Enquanto o vizinho município da Matola nos dá lições de proximidade governativa, o Distrito Municipal da Ka-Tembecontinua mergulhado num profundo sentimento de abandono. Recentemente, vimos o presidente do município da Matola, Júlio Parruque, abandonar o conforto do seu gabinete para se fazer às ruas e aos bairros, para auscultar as preocupações genuínas dos munícipes.
No bairro de Bunhiça, além de lançar a construção da nova secretaria local, Júlio Parruque assumiu frontalmente o peso da demografia da Matola, reconhecendo a responsabilidade de responder, com qualidade e rapidez, à crescente procura por serviços públicos. Mais do que discursos, anunciou acçõesconcretas: o arranque de obras em valas de drenagem para mitigar os impactos da iminente época chuvosa, mesmo com a ameaça do fenómeno El Niño.
Do nosso lado da baía, a realidade contrasta dolorosamente. No município onde resido — o 7.º distrito, a nossa Ka-Tembe —, o cenário é de esquecimento. É verdade que, por razões geográficas, não nos ressentimos de cheias e inundações dramáticas (excepto a baixa de Guachene). Contudo, ressentimo-nos, sim, de uma ausência gritante da liderança que escolhemos para dirigir o destino da nossa cidade.
Sentimos falta de ver o Presidente do Município de Maputo, o Senhor Razaque Manhique, fora das quatro paredes do seu gabinete em missões propriamente municipais. É importante sublinhar que, quando o edil esteve este ano na Ka-Tembe, fê-lo apenas à boleia da agenda do Presidente da República, por ocasião da inauguração do Centro de Coordenação de Monitorização, Controlo e Vigilância das Pescas da SADC, realizada a 11 de Junho de 2026.
Essa visita era do Chefe de Estado e não do nosso edil. Gostaríamos que a visão do município não se limitasse a figurar em comitivas oficiais ou a focar-se no “coração” de Maputo e no distrito de KaMpfumo, que continuam a beneficiar de grandes obras de requalificação do sistema de drenagem e saneamento. A Ka-Tembe também é Maputo, mas a sensação actual é de que fomos empurrados para a periferia da prioridade política.
Sabemos, obviamente, que as ocupações de um edil são vastas e complexas. No entanto, o abandono a que estamos votados não pode ser justificado pela agenda preenchida. Esta não é uma crítica infundada ou de última hora. Só nesta coluna da Carta de Moçambique, já escrevemos mais de 15 (quinze) crónicas dedicadas à Ka-Tembe. Denunciámos, com insistência, a incompreensível interrupção da construção da estrada, em pavê,que parte da rotunda até ao posto policial da Marinha. A resposta? O silêncio. Questionámos sobre a problemática da falta de iluminação pública que deixa as nossas vias às escuras e vulneráveis. Idem. Alertámos para a venda irregular de terra e abordámos a crise gritante dos transportes semicolectivos que sufoca o dia–a–dia dos residentes de bairros como Marinha e Chamissava. Para todas estas inquietações, o retorno foi o vácuo.
Para agravar este quadro de desolação, assistimos hoje, impotentes, ao avanço galopante das construções desordenadas.A Ka-Tembe, que historicamente nunca conviveu com esta realidade de caos urbanístico, está a ser retalhada sem planeamento. Este crescimento sem regras é uma bomba-relógio que, num futuro muito próximo, vai trazer sérios e irreversíveis problemas de habitabilidade e infra–estrutura. Perante esta ameaça, o vazio institucional é absoluto: aqui, nem o Presidente, nem os Vereadores, muito menos os administradores distritais se fazem sentir. Há uma total demissão de funções a todos os níveis da máquina municipal.
A iluminação pública deficiente, as estradas degradadas, o ordenamento do território à deriva e a asfixia nos transportes são hoje os pontos mais críticos do nosso distrito. Por estas e mais razões, hoje assumimos, sem hesitação, um doloroso sentimento de orfandade em relação à liderança do nosso município.
É preciso que fique claro: esta reflexão não constitui um ataque cego à nossa edilidade, mas sim o reflexo de uma preocupação legítima sobre o nível e a forma como o nosso distrito é tratado. No debate público e nos discursos políticos, todos repetem, quase em uníssono, que a Ka-Tembe é o “futuro” de Maputo. Mas nós não queremos ser o futuro; nós exigimos ser o presente.
À semelhança do que o edil Júlio Parruque faz na Matola, os munícipes da Ka-Tembe exigem ver o Senhor RazaqueManhique e a sua equipa a caminhar nos nossos bairros por iniciativa própria. Queremos que venha auscultar e conhecer, de perto e sem filtros, os desafios de quem vive aqui e agora. Governar é, acima de tudo, estar presente. E a Ka-Tembe precisa de respostas no presente para não ver o seu amanhã hipotecado.



