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20 de September, 2026

NOÉMIA DE SOUSA, 100 ANOS

Escrito por

“Quando eu nasci na grande casa à beira-mar

era meio-dia e o sol brilhava sobre o Índico.

Gaivotas pairavam, brancas, doidas de azul.

Os barcos dos pescadores indianos não tinham regressado ainda

arrastando as redes pejadas”.

(Noémia de Sousa – “Poema da Infância Distante”)

Noémia de Sousa, de seu nome completo Carolina Noémia Abranches de Sousa, nasceu a 20 de Setembro de 1926, na Catembe, na outra margem da velha Baía do Espírito Santo, numa casa colonial — «na grande casa à beira-mar» , debruçada sobre o Índico e a vetusta Lourenço Marques, com varanda a toda a volta. Era a mais nova de seis irmãos.

A mãe, filha de pai alemão e mãe ronga, chamava-se Clara Brüheim (Milidanssa, seu nome ronga) e era mestiça (de branco e negro). Os avós alemães eram caçadores e comerciantes; muitos casaram com filhas dos chefes locais para garantir alianças proveitosas. Parece ter sido o caso dos pais de Max Brüheim, avô materno da poetisa. A avó materna chamava-se Belenguana e era originária da Bela Vista, conhecida por Maputo, que viria a dar nome à capital moçambicana.

O pai era descendente de portugueses, goeses e macuas e nascera na mítica Ilha de Moçambique. A família paterna de Noémia já reflectia essa mistura. O bisavô, José Vicente Alexandre Ventura da Gama (nascido em Goa), foi juiz e era uma importante personalidade na Ilha. Foi quem mandou construir o palácio da Cabaceira. Chegou a presidente da câmara municipal da Ilha e é autor do primeiro livro impresso em Moçambique. No total, teve 6 filhos, sendo 3 fruto do casamento e 3 de Claudina do Livramento (a bisavó de Noémia de Sousa). Em 1858, nasceu Maria José Gama (avó da poetisa), que casou com António Paulo de Sousa de Almeida Cardoso de Abranches, oficial da marinha. Estes seriam os progenitores do pai de Noémia de Sousa.  

O jovem António Paulo Abranches da Gama e Sousa foi cedo para Lourenço Marques estudar. Fez o ensino secundário, aprimorou línguas e, mais tarde, entrou no funcionalismo público, chegando a alto funcionário da Administração. Goeses ou seus descendentes preenchiam muitos desses cargos, dada a escassez de portugueses e a exclusão dos indígenas. Mais tarde, até os goeses enfrentaram óbices, como o serviço militar obrigatório para certos cargos — exigência a que os mestiços não podiam aceder. As relações sociais mudaram dramaticamente com o Acto Colonial e a política de assimilação.

A sociedade colonial era extremamente estratificada. Ainda que goeses e mestiços ocupassem posições intermédias, eram considerados inferiores aos brancos. A trajectória da família Abranches de Sousa revela uma progressiva perda de estatuto: inicialmente residiram na Ponta Vermelha, zona nobre onde nasceram os primeiros filhos; posteriormente mudaram-se para o centro, perto da antiga Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a actualcatedral; mais tarde, instalaram-se na Catembe, onde tinham vastas propriedades.

António Paulo construiu aí a sua casa, mantendo o emprego do outro lado da baía. Noémia e o irmão, que lhe antecede, nasceram nessa casa à beira-mar, com varanda de madeira, inicialmente erguida sobre estacas de madeira, que foram substituídas posteriormente por betão. À época, havia poucos vizinhos: alguns portugueses ligados ao comércio e à restauração; goeses e indianos na aldeia piscatória; e população negra em casas precárias no Guachene.

Os dois irmãos mais velhos, Camila e Paulo, foram enviados para Portugal, onde ficaram com familiares paternos. A mãe opôs-se ao encaminhamento dos restantes filhos. Noémia só conheceria esses irmãos muitos anos depois. Os quatros filhos mais novos permaneceram em Moçambique, mantendo contacto por correspondência com os dois em Portugal.

O pai tinha vastos interesses culturais: lia, fotografava, ouvia música. Coleccionava publicações como “Ilustração Portuguesa” e lia Eça de Queirós e Oliveira Martins. Acompanhava também a obra de Mário Domingues, figura relevante do jornalismo e da literatura africana, nascido na Ilha do Príncipe e ligado ao anarquismo em Portugal. O seu filho, o pintor António Domingues, viria a conviver com Noémia de Sousa nas lides literárias, culturais e políticas dos anos 50 e 60.

