos no Estádio da Machava (hoje de Independência Nacional), funcionários de vários ministérios, devidamente identificados com camisas ou camisetas representativas das suas instituições. À “Carta” asseguraram que os ministérios disponibilizaram os autocarros habitualmente utilizados para o transporte dos trabalhadores.
Quase todos os autocarros das entidades públicas da cidade e província de Maputo foram mobilizados ao evento, desde os serviços distritais de educação até aos serviços distritais da saúde. No entanto, o velho problema do estacionamento voltou a evidenciar-se, com dezenas de viaturas estacionadas à maneira dos condutores. Aliás, o parque de estacionamento exclusivo preparado para os convidados de honra sequer foi usado.
Os órgãos sociais do partido no poder também exibiram-se ao mais alto nível, da organização continuadores de Moçambique até aos veteranos da luta de libertação nacional. Aliás, na sua saudação aos presentes, o Chefe de Estado, que é Presidente da Frelimo, não esqueceu a saudação partidária, quando se dirigia ao Secretário-Geral do seu partido. “Camarada Chakil Aboobacar, Secretário-Geral da Frelimo”, disse Chapo para o espanto de alguns cidadãos.
Num dia de festa da nação, as empresas também aproveitaram o momento para se exibir ao público, expondo os seus negócios. O ambiente era de festa, embora as bancadas estivessem parcialmente despedidas de gente.
Após a entrada do Presidente da República, decidimos sair para o exterior, onde notámos que os seguranças que realizavam as revistas nas entradas do Estádio haviam abandonado os seus postos, deixando o acesso livre à qualquer indivíduo.
Festa no exterior que no interior do Estádio
Curiosamente, no exterior parecia haver mais gente do que no interior. Talvez devido à feira que ali decorria: gastronomia, venda de roupas usadas, cosméticos, especiarias, iogurtes caseiros, hortaliças e diferentes tipos de gado.
O tradicional e famoso “xibutxana” (carne de porco nacional) não faltou, servido ao gosto do cliente. Conversámos com Lau Medeiros, uma das vendedoras de refeições, que relatou estar a vender desde as 15h00 da terça-feira, 24 de Junho, tendo comercializado durante a noite anterior ao dia 25 de Junho. Às 14h00 do dia 25, já se considerava satisfeita com os ganhos obtidos.
“Encontrei uma oportunidade para faturar mais. Costumo cozinhar para grandes casamentos e quase todos os fins-de-semana tenho solicitações. Mas, em dias úteis, confeciono comida e vendo numa das avenidas de Maputo. O que consegui faturar aqui em 24 horas, só costumo fazer em dois dias”, afirmou sorridente.
Muitos aproveitaram o evento para aumentar os seus rendimentos. Os vendedores estavam organizados por sectores: frangos, carne de porco, hambúrgueres, entre outros. Senhoras com baldes de bolinhos fritos e assados também se acomodaram em grupos organizados.
Houve ainda espaço para a Direcção Nacional de Identificação Civil (DNIC) e o Serviço Nacional de Migração (SENAMI) prestassem os serviços de emissão do Bilhete de Identidade (BI) e do passaporte, respectivamente. Como é habitual, não faltaram filas, nem os prazos típicos de levantamento.
Conversámos com Laicínia de Legário, uma jovem que preferiu permanecer no exterior do estádio. Para ela, esta data representa apenas mais um feriado comum. “Não tenho motivos para celebrar a independência. Estou aqui como se fosse um feriado qualquer. Que independência temos hoje, se ainda dependemos da Tailândia para o arroz? Da África do Sul para a batata, a cebola e o óleo, e usamos roupa em segunda mão? O sapato que calçamos é chinês. Somos independentes com uma forte dependência de outros países”, defendeu.
Aliás, a ideia de que o país ainda vive uma dependência não é apenas de Laicínia Legário. Júlio Manguele (nome fictício) é docente, cresceu na cidade de Maputo e nasceu cinco anos antes da proclamação da independência. Entende que “continuamos a viver uma independência dependente”.
“Etimologicamente, independência pode ser sinónimo de liberdade, emancipação, mas pelo rumo do país ao longo destes 50 anos, parece que estamos a caminho da servidão. A partir do momento em que, em 50 anos, o condutor ou o guia do país continua a ser o mesmo, é óbvio que não se podem assinalar mudanças substanciais nesse período”, destacou.
Refira-se que o evento sofreu um atraso de 1h30m. Estava agendado para iniciar às 10h30m, mas só arrancou perto das 12h00. O Chefe de Estado deixou o local por volta das 15h30m. À saída, não faltou o habitual engarrafamento, com todos a tentarem abandonar o recinto ao mesmo tempo. (Marta Afonso)




