Há precisamente uma semana, desloquei-me à fábrica cervejeira da Heineken, em Bobole, na província de Maputo, numa missão de serviço em representação da organização para a qual trabalho. O que poderia ter sido apenas mais uma rotina na agenda profissional, transformou-se, entretanto, num autêntico choque de realidade. Ali, diante dos meus olhos, tive um vislumbre daquilo que o nosso país pode ser quando a grande indústria se alia de forma genuína ao compromisso social.
Pela primeira vez, estive dentro de uma unidade fabril deste calibre. O que mais me saltou à vista não foram as imponentes máquinas ou a sofisticação dos processos, mas sim o rosto das pessoas. No refeitório, entre garfadas e conversas informais com os colaboradores, percebi a alma daquele ecossistema – a diversidade! Ali convivem a energia da juventude e a maturidade dos mais velhos. Mais do que isso, soube que a empresa assume uma política clara de absorção de mão-de-obra local. Em projectos que não exigem qualificações de nível superior ou especializações complexas, existem quotas de até 60% reservadas para a população daquela região. É a indústria a gerar pertença, dignidade e sustento directo para quem vive à sua volta.
Foi inevitável não fazer o caminho de volta com o pensamento fixo na minha Ka-Tembe. Olho para Ka-Tembe e vejo um território com um potencial gigante, mas cujos jovens parecem condenados à um horizonte limitado. Hoje, a grande força motriz da nossa juventude local é absorvida quase em exclusivo pelo sector das táxi-motas. São jovens cheios de energia, focados e trabalhadores, mas que operam na informalidade e na precariedade das nossas estradas, sem perspectivas reais de progressão ou de estabilidade a longo prazo. Toda essa força laboral e vital acaba por ser subaproveitada.
Uma fábrica deste calibre na Ka-Tembe seria, sem exagero, o autêntico “ouro sobre o azul”. Imaginemos o impacto estrutural de uma grande unidade industrial instalada na nossa margem da baía, desenhada com o mesmo modelo de responsabilidade que vi em Marracuene. O impacto seria imediato: os nossos jovens deixariam de guiar apenas motas para passar a conduzir o próprio desenvolvimento da comunidade, inseridos num ambiente de trabalho formal, seguro e com transferência de conhecimento.
Uma grande indústria não serve apenas para produzir bens, serve para impulsionar infra-estruturas, activar o comércio local e dar um propósito económico a uma região que há muito espera pelo verdadeiro boom de desenvolvimento que a ponte prometeu, mas que o quotidiano ainda tarda em massificar.
A experiência em Bobole prova que é possível industrializar Moçambique sem esquecer os moçambicanos que vivem no seu redor. A Ka-Tembe tem o espaço, tem a localização e, acima de tudo, tem a energia perfeita da juventude. Falta-nos agora a visão política e a atractividade económica para trazer este nível de investimento para o nosso lado do mapa. A nossa juventude merece mais do que o volante de uma mota; merece ser o motor do nosso futuro industrial.