A mãe, sem formação escolar significativa, transmitiu-lhe a cultura ronga. Vestia capulana; só após o casamento tardio passou a usar vestidos, enquanto senhora Abranches de Sousa. Noémia assistiu ao matrimónio dos pais na actual catedral.  António, católico praticante, ia à missa todos os domingos e apresentava-se com aprumo: colete, corrente de relógio, colarinhos engomados e camisas pregueadas; mais tarde, fatos e chapéu alto.

Noémia aprendeu a ler muito cedo com o pai, rodeada de livros, jornais e revistas. “O Século” publicava o suplemento ilustrado “Pim Pam Pum”, cujas histórias pedia ao pai que lhe contasse; ele preferiu ensiná-la a ler pela “Cartilha Maternal” de João de Deus. Abranches de Sousa, homem culto que lia em inglês, francês e alemão, reconheceu na filha mais nova interesse e curiosidade e estimulou-a. Em casa, falava-se português; a mãe usava maioritariamente o ronga, excepto na presença de visitas.

As crianças brincavam no Guachene, atravessavam machambas, colhiam frutas e viviam com liberdade. Muitos dos seus companheiros não falavam português — só os que frequentavam as praias. Mais tarde, recordará: «Figuras inesquecíveis da minha infância arrapazada, / solta e feliz: / meninos negros e mulatos, brancos e indianos, / filhos da mainata, do padeiro, / do negro do bote, do carpinteiro, / vindos da miséria do Guachene

Aos seis anos, a família mudou-se para Lourenço Marques, a cidade branca. Antes disso, o pai, reformado do funcionalismo público, trabalhara no Banco Nacional Ultramarino. Noémia recorda-se de o esperar no pontão ao fim da tarde; no Verão, ainda mergulhavam na praia antes do jantar.

Eram tempos felizes. A casa da Catembe era ponto de passagem para viajantes vindos do interior, do antigo Maputo, mulheres com cestas na cabeça e homens de bengala, que ali pernoitavam antes de alcançar Lourenço Marques. Contavam-se histórias à noite, em volta da fogueira, e as crianças faziam coro quando se introduziam ou finalizavam as histórias: «Karingana ua karingana.» Essas noites mágicas cessaram com a mudança para Lourenço Marques.

Noémia frequentou a escola Primeiro de Janeiro, depois Correia de Silva. Tinha colegas brancos, mulatos e goeses; indianos, muçulmanos, hindus e indígenas frequentavam escolas separadas. Destacava-se pela curiosidade e vontade de aprender, com bom aproveitamento, sobretudo na redacção. Não prosseguiu para o liceu por dificuldades económicas da mãe, viúva e com seis filhos, dois dos quais em Portugal.

A sociedade continuava profundamente discriminatória. Embora pudesse frequentar certos espaços, como as escolas oficiais ou os cinemas, outros, como o Clube Naval ou o Hotel Polana, eram vedados a não brancos. Em alguns cafés, recusavam servi-los. Esses acontecimentos marcaram-na profundamente.

Os negros dividiam-se entre assimilados e indígenas; apenas os primeiros tinham acesso a certas instituições. No tempo em que Noémia estudava, havia poucos assimilados em Lourenço Marques. A discriminação racial e o sentimento de racismo tornavam a desigualdade evidente e, na adolescência, Noémia já tinha consciência dessa realidade.

Em casa, discutiam-se essas tensões sociais, incluindo práticas de “apuramento da raça” entre mestiços e a ostentação de apelidos estrangeiros. Apesar do nome Brüheim, por parte da mãe, a família não fazia questão de o exibir.

Na escola técnica, aprende francês e inglês, em que tem bons professores. Beneficia da biblioteca do pai, onde há livros e publicações em inglês, francês e alemão. Vê filmes em inglês, como “Pigmalião”, de Leslie Howard (um actor e cineasta britânico famoso na sua época, que morreu, em 1943, num avião abatido pelos nazis quando viajava entre Lisboa e Bristol).

