Um estudo da autoria do jornalista Armando Nhantumbo,sobre a crise pós-eleitoral vivida em Moçambique entre Outubro de 2024 e Janeiro de 2025, analisa como o principal rosto da oposição no país, Venâncio Mondlane, utilizou as plataformas digitais para confrontar o regime político vigente, fomentando espaço para a participação política dissidente.
Utilizando métodos de etnografia digital, observação e análises de conteúdo e temáticas, o estudo identifica uma “utilização estratégica” das redes sociais para a participação política dos cidadãos, identificando seis métodos utilizados pelo então candidato presidencial para mobilizar cidadãos e transformar o envolvimento digital em manifestações de rua,que se prolongaram por cerca de três meses.
Intitulado Mozambique’s politics in the digital age: Venâncio Mondlane and a framework for participation under authoritarianism (A política moçambicana na era digital: Venâncio Mondlane e um modelo de participação sob o autoritarismo), o estudo analisa a forma como Venâncio Mondlane recorreu às plataformas digitais para mobilizar cidadãos durante os protestos contra os resultados das eleições de 9 de Outubro de 2024, num contexto marcado por alegações de fraude eleitoral, falta de transparência e repressão policial.
Armando Nhantumbo, doutorando da Escola de Jornalismo e Estudos dos Media da Universidade de Rhodes, em Makhanda, África do Sul, identifica seis mecanismos que sustentaram a estratégia de mobilização do actual Presidente do ANAMOLA: enxurrada informativa, amplificação colectiva, retórica afectiva, encenação, criação de identidade de marca e diversificação táctica.
Em conjunto, defende, estas seis estratégias permitiram manter a atenção pública sobre os protestos e estimular a participação dos cidadãos tanto no espaço digital como nas ruas. O estudo descreve a “enxurrada informativa” como a publicação frequente de transmissões em directo, mensagens, vídeos curtos e outros conteúdos destinados a manter os protestos na agenda pública.
De acordo com a pesquisa, entre 22 de Outubro de 2024 e 17 de Janeiro de 2025, Venâncio António Bila Mondlane realizou pelo menos 17 transmissões em directo no Facebook, com uma duração média de uma hora. “Ele manteve uma média de pelo menos uma transmissão ao vivo por semana, com algumas excepções. Por exemplo, de 22 de Outubro a 16 de Dezembro, ele realizou pelo menos uma transmissão ao vivo por semana; ele fez duas transmissões na quarta semana de Outubro (22 e 24 de Outubro) e na terceira semana de Novembro (11 e 15 de Novembro) com duração média de 1 hora”, defende.
Por sua vez, a estratégia de “amplificação colectiva” consisteem incentivar os seguidores a partilharem as transmissões e os respectivos links com outros utilizadores, incluindo em grupos do WhatsApp, de modo a alargar o alcance das mensagens. O estudo revela que a página de Facebook de Venâncio Mondlane atingiu um milhão de seguidores no dia16 de Novembro de 2024, menos de um mês depois do início das transmissões regulares orientadas para a mobilização dos protestos. O seu canal no WhatsApp ultrapassou os 160 mil seguidores a 2 de Dezembro do mesmo ano.
Já a “retórica afectiva”, explica, caracteriza-se por mensagens dirigidas às preocupações de diferentes grupos sociais. O estudo refere que Mondlane procurava associar a contestação eleitoral a problemas que afectavam diferentes sectores, como os funcionários públicos, os trabalhadores informais, os transportadores e a comunidade empresarial, incluindo a questão dos raptos. Com esta abordagem,procurava alargar a base de apoio para além dos seus apoiantes directos e dos membros da oposição.
Outras duas estratégias identificadas por Armando Nhantumbo são a “encenação” e a “criação de identidade de marca”. O jornalista explica que a primeira consistia em dividir os protestos em fases sucessivas, enquanto a segunda passava pela atribuição de designações específicas a essas etapas, como “4×4”, “Turbo V8” e “Ponta de Lança”. O objectivo era renovar a atenção pública, transmitir a ideia de progressão da mobilização e evitar que os protestos perdessem força.
Já a “diversificação táctica” envolvia a introdução de diferentes formas de manifestação, para além das marchas de rua. Entre as acções descritas no estudo, estão o bater de panelas e outros objectos; aplausos; gritos; o uso de buzinas, apitos e vuvuzelas; o estacionamento de viaturas nas vias públicas; e o canto dos hinos africano e moçambicano. O estudo refere ainda a realização de debates em linha com figuras nacionais e internacionais.
A investigação conclui que a mobilização digital ultrapassou o espaço virtual e se traduziu em acções concretas, com milhares de cidadãos a participarem nos protestos em diferentes pontos do país, uma situação que afectou a circulação rodoviária; e o funcionamento de actividades económicas e infra-estruturas estratégicas, incluindo corredores de transporte e postos fronteiriços.
Um dos episódios mencionados é o encerramento do posto fronteiriço de Ressano Garcia, uma importante rota comercial entre Moçambique e a África do Sul; e o bloqueio da Estrada Nacional Número 1.
O estudo, publicado esta segunda-feira, enquadra os protestos num contexto mais amplo de descontentamento com a Frelimo, partido no poder desde 1975, associado pelo autor a factores como a deterioração das condições democráticas, os escândalos de corrupção, a pobreza, o desemprego, as violações dos direitos humanos e as insuficiências dos serviços públicos.
O estudo salienta que o papel das redes sociais não deve ser analisado isoladamente, uma vez que a capacidade de mobilização também depende das condições políticas, económicas e sociais existentes no país. Aborda também aslimitações tecnológicas em contextos de autoritarismo, sobretudo a interrupção no acesso à internet, registadas durante a crise, nos meses de Outubro e Novembro de 2024. Estas restrições, explica a análise, não impediram a mobilização, tendo alguns utilizadores recorrido a redes privadas virtuais para contornar os bloqueios.
Com base na análise de publicações nas redes sociais, sobretudo na página de Facebook de Venâncio Mondlane, o estudo reuniu inicialmente 304 publicações, das quais 97 foram seleccionadas para a análise final. Adoptou ainda uma abordagem qualitativa, recorrendo à observação de comunidades digitais e à análise de conteúdos e temas relacionados com as estratégias de mobilização.
A finalizar, Nhantumbo propõe que as seis estratégias identificadas sejam utilizadas como modelo de análise da participação política em contextos autoritários, incluindo noutros países com características semelhantes aMoçambique. Contudo, reconhece que são necessárias investigações adicionais para explicar por que razão a mobilização de Outubro de 2024 a Janeiro de 2025 não resultou numa alteração do regime político em Moçambique, apesar da adesão popular e das expectativas de mudança que gerou.





