Carta aos Moçambicanos
Hoje, mais cedo, ouvia a música “Moçambique é Maningue Nice”, dos Mendes Brothers — uma homenagem à paz e ao progresso do nosso país. Ao ouvir, fui transportado para um Moçambique que, mesmo dilacerado pela guerra de 16 anos, se erguia com amor, perdão e esperança. Um Moçambique que respirava paz e coragem, e que transmitia ao mundo uma mensagem única de superação e fé num futuro melhor.
Lembro-me com saudade de um tempo em que sonhávamos juntos. Em que, mesmo pobres, éramos ricos de orgulho e dignidade. Em que a nossa identidade era construída sobre a força de um povo que transformou o sofrimento em união — e o passado difícil numa bandeira de esperança.
Recordo-me das viagens com amigos para Bilene, Ponta do Ouro e Inhambane, onde debatíamos a Agenda 2025, com brilho nos olhos, convictos de que estávamos a desenhar o futuro.
Tínhamos um sonho colectivo.
Mas os anos passaram e, de algum modo, perdemos esse sonho de vista. Deixámos que diferenças partidárias nos separassem. Esquecemos que o projeto de nação é maior do que qualquer cor, ideologia ou liderança. Feridas antigas voltaram a abrir-se e, hoje, dói ver a divisão, a desconfiança e a falta de esperança de que tomaram conta de muitos compatriotas.
Moçambique está fragmentado. A nossa autoestima enfraqueceu. O patriotismo — que antes era orgulho e missão comum — confundiu-se com trincheiras políticas.
É doloroso ver moçambicanos que já foram irmãos tornarem-se estranhos entre si.
Mas ainda é tempo de parar.
Ainda é tempo de regressar ao espírito que nos guiou após os Acordos de Paz assinados pelo Presidente Joaquim Alberto Chissano e o líder Afonso Dhlakama. Naquele momento, fomos um só povo, com um só propósito: tornar Moçambique maningue nice e próspero.
Hoje, enfrentamos grandes desafios — violência, corrupção, perda de valores, desconfiança. Mas muitos desses problemas não dependem apenas de políticos; dependem de nós, cidadãos.
Não basta votar. Ser cidadão é participar, contribuir, cuidar, construir — com ou sem políticos.
Moçambique prepara-se para uma nova fase de exploração de recursos naturais, com potencial para transformar a nossa realidade social e económica. Mas isso não será possível se continuarmos divididos, negativos e descrentes.
Temos de recuperar o orgulho de ser moçambicano.
Temos de reconstruir a confiança, o respeito e o amor à nossa pátria.
Temos de recordar que a nossa maior força sempre foi a nossa humanidade, a nossa paz e a nossa capacidade de sonhar juntos.
É hora de arregaçar as mangas.
De deixar a amargura e o “bota-abaixo”.
De voltar a ser um povo que sorri, que acredita, que acolhe, que constrói.
Aos nossos mais velhos, que tiveram a oportunidade de servir o país, pedimos serenidade e responsabilidade — porque a experiência deve ser luz, não combustível para a divisão.
Moçambique é maningue nice. Mas só continuará a sê-lo se cada um de nós voltar a sê-lo também.
Moçambicanos e moçambicanas, o futuro ainda nos chama.
E é juntos que o vamos construir.
Abraços e Beijos