Lê autores afroamericanos, como Richard Wright, cuja obra aborda o racismo e as lutas civis nos Estados Unidos. “Native Son foi um marco editorial, o primeiro bestseller de um autor negro nos Estados Unidos; “BlackBoy”, considerada a sua obra-prima, narra a sua pobre infância no Sul marcada pela segregação racial.

Emprega-se na firma Gulamhussen & Companhia, Lda., conciliando trabalho e estudos até concluir o quarto ano comercial. Trabalha durante o dia e estuda à noite. Com a morte do pai, perde um orientador intelectual, mas herda a sua biblioteca. Começa então a escrever.

De uma geração de seis, Noémia é próxima de Nuno:fazem jornais, conversam até à madrugada, numa época em que se recolhia cedo, partilham amigos. Antero, amigo do seu irmão Nuno, estava num grupo de jovens que se agregavam à volta do jornal da Mocidade Portuguesa, queriam subverter a publicação – disseram-lhe – e pedem-lhe colaboração. Noémia escreve Canção fraterna”. Embora assinasse Carolina Abranches à época, nas suas colaborações de “O Brado Africano”, o texto literário haveria de levar as iniciais N.S.

O poema criou evidente alvoroço. À época ninguém escrevia com aquela desenvoltura, aquele tipo de poesia. José Craveirinha, que lhe mostrara sonetos, que praticava,ainda desconfiou tratar-se de uma criação Nuno Abranches de Sousa. Estávamos nos finais dos anos 40. O grupo dos ruis (Knopfli, Guerra e Guedes), que se agregariam à volta do “Itinerário”, também ficaram espicaçados. Quem seria N.S.?

 Seria, no entanto, a reacção de espanto, de Augusto dos Santos Abranches, a um poema publicado em “O Brado Africano”, igualmente assinado N.S., intitulado “Poesia, não venhas”, que iria, nas palavras da autora, salvar-lhe do anonimato futuro. Inicialmente, Augusto dos Santos Abranches pensara tratar-se de um plágio, mas depois concluirá ser um texto autêntico. Pareceu-lhe espantoso.Disse-me Noémia de Sousa anos mais tarde: “Se não tivesse surgido um Augusto dos Santos Abranches a chamar atenção para o meu nome talvez ele permanecesse desconhecido até hoje”.

Augusto dos Santos Abranches, que dirigira em Coimbra a famosa Portugália Editora, não terá influência sobre a jovem intrépida, como enganosamente alguns críticos irão referir futuramente. Foi, contudo, uma personagem importante no pequeno meio da velha cidade colonial. Trabalhou na Minerva, coordenou páginas literárias (“Sulco”), esteve na última fase do “Itinerário”. Foi influente para os jovens que então surgiam. Quem exerce influência sobre Noémia de Sousa e, de certo modo, algum magistério, é Cassiano Caldas, funcionário dos Caminhos de Ferro e intelectual ligado ao “Itinerário. Sobretudo iniciando os jovens da sua época na leitura dos neo-realistas, dando-lhes a conhecer a revista “Vértice(onde haveria de ler e conhecer a poesia de Nicolás Guillén) ou a ler os livros de Jorge Amado, como Jubiabá”.

Noémia já tinha lido, entretanto, os negros americanos. Fizera-o através de um embarcadiço que lhe trazia das viagens livros e o eco dos seus convívios com os negros americanos. O Sul dos Estados Unidos e Moçambique pareciam-lhe subscrever alguma similaridade. Sobretudo quanto ao racismo, à discriminação e às desigualdades. Foi dessa realidade, e não da “Negritude” – irá conhecer mais tarde os seus protagonistas e traduzirá o célebre “Discurso sobre o colonialismo”, de Aimé Césaire, que ela encontrou a força motriz da sua poesia. Foi nessa época que conheceu a história trágica de “Strange fruit”, que estaria na origem de um poema de Lewis Allan (Abel Meeropol) que a mítica Billie Holiday deu voz, a quem dedicará um dos poemas do seu “Sangue Negro: “e era só melancolia / do princípio ao fim”.

João Mendes, cujo nome consta do frontispício do livro “Sangue Negro”, ao lado do nome de Cassiano Caldas, foi quem estabeleceu a ponte entre ela e os míticos ruis: Knopfli, Guerra e Guedes e a malta que frequentava o Núcleo de Arte. Fonseca Amaral, embora fizesse parte da tertúlia, era um homem ensimesmado. Noémia ia à casaRuy Guerra na companhia do Ricardo Rangel, e por vezes aos encontros doItinerário”. Ela era da ala do “BradoAfricano” e da Associação Africana, mas tinha amigos no outro lado da cidade. Alguns estranhavam que ela frequentasse a Escola Técnica e fosse dada às letras.

Nos anos 50, fingindo um encontro inofensivo, no Jardim Paraíso, redigem – José Craveirinha, Noémia de Sousa, Dolores López y López e Ricardo Rangel – um manifesto exigindo a independência de Moçambique. Estamos ainda longe dos movimentos libertários. Ela tinha já uma actividade política clandestina. Pertencera ao MUD-Juvenil. Colava cartazes e panfletos à noite, sobretudo com Ricardo Rangel e João Mendes, que será degredado. Fez parte do grupo de jovens que ajudavam na Associação Africana, sucedânea do Grémio Africano, fundado pelo jornalista João Albasini.

O surgimento de Noémia de Sousa quebra um marasmo que perdurava desde a morte de Rui de Noronha na poesia moçambicana.  Noronha (1909-1943) tinha sido a grande figura literária nos anos da sua juventude. Augusto dos Santos Abranches: “Moçambique dorme ou mede as suas divagações pela intensidade do luar da noite”. Noémia não conviveu com o poeta, mas lembrava-se de o ver passar em frente da sua casa. Conhecia-o de vista. “Poema para Rui de Noronha”: “Rui de Noronha / nesta nova África de certezas e forças restauradas, / no meio dos “paixões”e das bebedeiras do natal, / vens-me tu, torturado e solitário, / ainda projectado para os fundos abismos do teu eu”.  

O mesmo em relação à João Dias, precursor da ficção moçambicana, cujo centenário se assinalou este ano, a 21 de Maio. Via-o na rua. Não chegaram à fala. As irmãsDias, sim, frequentavam a sua casa, eram amigas das suasprimas. Lembra-se de as ouvir falar do irmão, que fora muito jovem estudar para Portugal e da esperança que depositavam no filho do celebrado jornalista Estácio Dias. No poema “Godido escrito à memória de João Dias, diz Noémia de Sousa: “Quando cheguei / trazia no olhar a luz verde dos negros simples / e uma dádiva maravilhosa em cada mão”.

Estes são alguns dos seus predecessores. No emblemático poema “Deixa passar o meu Povo” pode estar inscrita, de algum modo, a chave da sua poesia: “vozes da América remexem-me a alma e os nervos” ou “não poderei deixar-me embalar pela música fútil / das valsas de Strauss”. “Escrevo…/ Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar. / Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado / e revoltas, dores, humilhações, / tatuando de negro o virgem papel branco”. O poema que inicia a sua obra poética (“Nossa voz”), dedicado a José Craveirinha: “Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara / sobre o branco egoísmo dos homens / sobre a indiferença assassina de todos”.

A Antero Machado, o amigo do mano Nuno, que lhe pediu aquele poema inicial, dedicará o poema “Se me quiseres conhecer”: “Se me quiseres conhecer, / estuda com os olhos bem de ver / esse pedaço de pau preto / que um desconhecido irmão maconde / de mãos inspiradas / talhou e trabalhou / em terras distantes lá do Norte”. Palavras de pitonisa, voz de sibila. Era já uma mulher consciente do seu papel e sobretudo revoltada.

Francisco Noa: “Divindade maior desta cosmologia é a liberdade ansiada (e ensaiada) e o exercício da palavra como instrumento consciencializador e agonístico. E a expressão arrebatada se, por um lado, subjectiva a expressão poética em Noémia, por outro, confere-lhe uma dimensão majestática e que faz do sujeito rapsodo das dores, dos anseios, da revolta, das resignações e dos mitos dos flagelados irmanados por um destino comum determinado pela ocupação colonial”.

 Esta voz rude ímpia, brutal, feroz, selvagem, instintiva, brava, indócil, laboriosa, perseverante surge, na sua ferocidade juvenil, com uma espantosa maturidade. É, ao mesmo tempo, uma voz esplendente, deslumbrante, magnificente. É assombrosa e portentosa. A esta distância, ainda assim, não se consegue atingir a dimensão da sua força telúrica. Ah, essa sou eu: / órbitras vazias no desespero de possuir a vida, / boca rasgada em feridas de angústia, / mãos enormes, espalmadas”. Esta é uma voz sublime.

Voz indignada, colérica ou enfuriada, contra a resignação, consciência do ser moçambicano, da sua condição, da sociedade injusta, voz insubmissa, intrépida. A voz do grito. Grito negro, mestiço, solitário e solidário. Voz livre e libertária. Voz e condição primeira da “poesia de raiz marcadamente moçambicana”, como avisadamente lhe designou Rui Knopfli, a quem Noémia dedica o poema “Bayete”. Em três anos, entre os 22 e os 25 anos, isto é: entre 1948 e 1951, escreve a poesia que constitui hoje o seu espólio. O nosso espólio. O espólio da moçambicanidade. O espólio da africanidade. Forçada a exilar-se, arrancada da terra e das suas gentes, da sua condição negra e mestiça, não escreve mais, à excepção de dois poemas, um na morte de Samora Machel, arrancado a ferros pelo sobrinho Camilo e aquele no qual acena aos antepassados.

 Entretanto, Noémia de Sousa subscrevia há muito a condição de mito. Os seus poemas tornaram-se hinos: “Nossa Voz”, “Se me quiseres conhecer”, “Poema da infância distante”, Zampungana”, “Moça das docas”, Sangue negro”. Era lida e admirada não só em Moçambique, mas em todos outros países africanos de língua portuguesa. A sua voz chegara ao Brasil. No seu país de origem, os jovens reivindicavam-na. Esquecida apenas dos palácios.  Aliás, este fenómeno irá continuar ao longo da década 90 e no início do século XXI: a sua poesia é redescoberta pelos jovens, que a proclamam e a conclamam com jubilosa energia. Dizem os seus poemas, declamam os seus versos, reverberam-na. Em 1996, quando faz 70 anos, é-lhe prestada uma homenagem pública.

 50 anos sobre a data em que cessara a sua escrita, lançámos, finalmente, o seu livro Sangue Negro”. Foi a 20 de Setembro de 2001, no dia dos seus 75 anos. Durante os anos em que convivi com Noémia fui um dos que insistiram para que publicasse em vida o seu legado. Ela anuiria e haveria de me incumbir a responsabilidade de coordenar esta edição. Queria a participação da Fátima Mendonça e do Francisco Noa, que irão assinar os textos ensaísticos que acompanham a obra. Também queria que a chancela fosse da AEMO. Foi com gáudio que o fizemos. Ela já se encontrava muito debilitada pela doença. Ainda fui, meses depois, na companhia da Fátima Mendonça, visitá-la. Levávamos o livro. Ficámos deprimidos ao vê-laapática.

Felizmente e finalmente ela acedera e conseguimos tributar-lhe em vida a nossa veneração, a nossa amizade, a nossa devoção. Inicialmente chancelado pela AEMO, “Sangue Negro” foi, posteriormente, publicado pela Marimbique, em Moçambique, e, posteriormente, em 2016, pela brasileira Kapulana, de Rosana Morais Weg. Uma edição em francês, com tradução de Elisabeth Monteiro Rodrigues, saiu em 2024 na Editions Project-îles. Estranhamente não está editada em Portugal.  

 “Para lá daquela curva / os espíritos ancestrais me esperam. // Breve, muito breve / tomarei o meu lugar entre os antepassados”, escreveu Noémia de Sousa no poemaintitulado “A mulher que ri à vida e à morte. Faleceria a 4 de Dezembro de 2002.

Para celebrar os seus 100 anos, escrevi “Se Me Quiseres Conhecer – Noémia de Sousa: Biografia Literária”, que acabo de publicar na Marimbique e na editora Kapulana, no Brasil. Nesta obra misturo lembranças pessoais e vasta informação que advém do meu conhecimento da sua obra e da sua trajectória literária e política. É uma homenagem e um dever de memória de quem conheceu, conviveu, amou e ama Noémia de Sousa.

Penso que tenho o dever de partilhar o pouco que sei e conheci de Noémia de Sousa e do privilégio que tive no convívio de anos com ela. Aqui a relembro, nesta evocação hoje, nos 100 anos do seu nascimento, para que o nome da Noémia de Sousa não subscreva o anátema da desmemória e do descaso.

É preciso lembrar, celebrar e festejar sempre Noémia de Sousa.

Viva Noémia de Sousa!

 

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